Equador: Um exemplo na América Latina
por João Ferreira (tirado da web "Avante")
Uma delegação do Parlamento Europeu deslocou-se recentemente ao Equador. Objectivos: aprofundar o conhecimento sobre a realidade política, económica e social equatoriana e debater aspectos das relações entre este país da cordilheira andina e a União Europeia.
A corajosa rejeição pelo Equador, em 2009, dum acordo de livre comércio com a UE agitou os interesses económicos e financeiros que costumam beneficiar da desregulação do comércio e, bem assim, os seus representantes políticos. Este foi, por conseguinte, um dos temas dominantes da visita. Mas a agenda da delegação, que incluiu reuniões com diversos membros do governo equatoriano e com o próprio presidente, Rafael Correa, esteve longe de se restringir às questões comerciais.
Esta foi uma excelente oportunidade para olhar mais de perto as profundas transformações em curso no Equador, um dos mais pequenos países da América do Sul, com 14,5 milhões de habitantes. À primeira vista, pouco nos aproxima deste país, que se estende da costa do Pacífico à floresta amazónica, passando pelas cordilheiras serranas com mais de seis mil metros de altitude, sem esquecer as famosas Ilhas Galápagos. No entanto, é difícil olhar para a história recente do Equador sem identificar nela fortes paralelos com a realidade hoje vivida por países como Portugal. Os caminhos seguidos, aqui e na América Latina, são todavia de sentido oposto – o que, por si só, torna ainda mais interessante e útil este olhar.
Até meados da década passada, a realidade equatoriana era marcada por políticas bem nossas conhecidas. À semelhança do que sucedeu em tantos outros países latino-americanos, os epígonos do neoliberalismo levaram à prática, durante anos, as teorias do «Estado mínimo»: programas de ajustamento talhados à maneira do FMI; privatizações de recursos e sectores-chave da economia; mercantilização de inúmeras esferas da vida social (saúde, ensino, etc.). As consequências: desigualdades sociais extremas, pobreza, desemprego; uma economia dependente e periférica; uma colossal dívida externa, autosustentada por um asfixiante serviço da dívida.
Em 2006, dá-se uma ruptura profunda com este caminho. Correa, recém-eleito, declara a suspensão do pagamento da dívida e uma imediata renegociação. «A vida antes da dívida», avisou o presidente. Este foi o início dum processo que envolveu a elaboração e aprovação da nova Constituição do país, de matriz progressista e ecologista, e uma democratização e reconfiguração profunda do Estado, com o reforço do seu papel – na planificação, na produção, na regulação e na distribuição da riqueza. Renegociou-se contratos com privados (incluindo várias multinacionais), que eram lesivos dos interesses do Estado; o investimento público em percentagem do PIB mais do que duplicou; apostou-se na produção nacional e na substituição progressiva de importações; defendeu-se os sectores económicos mais débeis, recusando os acordos de livre comércio com os EUA e a UE; aumentou substancialmente a parte do rendimento nacional destinada a remunerar o trabalho, com elevação significativa dos salários mais baixos; alargou-se a cobertura dos sistemas de saúde, ensino e segurança social. Tudo isto enquadrado por um plano de desenvolvimento do país, elucidativamente chamado «Plano Nacional para o Bem-Viver». O balanço de cinco anos de aplicação deste Plano não deixa margem para dúvidas: o Equador apresentou em 2011 a terceira maior taxa de crescimento económico da América Latina – oito por cento (cerca do dobro da média da região); a taxa de pobreza caiu dez pontos percentuais e diminuíram as desigualdades sociais; o desemprego atingiu o nível mais baixo de sempre (cinco por cento); o país subiu seis posições no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, ficando à frente de países como o Brasil.
Em cinco anos, a dívida externa equatoriana passou de mais de 100 por cento do PIB para cerca de 20 por cento e o peso do serviço da dívida, que antes representava quase um quarto do orçamento anual do Estado, hoje não vai além dos sete por cento.
Correa afirma que o Equador, mais do que uma época de mudanças, vive uma «mudança de época». A época das «armadilhas institucionais», que garantiam a persistência das políticas independentemente dos seus protagonistas, em que o FMI revia as contas e definia as políticas, ficou para trás. Hoje, «se algum burocrata do FMI aterrar no Equador, volta para trás no mesmo avião. Não os queremos cá!», afirmou o presidente numa reunião com os parlamentares europeus.
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Porquê o silêncio sobre a Islândia?
Theo Buss :: 10.04.12
Os acontecimentos que sucederam ao desencadear da crise na Islândia - demissão em bloco do governo; nacionalização da banca; referendo, de modo a que o povo se pronuncie sobre as decisões económicas fundamentais; prisão dos responsáveis pela crise e reescrita da Constituição pelos cidadãos – têm sido sistematicamente silenciados. Compreende-se porquê. Mas há a necessidade de divulgar esse exemplo.
Se há quem acredite que nos dias de hoje não existe censura, então que nos esclareça porque é ficámos a saber tanta coisa acerca do que se passa no Egipto e porque é que os jornais não têm dito absolutamente nada sobre o que se passa na Islândia.
Na Islândia:
- o povo obrigou à demissão em bloco do governo;
- os principais bancos foram nacionalizados e foi decidido não pagar as dívidas que eles tinham contraído junto dos bancos do Reino Unido e da Holanda, dívidas que tinham sido geradas pelas suas más políticas financeiras;
- foi constituída uma assembleia popular para reescrever a Constituição.
Tudo isto pacificamente.
- o povo obrigou à demissão em bloco do governo;
- os principais bancos foram nacionalizados e foi decidido não pagar as dívidas que eles tinham contraído junto dos bancos do Reino Unido e da Holanda, dívidas que tinham sido geradas pelas suas más políticas financeiras;
- foi constituída uma assembleia popular para reescrever a Constituição.
Tudo isto pacificamente.
Rajoy Repsol, dúas varas de medir.
Clodomiro Montero M.
Cando a empresa rusa Lukoi quixo mercar o 30% do accionariado de Repsol-YPF, Rajoy, daquela líder da “oposición” dixo que poñer o petróleo e a enerxía “españolas” en mans dunha empresa rusa nos convertería nun país de “quinta división”. Debería entender pois que o goberno do país irmán de Arxentina trate de recuperar o control sobre os seus propios recursos enerxéticos.Resulta escandaloso que o Ministro de Asuntos Exteriores do “Reino de España” dixera na súa comparecencia pública que o papel da diplomacia é defender ás empresas españolas. Unha demostración da deturpación do papel dos Estados que dende a súa óptica non deben de defender os intereses da cidadanía, si non das empresas.
Con todo o PPSOE fan campaña a favor dos intereses das grandes empresas e multinacionais que lles dan de comer, así non é estraño que teimen no libre mercado fronte a xusta decisión do goberno democrático da Arxentina, pero non confiaban no mesmo cando a rusa Lukoi quixo adquirir un paquete accionarial de Repsol. Unha dobre vara de medir.
Ademais defender a Repsol é defender a súa actuación en América Latina, o que resulta imposible para aqueles que coñecen como traballa esa empresa. Repsol foi denunciada por diferentes organizacións internacionais polo seu comportamento neocolonial, depredador, contaminante e antisocial en América Latina.
Greenpeace no estudio”Los nuevos conquistadores, multinacionales españolas en América Latina” denunciou os graves casos de contaminación e espolio por parte de Repsol en Arxentina ou Colombia. Non é novo, tamén na Galiza sabemos da contaminación de Repsol, como denunciou o BNG no Parlamento Español a refinería da Coruña virte mais de 6.000 toneladas de residuos anuais ao mar.
O informe de Greenpeace lembra tamén a política laboral de Repsol, os despedimentos e precarización dende que YPF foi privatizada. Sen ir mais lonxe o coñecido movemento piquetero ten a súa orixe nas protestas contra os recortes laborais por parte da multinacional de orixe español.
Pero non é só unha cuestión de espolio e contaminación, Amnistía Internacional ten denunciado a colaboración de Repsol con grupos paramilitares en Colombia.
Non se trata só que sexa nacionalizada, a Dirección de Repsol debería pedir desculpas públicas e debería indemnizar ás poboacións afectadas polas súas políticas en América Latina.
Aquelas persoas que defendemos outro modelo de sociedade apoiamos os pasos dados polo goberno argentino, coa mesma forza que rexeitamos as políticas privatizadoras e recortes que hoxe sufrimos nos. Agardando que antes que chegue ao poder unha opción política que opte pola nacionalización dos sectores económicos estratéxicos para o noso país.
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Ligazóns:
- Video Rajoy:
http://www.youtube.com/watch?v=mq_KVBvyEAE&feature=player_embedded
- Amnistia Internacional:
http://www.es.amnesty.org/noticias/entrevistas/entrevista/articulo/muchos-han-muerto-por-decir-la-verdad/
- BNG refinería a Coruña
http://terranoticias.terra.es/articulo/html2/av23315273.htm
- Informe Greenpeace
http://www.greenpeace.org/espana/Global/espana/report/other/090930-03.pdf
[Galiza, 17 de abril de 2012]
[Artigo tirado do sitio web portugués ‘Esquerda.net’, do 16 de abril de 2012]
Em 2012, duas eleições presidenciais muito importantes e altamente disputadas ocorrem em França (22 de abril) e nos Estados Unidos (6 de novembro). As mesmas questões estão praticamente a ser debatidas nos dois países, e quase da mesma forma. Em ambos, o presidente é a figura política mais poderosa. Mas há uma diferença muito grande: não na ideologia, mas nas regras eleitorais. A diferença de regras dá origem a táticas eleitorais muito diferentes.
Em ambos os países, há dois partidos principais que historicamente se apresentaram como essencialmente de centro-direita e de centro-esquerda. Observadores das mais variadas opiniões políticas estão de acordo em que as verdadeiras políticas dos dois partidos, uma vez que chegam ao poder, não são tão diferentes. E, no entanto, existem de facto algumas diferenças que cada um considera cruciais, e elas motivam cada grupo a disputar ferozmente as presidenciais.
Em ambos os países, existe o que se pode chamar de extrema-direita e de esquerda radical. A extrema-direita e a esquerda radical denunciam estes dois partidos “centristas” como “farinha do mesmo saco” e defendem uma plataforma política que seja verdadeiramente de direita e verdadeiramente de esquerda. Porém, esta defesa é levada a cabo de forma bastante diferente, devido às grandes diferenças dos sistemas eleitorais.
Nos Estados Unidos, a eleição ocorre em 50 unidades separadas – os estados – numa base de quem ganha leva tudo, para obter um número específico de votos no que é chamado de “colégio eleitoral”. Este sistema torna extremamente difícil a possibilidade de os “terceiros partidos” terem uma influência real na decisão de quem é eleito. Ainda assim, há sempre alguns que não se importam com isto e lançam candidatos, de qualquer modo. Às vezes, essa decisão afeta os resultados nalguns estados, afetando assim os resultados finais. Por exemplo, em 2000, alguns analistas argumentam que a candidatura de Ralph Nader retirou votos do candidato democrata, Al Gore, que foram suficientes para impedi-lo de ganhar em dois estados. Por isso, diz-se por vezes que a candidatura de Nader resultou na eleição de Bush.
No passado, a extrema-direita nos Estados Unidos tendeu a abster-se da participação eleitoral, argumentando que o Partido Republicano era demasiado “liberal” para o gosto deles. Mas, há 20 anos, este grupo decidiu que a grande forma de influenciar o futuro era entrar no Partido Republicano e forçá-lo a escolher candidatos mais “conservadores”. Nestes dias, este grupo está em grande parte reunido sob a etiqueta do “Tea Party”. Esta tática de “entrismo” teve um enorme sucesso, e o Partido Republicano virou significativamente à direita nos últimos cerca de doze anos.
Em França, as eleições funcionam de forma muito diferente. Por uma grande diferença: são nacionais; não há subunidades eleitorais. Em segundo lugar, a menos que um candidato receba mais de 50% da votação, há sempre uma segunda volta eleitoral, na qual os dois partidos com as maiores percentagens no primeiro turno passam a ser a única opção de escolha.
Este sistema permite – na verdade, encoraja – grupos de todas as variedades políticas a apresentarem um candidato presidencial na primeira volta, já que os eleitores sabem que podem dar o seu voto no segundo turno a um dos dois principais partidos. A primeira volta funciona como uma demonstração da força popular, servindo principalmente para influenciar, esperam, as políticas do partido vencedor depois do segundo turno.
O sistema francês tem uma falha. Ambos os principais partidos têm de ter uma votação suficiente para estar no segundo turno. Em 2002, e muito excecionalmente, o partido de centro-esquerda, os socialistas, ficaram, por pouco, atrás do partido de extrema-direita, a Frente Nacional, e por isso foram eliminados. Por isso, este ano os socialistas estão a enfatizar a importância do “voto útil” para que isso não volte a acontecer. O trauma dos democratas nos Estados Unidos provocado pela votação em 2000 equivale ao trauma de 2002 dos socialistas em França.
Em que ficamos? Nos Estados Unidos, o eventual candidato republicano apresentar-se-á como “muito” conservador graças às pressões do Tea Party, e por isso arriscam-se a perder votos para os chamados “moderados”, que são mais “centristas”. O candidato democrata, que será o presidente Obama, desiludiu muitos dos seus mais ardentes apoiantes virando fortemente à direita durante o seu primeiro mandato. Agora está a tentar ganhá-los de volta para uma plataforma mais “populista”, mas teme que, neste processo, possa perder alguns dos moderados republicanos “desiludidos”. Em 2012, não há candidatos significativos dos partidos menores à vista.
Em França, a situação é mais complicada. As sondagens atuais mostram que os candidatos dos dois maiores partidos – Nicolas Sarkozy pelo partido de centro-direita, a UMP, e François Hollande pelo centro-esquerda, os socialistas – estão praticamente empatados na primeira volta. Contudo, cada um tem menos de 30% dos votos. Os restantes 40-50% devem dividir-se entre três outros candidatos: Marine Le Pen da Frente Nacional, de extrema-direita, François Bayrou, de um partido centrista (que condena tanto a UMP quanto os socialistas por não serem suficientemente centristas), e Jean-Luc Mélenchon pela Frente de Esquerda, que conseguiu reunir em torno de si a maioria dos votos da esquerda radical apesar da participação de outros partidos de extrema-esquerda na eleição.
LePen, Bayrou, e Mélenchon têm cada um entre 14 e 18% dos votos, por enquanto. Assim, nenhum deles parece ter possibilidades de chegar ao segundo turno. O desempenho de Mélenchon tem sido a grande surpresa das eleições. Mas também se prevê que se as sondagens mostrarem uma grande queda de Hollande, talvez metade dos eleitores de Mélenchon votem em Hollande, para evitar o risco de Le Pen ou Bayrou afastarem o socialista do segundo turno.
Contudo, se Mélenchon obtiver uma grande votação e Hollande mesmo assim for ao segundo turno, duas coisas serão verdade. Uma, terá havido uma clara mensagem aos socialistas de que precisam virar à esquerda politicamente. A segunda é que a maioria dos eleitores de Mélenchon votarão em Hollande no segundo turno. À direita, porém, a maioria dos eleitores de Le Pen ficarão relutantes de votar em Sarkozy, e o Front National não dará essa indicação de voto. Se o fizessem, minariam a sua própria base de existência.
O sistema francês parece funcionar melhor para a esquerda radical. O sistema dos EUA parece funcionar melhor para a extrema-direita. Mas o motivo principal são as diferentes regras eleitorais.
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A guerra dos EUA-Israel ao Irão: O mito de uma campanha limitada, James Petras
A crescente ameaça de um ataque militar dos EUA-Israel ao Irão baseia-se em vários factores incluindo: (1) a história militar recente de ambos os países na região; (2) pronunciamentos públicos de líderes políticos estado-unidenses e israelenses; (3) ataques recentes e em curso ao Líbano e à Síria, aliados importantes do Irão; (4) ataques armados e assassínios de cientistas e responsáveis de segurança iranianos por grupos terroristas e/ou afectos sob controle dos EUA ou da Mossad; (5) o fracasso das sanções económicas e da coacção diplomática; (6) escalada de histeria e exigências extremas ao Irão para por fim ao enriquecimento de urânio de uso legal e civil; (7) "exercícios" militares provocatórios nas fronteiras do Irão e jogos de guerra destinados a intimidar e a um ensaio geral para um ataque antecipativo; (8) pressão poderosa de grupos pró guerra tanto em Washington como em Tel Aviv incluindo os principais partidos políticos israelenses e a poderosa AIPAC nos EUA; (9) e finalmente o National Defense Authorization Act de 2012 (um orwelliano decreto de emergência de Obama, de 16/Março/2012).
A propaganda de guerra estado-unidense opera ao longo de dois trilhos: (1) a mensagem dominante enfatiza a proximidade da guerra e a disposição dos EUA de utilizarem força e violência. Esta mensagem é destinada ao Irão e coincide com anúncios israelenses de preparativos de guerra. (2) O segundo trilho tem como objectivo o "público liberal" com um punhado de "académicos reconhecidos" marginais (ou progressistas Departamento de Estado) a subestimarem a ameaça de guerra e argumentarem que decisores políticos razoáveis em Tel Aviv e Washington estão conscientes de que o Irão não possui armas nucleares ou qualquer capacidade para produzi-las agora ou no futuro próximo. A finalidade deste contra-vapor liberal é confundir e minar a maioria da opinião pública, a qual opõe-se claramente a mais preparativos de guerra, e fazer descarrilar o explosivo movimento anti-guerra.
É desnecessário dizer que os pronunciamentos os instigadores de guerra "racionais" utilizam um "duplo discurso" baseado no afastamento displicente de todas as evidências históricas e empíricas em contrário. Quando os EUA e Israel falam de guerra, preparam-se para a guerra e empenham-se e provocações pré guerra – eles pretendem ir à guerra – tal como fizeram contra o Iraque em 2003. Sob as actuais condições políticas e militares internacionais um ataque ao Irão, inicialmente por Israel com apoio dos EUA, é extremamente provável, mesmo quando as condições económicas mundiais deveriam ditar em contrário e mesmo quando as consequências estratégicas negativas provavelmente repercutir-se-ão através do mundo durante as próximas décadas.
Cálculo dos EUA e Israel sobre a capacidade militar do Irão
Os decisores estratégicos americanos e israelenses não concordam sobre as consequências da retaliação do Irão contra um ataque. Pelo seu lado, líderes israelenses minimizam a capacidade militar do Irão de atacar e de prejudicar o estado judeu, o qual é a sua única consideração. Eles contam com a distância, seu escudo anti-mísseis e a protecção de forças aéreas e navais dos EUA no Golfo para cobrir seu ataque sorrateiro. Por outro lado, estrategas militares dos EUA sabem que os iranianos são capazes de infligir baixas substanciais a navios de guerra dos EUA, os quais teriam de atacar instalações costeiras iranianas a fim de apoiar ou proteger os israelenses.
A inteligência israelense é bem conhecida pela sua capacidade para organizar o assassinato de indivíduos por todo o mundo: a Mossada organizou com êxito actos terroristas além-mar contra líderes palestinos, sírios e libaneses. Por outro lado, a inteligência israelense tem um registo muito fraco quanto às suas estimativas de grandes empreendimentos militares e políticos. Eles subestimaram gravemente o apoio popular, a força militar e a capacidade organizacional do Hezbollah durante a guerra de 2006 no Líbano. Da mesma forma, a inteligência israelense entendeu mal a força e a capacidade do movimento democrático popular egípcio quando este se levantou e derrubou o aliado regional estratégico de Tel Aviv, a ditadura Mubarak. Se bem que líderes israelenses "finjam paranóia" – lançando clichés acerca de "ameaças existenciais" – eles são enganados pela sua arrogância narcisista e o seu racismo, subestimando reiteradamente a perícia técnica e o refinamento político dos seus inimigos árabes e da região islâmica. Isto é indubitavelmente verdadeiro no seu descartar displicente da capacidade do Irão para retaliar contra um planeado assalto aéreo israelense.
O governo estado-unidense agora comprometeu-se abertamente a apoiar um assalto israelense ao Irão quando ele for lançado. Mais especificamente, Washington afirma que virá "incondicionalmente" em defesa de Israel se este for "atacado". Como pode Israel evitar ser "atacado" quando seus aviões estão a despejar bombas e mísseis sobre instalações iranianas, defesas militares e infraestruturas estratégicas? Além disso, dada a colaboração e aos sistemas de inteligência do Pentágono coordenados com as Forças de Defesa de Israel (IDF), seu papel na identificação de objectivos, rotas e aproximações de mísseis, bem como as cadeias de fornecimento de armas integradas e de munições, serão críticos para um ataque das IDF. Não há maneira de os EUA se dissociarem da guerra do estado judeu ao Irão depois de iniciado o ataque.
Os mitos da "guerra limitada": Geografia
Washington e Tel Aviv afirmam e parecem acreditar que o seu planeado assalto ao Irão será uma "guerra limitada", tendo como alvo objectivos limitados e perdurando apenas uns poucos dias ou semanas – sem consequências graves.
Dizem-nos que brilhantes generais de Israel identificaram todas as instalações de investigação nuclear críticas, as quais os seus ataques aéreos cirúrgicos eliminarão sem danos colaterais horríveis para a população circundante. Uma vez que o alegado programa de "armas nucleares" fosse destruído, todos os israelenses poderiam retomar as suas vidas em segurança plena sabendo que outra ameaça "existencial" fora eliminada. A noção israelense de uma guerra limitada em "tempo e espaço" é absurda e perigosa – e caracteriza a arrogância, estupidez e racismo dos seus autores.
Para se aproximarem das instalações nucleares do Irão as forças israelenses e estado-unidenses confrontar-se-ão com bases bem equipadas e defendidas, instalações de mísseis, defesas marítimas e fortificações em grande escala dirigidas pelos Guardas Revolucionários e pelas Forças Armadas do Irão. Além disso, os sistemas de defesa de mísseis que protegem as instalações nucleares estão ligados a auto-estradas, aeródromos, portos e apoiadas por infraestrutura de finalidade dupla (civil-militar), as quais incluem refinarias de petróleo e uma enorme rede de gabinetes administrativos. Por "nocaute" os alegados sítios nucleares exigirá a expansão do âmbito geográfico da guerra. A capacidade científica-tecnológica do programa nuclear civil iraniano envolve um vasto conjunto das suas instalações de investigação, incluindo universidades, laboratórios, locais de fabricação e centros de concepção. Destruir o programa nuclear civil do Irão exigiria que Israel (e portanto os EUA) atacassem muito mais do que instalações de investigação ou laboratórios ocultos sob uma montanha remota. Exigiria assaltos múltiplos e generalizados sobre alvos por todo o país, por outras palavras, uma guerra generalizada.
O líder supremo do Irão, ayatollah Ali Khamenei, declarou que o Irão retaliará com uma guerra equivalente. O Irão corresponderá à amplitude e âmbito de com um contra-ataque de resposta. "Nós os atacaremos no mesmo nível quando eles nos atacarem". Isso significa que o Irão não limitará a sua retaliação a meramente tentar deitar abaixo bombardeiros estado-unidenses e israelenses no seu espaço aéreo ou a lançar mísseis a navios dos EUA nas suas águas mas levará a guerra a alvos equivalente em Israel e em países ocupados pelos EUA no Golfo e em torno dele. A "guerra limitada" de Israel tornar-se-á uma guerra generalizada que se estenderá por todo o Médio Oriente e ainda mais além.
A actual adoração ilusória de Israel acerca do seu elaborado sistema de defesa míssil ficará exposta quando centenas de mísseis de alto poder forem lançados de Teerão, do Sul do Líbano e bem além das Alturas de Golan.
O mito da guerra limitada: Intervalo de tempo
Peritos militares israelenses esperam confiantemente exterminar seus alvos iranianos nuns poucos dias – alguns podem pensar que num simples fim de semana – e talvez sem a perda de nem um único piloto. Eles esperam que o estado judeu venha a celebrar a sua brilhante vitória nas ruas de Tel Aviv e Washington. Estão iludidos pelo seu próprio senso de superioridade. O Irão não combateu uma guerra brutal com uma década de duração contra os invasores iraquianos abastecidos pelos EUA e os seus conselheiros militares ocidentais/israelenses só para entregar-se e submeter-se passivamente a um número limitado de ataques aéreos e com mísseis por parte de Israel. O Irão é uma sociedade jovem, bem educada e mobilizada, a qual pode utilizar milhões de reservistas de todo espectro político, étnico, de género e religioso, galvanizado em apoio a sua nação sob ataque. Numa guerra para defender a pátria todas as diferenças internas desaparecem para enfrentar o ataque não provocado israelenses-estado-unidense que ameaça toda a sua civilização – seus 5000 anos de cultura e tradições, bem como os seus avanços científicos modernos e instituições. A primeira onda de ataques dos EUA-Israel levará a uma retaliação feroz, a qual não será confinada às áreas originais do conflito, nem qualquer acto da agressão israelense acabará quando e se instalações nucleares do Irão forem destruídas e alguns dos seus cientistas, técnicos e trabalhadores qualificados forem mortos. A guerra continuará no tempo e em extensão geográfica.
Múltiplos pontos de conflito
Assim como qualquer ataque dos EUA-Israel ao Irão envolveria alvos múltiplos, os militares iranianos também terão uma pletora de alvos estratégicos facilmente acessíveis. Embora seja difícil prever onde e como o Irão retaliará, uma coisa está clara: O ataque inicial dos EUA-Israel não ficará sem resposta.
Dada a supremacia israelense-estado-unidense a longas e médias distâncias e em poder aéreo, o Irão provavelmente confiará em objectivos de curta distância. Isto incluiria as valiosas instalações militares do EUA e rotas de abastecimento em terrenos adjacentes (Iraque, Kuwait e Afeganistão) e alvos israelenses com mísseis lançados do Sul do Líbano e possivelmente da Síria. Se uns poucos misseis de longo alcance escaparem ao muito gabado "escudo anti-míssil" do estado judeu, centros populacionais israelenses podem pagar um preço pesado pela imprudência e arrogância dos seus líderes.
O contra-ataque iraniano levará a uma escalada das forças EUA-Israel, estendendo e aprofundando a sua guerra aérea e naval a todos o sistema de segurança nacional iraniano – bases militares, portos, sistemas de comunicação, postos de comando e centros administrativos do governo – muitos em cidades densamente povoadas. O Irão reagirá lançando o seu maior activo estratégico: um ataque coordenado no solo envolvendo os Guardas Revolucionários, juntamente com seus aliados entre as tropas xiitas iraquianas, contra forças dos EUA no Iraque. Ele coordenará ataques contra instalações dos EUA no Afeganistão e Paquistão com a crescente resistência armada nacionalista-islâmica.
O conflito inicial, centrado nos chamados objectivos militares estratégicos (instalações de investigação científica), generalizar-se-á rapidamente a alvos económicos ou o que os estrategas militares dos EUA e Israel chamam de alvos "duais civis-militares". Isto incluiria campos de petróleo, auto-estradas, fábricas, redes de comunicações, estações de televisão, instalações de tratamento de água, reservatórios, centrais eléctricas e gabinetes administrativos, tais como o Ministério da Defesa e a sede da Guarda Republicana. O Irão, confrontada com a destruição iminente de toda a sua economia e infraestrutura (o que se verificou no Iraque vizinho com a invasão não provocada dos EUA em 2003), retaliaria bloqueando o Estreito de Ormuz e enviando mísseis de curto alcance na direcção dos principais campos de petróleo e refinarias dos Estados do Golfo incluindo o Kuwait e a Arábia Saudita, a meros 10 minutos de distância, paralisando o fluxo de petróleo para a Europa, Ásia e os Estados Unidos e mergulhando a economia mundial numa depressão profunda.
Não se deveria esquecer que os iranianos provavelmente estão mais conscientes do que ninguém na região da devastação total sofrida pelos iraquianos após a invasão dos EUA, a qual mergulhou aquela nação no caos total e devastou a sua infraestrutura avançada e o seu aparelho administrativo civil, para não mencionar a sistemática aniquilação da sua elite científica e técnica altamente educada. As ondas de assassínios de cientistas iranianos, académicos e engenheiros promovidas pela Mossad são apenas uma antevisão do que os israelenses têm em mente para cientistas, intelectuais e trabalhadores técnicos altamente qualificados. Os iranianos não deveriam ter ilusões acerca dos americanos e israelenses que procuram lançar o país na sombria era brutal do Afeganistão e Iraque. Eles não terão mais papel num Irão devastado do que têm os seus vizinhos no Iraque pós Saddam.
Segundo o general Mathis, que comanda todas as forças dos EUA no Médio Oriente, Golfo Pérsico e Sudeste da Ásia, "um primeiro ataque israelense provavelmente teria consequências calamitosas em toda a região e para os Estados Unidos ali" (NY Times, 19/3/12). A estimativa de "consequências calamitosas" do general Mathis apenas leva em conta as perdas militares dos EUA, provavelmente centenas de marinheiros em vasos de guerra ao alcance de mísseis de artilheiros iranianos.
Contudo, a mais ilusória e auto-enganosa avaliação do resultado e consequências de um ataque aéreo israelense ao Irão provém de líderes israelenses de topo, académicos e peritos de inteligência, que afirmam [ter] inteligência superior, defesas superiores e visão suprema (e também racista) dentro da "mente iraniana". É típico o ministro da Defesa israelense, Barak, que se jacta de que qualquer retaliação iraniana na pior das hipóteses infligirá baixas mínimas à população israelense.
A visão "judeu-cêntrica" de reordenamento do equilíbrio de poder na região, a qual prevalece nos principais círculos israelenses, passa por alto a probabilidade de que a guerra não será decidia por ataques aéreos israelenses e defesas anti-míssil. Os mísseis do Irão não podem ser facilmente contidos, especialmente chegarem várias centenas por minuto de três direcções, Irão, Líbano, Síria e possivelmente de submarinos iranianos. Em segundo lugar, o colapso das suas importações de petróleo devastará a economia de Israel, altamente dependente da energia. Em terceiro lugar, os principais aliados de Israel, especialmente os EUA e a UE, serão gravemente tensionados quando forem arrastados para dentro da guerra de Israel e encontrarem-se a defender os estreitos de Ormuz, suas guarnições no Iraque e no Afeganistão e seus campos de petróleo e bases militares no Golfo. Tal conflito poderia incendiar as maiorias xiitas no Bahrain e nas províncias estratégicas ricas em petróleo da Arábia Saudita. A guerra generalizada terá um efeito devastador sobre o preço do petróleo e a economia mundial. Provocará a fúria de consumidores e a ira de trabalhadores por toda a parte quando fecharem fábricas e choques poderosos por todo o frágil sistema financeiro resultarem numa depressão mundial.
O patológico "complexo de superioridade" de Israel resulta em que os seus líderes racistas sistematicamente super-estimam suas próprias capacidades intelectuais, técnicas e militares, ao passo que subestimam o conhecimento, capacidade e coragem dos seus adversários regionais, islâmicos (neste caso iranianos). Eles ignoram a capacidade demonstrada do Irão para sustentar uma guerra defensiva prolongada, complexa e em muitas frentes e em recuperar-se de um assalto inicial e desenvolver armamento moderno adequado para infligir danos severos aos seus atacantes. E o Irão terá o apoio incondicional e activo da população muçulmana do mundo e talvez o apoio diplomático da Rússia e da China, que obviamente verão um ataque ao Irão como um outro ensaio geral para conter o seu poder crescente.
Conclusão
A guerra, especialmente uma guerra israelense-estado-unidense contra o Irão, está indissoluvelmente ligada ao relacionamento assimétrico EUA-Israel, o qual secundariza qualquer análise militar e política crítica nos EUA. Devido à configuração de poder sionista de Israel, a força militar dos EUA pode ser canalizada para o apoio ao impulso de Israel para a dominação regional, aos líderes israelenses e acima de tudo para os seus militares sentirem-se livres para entrarem nas mais ultrajantes aventuras militares e destrutivas, sabendo muito bem que em primeira e última instância podem confiar no apoio dos EUA com o sangue e as riquezas americanas. Mas depois de todo este grotesco servilismo a um país racista e isolado, quem resgatará os Estados Unidos? Quem impedirá o afundamento dos seus navios no Golfo e a morte e mutilação de centenas dos seus marinheiros e milhares dos seus soldados? E onde estarão os israelenses e sionistas dos EUA quando o Iraque for invadido pelas tropas de elite iranianas e seus aliados xiitas e um levantamento generalizado se verificar no Afeganistão?
Os decisores políticos egocêntricos de Israel desprezam o provável colapso do abastecimento de petróleo mundial em consequência da sua planeada guerra contra o Irão. Será que os seus agentes sionistas nos EUA percebem que, em consequência do arrastamento dos EUA para a guerra de Israel, a nação iraniana será forçada a por em chamas os campos de petróleo do Golfo Pérsico?
Quão barato tornou-se "comprar uma guerra" nos EUA? Por uns meros poucos milhões de dólares em contribuições de campanha para políticos corruptos e através da penetração deliberada de agentes "Israel-First", académicos e políticos na maquinaria de fazer a guerra do governo estado-unidense, e através da covardia moral e auto-censura dos principais críticos, escritores e jornalistas que se recusam a nomear Israel e seus agentes como os decisores chave do nosso país na política do Médio Oriente, nós nos encaminhamos directamente rumo a uma guerra muito além de qualquer conflagração militar regional e rumo ao colapso da economia mundial e do empobrecimento brutal de centenas de milhões de pessoas de Norte a Sul, de Leste a Oeste.
[Artigo tirado do sitio web portugués ‘Resistir.info’, do 8 de abril de 2012]
O capitalismo e as raízes da desigualdade
Fred Goldstein
O movimento “Occupy Wall Street” (OWS) fez da desigualdade na sociedade capitalista uma questão que pôs os ricos na defensiva, pelo menos em público. O aumento da desigualdade nos últimos 30 anos e especialmente na última década tem sido comentado ao longo dos anos em vários meios por analistas económicos e mesmo alguns políticos. Contudo, antes do movimento “Occupy Wall Street” levantar o slogan do 1% contra os 99%, esta condição era completamente pacífica e meramente observada como um inevitável facto da vida, mesmo que indesejável (a menos que se pertencesse ao 1%).
As desigualdades que deram ao OWS o seu grito de guerra são verdadeiramente obscenas e reminiscentes do fosso entre os monarcas da velha ordem e os servos camponeses.
Por um lado, 50 milhões de pessoas vivem de senhas de refeição, 47 milhões são oficialmente pobres, metade da população é classificada como pobre [i], 30 milhões são desempregados ou subempregados e dezenas de milhar de trabalhadores vivem com baixos salários.
Por outro lado, de 2001 a 2006, os 1% do topo conseguiram 53 cêntimos de cada dólar de riqueza criada. De 1979 a 2006, o décimo superior dos 1% (0,1%, ou seja 300 mil pessoas) conseguiu mais do que os outros 180 milhões de pessoas [ii]. Em 2009, enquanto os trabalhadores estavam ainda a ser dispensados em grande número, os executivos das 38 empresas mais importantes ganhavam um total de 140 mil milhões de dólares.[iii]
Estes números são apenas um reflexo da vasta desigualdade de rendimentos entre por um lado os banqueiros, os corretores e os exploradores das corporações e a massa de pessoas por outro. Tornou-se um escândalo, mas ninguém mexeu uma palha para fazer nada contra isto. Por isso, o movimento “Occupy Wall Street” começou a luta em nome dos 99% contra os 1%. E pegou como fogo.
Como a força motriz fundamental do movimento é a luta contra a obscena desigualdade de rendimentos, os marxistas devem apoiá-lo e participar totalmente na luta. Mas, o marxismo deve também estudar esta questão e dar-lhe uma interpretação de classe.
Podemos começar por perguntar o seguinte: o que significa lutar contra a obscena desigualdade da riqueza?
Significa certamente lutar por impostos para os ricos, usando o dinheiro para ajudar os trabalhadores e os oprimidos a sobreviverem à dureza económica do capitalismo. Ao fim e ao cabo, ser desempregado torna um trabalhador tão desigual quanto é possível sê-lo no capitalismo.
Igualdade dentro da classe operária e desigualdade entre classes
Normalmente, quando pensamos em lutar pela igualdade económica, pensamos na luta de ação afirmativa pelo emprego dos negros, dos latinos, dos asiáticos e dos povos nativos. A luta pela igualdade compreende lutar por salário igual e condições de trabalho iguais às dos brancos.
Implica também lutar por pagar igual por trabalho igual às mulheres trabalhadoras, isto é, terem o mesmo salário dos homens para trabalho comparável. E a luta pela igualdade inclui a luta pela garantia de igualdade económica entre trabalhadores normais e lésbias, gays, bi- ou transsexuais ou travestis.
Pedir a igualdade entre os trabalhadores imigrantes e sem documentos e os trabalhadores nascidos nos EUA, especialmente brancos, é uma componente essencial na construção da solidariedade e do avanço da luta de classe de todos os trabalhadores.
De facto, a luta pela igualdade económica dentro da nossa classe e entre oprimidos e opressores é fundamental para aumentar a solidariedade contra os senhores. Desigualdade e divisão no interior da classe trabalhadora é tanto um problema económico, como um perigoso problema político. Quebra a solidariedade e dá força aos patrões e ao seu governo.
Mas, o problema da desigualdade económica global na sociedade capitalista não é fundamentalmente um problema de desigualdade no interior da nossa classe ou entre a classe média e a classe trabalhadora. O problema fundamental da desigualdade massiva é a desigualdade entre a classe dominante capitalista e todas as outras classes, principalmente a classe trabalhadora multinacional.
A desigualdade entre a classe trabalhadora e a classe capitalista está embutida no sistema e está na raiz da questão. A chamada “excessiva” desigualdade entre a classe dominante e o resto da sociedade está constantemente sob ataque, como deve estar. Mas a desigualdade geral entre a classe dominante e todas as outras classes é tida como natural e raramente questionada.
Desigualdade genética do capitalismo
Esta é devida à maneira como o rendimento é distribuído no sistema do lucro. O rendimento da classe capitalista vem do trabalho não-pago dos trabalhadores sob a forma de lucro ou mais-valia. Tudo o que é criado pelos trabalhadores pertence aos patrões. E tudo o que é criado pelos trabalhadores contém tempo de trabalho não-pago. Os patrões vendem os bens e serviços e obtêm dinheiro pelo tempo de trabalho não-pago dos trabalhadores – é isso o lucro. Guardam parte para si próprios e enriquecem. A outra parte é reinvestida de modo a se tornarem mais ricos no próximo ciclo de produção e venda.
O rendimento dos trabalhadores, pelo outro lado, vem da venda da sua força de trabalho ao patrão, explorador. Os trabalhadores recebem vencimentos ou salários dos patrões. A quantia mantém-se sempre algures dentro da gama do que é necessário para sobreviver. Alguns trabalhadores são pagos um pouco melhor e podem dispor de um certo grau de conforto. Muitos trabalhadores, cada vez mais hoje em dia, conseguem apenas o suficiente para viverem uma vida de austeridade, enquanto outros dificilmente conseguem o suficiente para sobreviverem. Os salários no capitalismo são basicamente o que custa a um trabalhador subsistir e manter a família, de modo que os patrões tenham garantida a próxima geração de trabalhadores para explorarem.
Os salários dos trabalhadores ficam sempre dentro de uma estreita gama, quando comparados com o rendimento dos patrões. Nenhum trabalhador consegue alguma vez ficar rico contando com o seu salário, mesmo que bem pago. Mas, a classe capitalista como um todo fica automaticamente mais rica, mesmo que alguns capitalistas individualmente saiam dos negócios e sejam engolidos. Os patrões reinvestem continuamente o seu capital e mantêm vivo o processo em curso de exploração de cada vez mais trabalho.
Os patrões deixam a sua riqueza pessoal aos filhos, assim como o seu capital. Os descendentes, em regra, tornam-se cada vez mais ricos de geração para geração, enquanto os trabalhadores deixam aos filhos as suas magras posses de geração para geração. Os trabalhadores têm de lutar para manterem o que têm através dos altos e baixos das crises capitalistas e do desemprego cíclico.
Como alcançar a igualdade social e económica nestas circunstâncias?
Neste contexto, para o movimento OWS e todos os outros que sejam pela igualdade genuína, surge a questão de saber por qual igualdade exatamente estão a lutar. Se o objetivo final é a reforma do código fiscal, ou a redução do financiamento empresarial na política, ou a regulação da classe capitalista predadora e dos banqueiros avarentos, então o objetivo final limita-se a uma luta por uma forma de desigualdade menos obscena.
Trata-se certamente de um objetivo progressista e deve ser sempre prosseguido como meio de aliviar os trabalhadores e a massa do povo em geral. Mas, seja qual for a maneira de o fazer, se se limita a luta contra a desigualdade a mantê-la no quadro do capitalismo, isso significa lutar por menos desigualdade, mas também por mantê-la e consenti-la. O sistema de exploração de classe gera a extrema desigualdade entre classes.
Distribuição da riqueza e capitalismo
O facto é que a desigualdade na distribuição é um resultado do sistema de produção pelo lucro. Ora, conforme os marxistas mostram, as relações de distribuição decorrem das relações de produção. O que determina a distribuição da riqueza social é a propriedade privada dos meios de produção e serviços. Nenhuma redistribuição da riqueza no capitalismo, quer através de despesa estatal, quer de acordos com sindicatos ou qualquer outro método, consegue ultrapassar a desigualdade de classe que resulta do direito dos capitalistas a possuírem não só os meios de produção, como todos os produtos da produção.
Neste sentido, é útil uma análise escrita por Karl Marx em 1847. Marx tentava desmontar o argumento de que o trabalho e o capital têm um interesse comum no crescimento do capitalismo. O ensaio “Trabalho assalariado e capital” foi escrito com base em lições a trabalhadores alemães com consciência de classe que primeiro conseguiram organizar-se. Escreveu Marx:
“Vimos portanto que mesmo a situação mais favorável para a classe operária, designadamente o mais rápido crescimento do capital, por muito que melhore a vida material do trabalhador não elimina o antagonismo entre os seus interesses e os do capitalista. Lucro e salário continuam como antes em proporção inversa.
“Se o capital cresce rapidamente, os salários podem crescer, mas o lucro do capital cresce desproporcionadamente mais depressa. A posição material do trabalhador melhorou, mas à custa da sua posição social. O abismo social que o separa do capitalista alargou-se.
“Finalmente dizer que ‘a condição mais favorável para o salário-trabalho é o crescimento mais rápido do capital produtivo’ é o mesmo que dizer: quanto mais depressa a classe trabalhadora multiplicar e aumentar o poder do seu inimigo e a riqueza de quem reina sobre a sua classe, mais favoráveis serão as condições sob as quais será permitido lidar com a multiplicação da riqueza burguesa e com o aumento de poder do capital, contentando-se assim com forjar para si as cadeias douradas pelas quais a burguesia a arrasta no seu caminho.” (Marxist Internet Archive).
Muito do ensaio de Marx é dedicado a mostrar que, independentemente das condições relativas de que os trabalhadores dispõem no sistema de exploração capitalista, quer sejam mais bem ou menos bem pagos e mesmo quando estão em boa posição negocial porque o patrão precisa deles para continuar a aumentar a produção, os trabalhadores perdem constantemente terreno em relação aos capitalistas, cuja riqueza aumenta imensamente. Por isso, está inscrito no próprio sistema de exploração o aumento sistemático da desigualdade entre as classes. Além disso, a classe trabalhadora está na melhor das hipóteses limitada para sempre a tentar “forjar as cadeias douradas pelas quais a burguesia a arrasta no seu caminho.”
Marx então continua, mostrando que a chamada prosperidade dos trabalhadores é uma mentira, porque os patrões utilizam todos os meios para baixarem os ordenados, mesmo nos chamados “bons tempos”.
O capitalismo na era da revolução técnico-científica e da globalização imperialista expandiu-se e evoluiu por saltos e descontinuidades desde os tempos de Marx. As classes trabalhadoras dos países imperialistas estão num caminho descendente, com os salários a baixar. Estão a perder terreno não só em termos relativos, mas também absolutos.
Os trabalhadores já não progridem nem lentamente no seu modo de vida, enquanto os capitalistas continuam em frente. Os salários estão a baixar. As condições estão a piorar. Os patrões arquitetaram uma competição salarial mundial entre os trabalhadores nos centros do capitalismo e as centenas de milhões de trabalhadores dos países de baixos salários. Os patrões usaram a deslocalização associada à tecnologia e à exploração dos trabalhadores imigrantes para promoverem esta competição. O exército global de reserva de desempregados e subempregados aumentou para centenas de milhões. Os trabalhadores estão sob pressão em todos os continentes.
Nos EUA, os salários têm descido desde os anos setenta (Perry L. Weed, “Inequality, the Middle Class & the Fading American Dream” – “Desigualdade, a Classe Média e o Fim do Sonho Americano”). A grande desigualdade que vemos hoje resulta do declínio absoluto dos salários. A parte de leão da nova riqueza vai para os financeiros e os donos das corporações em quantidades crescentes de mais-valia (trabalho não-pago) sob a forma de dinheiro.
É urgente procurar inverter o declínio absoluto das condições do proletariado e dos oprimidos. A luta contra o aumento obsceno da desigualdade tem que continuar e crescer.
A riqueza das empresas cria riqueza pessoal extrema
É importante notar que a obscena desigualdade no rendimento pessoal não é nada comparada com a riqueza das empresas, controlada não pelos 1% mas pela pequena fração deles que se sentam nos gabinetes de diretor dos bancos e das gigantescas corporações transnacionais. Foi a isto que Lenine chamou capital financeiro – o pequeno grupo de grandes empresas que controlam biliões de riqueza empresarial e a maior parte da produção da riqueza mundial.
Um estudo recente mostra que 147 corporações dominam 40% da riqueza empresarial mundial” (“Financial world dominated by a few deep pockets,” “O mundo financeiro dominado por alguns bolsos cheios,” ScienceNews, 24 Set., 2011). A propriedade privada e o controle de uma vasta riqueza financeira e empresarial pelo topo da classe dominante são o que está por detrás da imensa riqueza pessoal concedida aos administradores da lista dos 500 da Fortune e aos ricaços mundiais (grandes administradores e grandes acionistas do capital e da finança).
A questão é então: vamos parar a luta para a redução da desigualdade no capitalismo, vamos lutar para ajudar a forjar as “cadeias douradas” com as quais o capital arrasta o trabalho, ou vamos levar a luta contra a desigualdade até às últimas consequências e lutar para quebrar as cadeias da dominação de classe de uma vez? A desigualdade entre classes só pode ser abolida libertando-nos da classe capitalista de uma vez e do sistema de exploração sobre o qual toda a obscena riqueza está erigida.
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[i] “Census data: Half of U.S. poor or low income,” [“Dados do censo: metade dos americanos são pobres ou de baixo rendimento”] Associated Press, Dez. 15.
[ii] Jacob S. Hacker e Paul Pierson, “Winner-Take-All Politics” [“A política do quem-ganha-apanha-tudo”] (New York: Simon & Schuster, Kindle Edition, 2010), p. 3.
[iii] Perry L. Weed, “Inequality, the Middle Class & the Fading American Dream,” [“Desigualdade, a Classe Média e o Fim do Sonho Americano”] Economy in Crisis online, Fev. 12, 2011.
Próxima 2ª Parte: Como a natureza da distribuição da riqueza decorre do modo de produção e Controle da riqueza empresarial: a fonte de riqueza pessoal extrema.
Extraído do anexo do próximo livro “Capitalism at a Dead End” [“O Capitalismo num Beco sem Saída”] de Fred Goldstein. Goldstein é também autor de “Low-Wage Capitalism” [“Capitalismo dos Pobres”]
[Artigo tirado do sitio web portugués ‘ODiario.info’, do 5 de abril de 2012]
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Terceira Carta às Esquerdas
Boaventura de Sousa Santos
Quando estão no poder, as esquerdas não têm tempo para refletir sobre as transformações que ocorrem nas sociedades e quando o fazem é sempre por reação a qualquer acontecimento que perturbe o exercício do poder. A resposta é sempre defensiva. Quando não estão no poder, dividem-se internamente para definir quem vai ser o líder nas próximas eleições, e as reflexões e análises ficam vinculadas a esse objetivo.
Esta indisponibilidade para reflexão, se foi sempre perniciosa, é agora suicida. Por duas razões. A direita tem à sua disposição todos os intelectuais orgânicos do capital financeiro, das associações empresariais, das instituições multilaterais, dos think tanks, dos lobbistas, os quais lhe fornecem diariamente dados e interpretações que não são sempre faltos de rigor e sempre interpretam a realidade de modo a levar a água ao seu moinho. Pelo contrário, as esquerdas estão desprovidas de instrumentos de reflexão abertos aos não militantes e, internamente, a reflexão segue a linha estéril das facções.
Circula hoje no mundo uma imensidão de informações e análises que poderiam ter uma importância decisiva para repensar e refundar as esquerdas depois do duplo colapso da social-democracia e do socialismo real. O desequílibrio entre as esquerdas e a direita no que respeita ao conhecimento estratégico do mundo é hoje maior que nunca.
A segunda razão é que as novas mobilizações e militâncias políticas por causas historicamente pertencentes às esquerdas estão sendo feitas sem qualquer referência a elas (salvo talvez à tradição anarquista) e muitas vezes em oposição a elas. Isto não pode deixar de suscitar uma profunda reflexão. Essa reflexão está sendo feita? Tenho razões para crer que não e a prova está nas tentativas de cooptar, ensinar, minimizar, ignorar a nova militância.
Proponho algumas linhas de reflexão. A primeira diz respeito à polarização social que está a emergir das enormes desigualdades sociais. Vivemos um tempo que tem algumas semelhanças com o das revoluções democráticas que avassalaram a Europa em 1848. A polarização social era enorme porque o operariado (então uma classe jovem) dependia do trabalho para sobreviver mas (ao contrário dos pais e avós) o trabalho não dependia dele, dependia de quem o dava ou retirava a seu belprazer, o patrão; se trabalhasse, os salários eram tão baixos e a jornada tão longa que a saúde perigava e a família vivia sempre à beira da fome; se fosse despedido, não tinha qualquer suporte exceto o de alguma economia solidária ou do recurso ao crime. Não admira que, nessas revoluções, as duas bandeiras de luta tenham sido o direito ao trabalho e o direito a uma jornada de trabalho mais curta. 150 anos depois, a situação não é totalmente a mesma mas as bandeiras continuam a ser atuais.
E talvez o sejam hoje mais do que o eram há 30 anos. As revoluções foram sangrentas e falharam, mas os próprios governos conservadores que se seguiram tiveram de fazer concessões para que a questão social não descambasse em catástrofe. A que distância estamos nós da catástrofe? Por enquanto, a mobilização contra a escandalosa desigualdade social (semelhante à de 1848) é pacífica e tem um forte pendor moralista denunciador.
Não mete medo ao sistema financeiro-democrático. Quem pode garantir que assim continue? A direita está preparada para a resposta repressiva a qualquer alteração que se torne ameaçadora. Quais são os planos das esquerdas? Vão voltar a dividir-se como no passado, umas tomando a posição da repressão e outras, a da luta contra a repressão?
A segunda linha de reflexão tem igualmente muito a ver com as revoluções de 1848 e consiste em como voltar a conectar a democracia com as aspirações e as decisões dos cidadãos. Das palavras de ordem de 1848, sobressaíam liberalismo e democracia. Liberalismo significava governo republicano, separação ente estado e religião, liberdade de imprensa; democracia significava sufrágio “universal” para os homens. Neste domínio, muito se avançou nos últimos 150 anos. No entanto, as conquistas têm vindo a ser postas em causa nos últimos 30 anos e nos últimos tempos a democracia mais parece uma casa fechada ocupada por um grupo de extraterrestres que decide democraticamente pelos seus interesses e ditatorialmente pelos interesses das grandes maiorias. Um regime misto, uma democradura.
O movimento dos indignados e do occupy recusam a expropriação da democracia e optam por tomar decisões por consenso nas sua assembleias. São loucos ou são um sinal das exigências que vêm aí? As esquerdas já terão pensado que se não se sentirem confortáveis com formas de democracia de alta intensidade (no interior dos partidos e na república) esse será o sinal de que devem retirar-se ou refundar-se?
Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).
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O papel do Estado na crise contemporánea do capitalismo
Adrián Sotelo V.
Indignados uns, decepcionados outros, sorpréndense de que o Estado contemporáneo despregue a súa forza e poderío contra as clases explotadas e oprimidas das sociedades na defensa incondicional dos intereses xerais do capital. Intelectuais, politólogos, sociólogos, militantes de partido e expertos nestes asuntos, poñen o berro no ceo ao constatar esta realidade, que expresa a fonda contradición, e loita, entre as clases sociais onde, até o de agora, o gran gañador da contenda desigual foi o gran capital que desenvolve as súas políticas de axuste estrutural e de austeridade social na defensa das súas taxas de lucro, das súas empresas e do sistema que reproduce os seus intereses como clase dominante no económico, o político e o social.
É esta unha política global, unha política de clase, que non coñece límites máis que os que delimita os intereses do capital e das clases dominantes que recorren a todo tipo de recursos, incluíndo a violencia, para conseguir os seus obxectivos. Hoxe en día, isto vese claramente nos países da Unión Europea (UE), en especial, nos do Sur, onde se impuxeron severas medidas de austeridade contra a poboación traballadora e a cidadanía en xeral nunha verdadeira orxía de incremento dos impostos, como o imposto ao valor engadido, redución dos soldos e salarios, despedimentos masivos de persoal, redución das pensións e aumento do tempo para a xubilación; aumento do tempo de traballo, redución das prestacións sociais, ataques á educación e á saúde; diminución dos créditos para a adquisición de vivenda, liquidación e/ou privatización de empresas públicas en ramos vitais como telefonía, electricidade, correos, etcétera.
Os clásicos do marxismo estableceron unha concepción xeral, abstracta, do Estado capitalista como un instrumento de dominación e de asoballamento das clases explotadas e oprimidas da sociedade polas fraccións minoritarias das clases dominantes que -mediante distintos aparellos ideolóxicos, instrumentos e institucións como son as cadeas, os destacamentos militares e paramilitares, as leis e os ordenamentos xudiciais, a escola e os medios de comunicación de masas- o manteñen no seu poder e lle imprimen a súa lóxica até o grao de sobredeterminar a vida cotiá das persoas.
Fronte a aquelas concepcións ideolóxicas, conservadoras e liberais do Estado, hai que subliñar que o sistema capitalista, en tanto modo de produción, de dominación e formación social, ideolóxica e xurídico-política, non podería existir sen a existencia e a permanente intervención do Estado. Este ten como función esencial manter a orde e extirpar a todos aqueles individuos, forzas, poderes e contrapoderes que auspicien a súa caída ou o poñan en perigo.
Aínda que o Estado, en determinadas conxunturas histórico-políticas, asume -e pode asumir unha certa autonomía relativa fronte ás clases sociais ou, aparentemente, por riba delas (ao que aluden as nocións de cesarismo e bonapartismo)-, con todo, historicamente o seu papel é manter funcionando, aínda que contraditoriamente e con dificultades, o sistema do capital mediante a reprodución dos seus compoñentes básicos como son a propiedade privada dos medios de produción e de consumo, a garantía de manter o réxime de explotación do traballo polo capital, a preservación das economías de mercado e do traballo asalariado; nunha palabra, para dicilo sinteticamente con István Mészáros, co fin de garantir as mediacións de segunda orde do modo de control metabólico social do capital, que corresponden á reprodutibilidade esencial do capitalismo para a produción de valor, de plusvalía e de ganancias.
O autor conclúe que, a través destas mediacións de segunda orde, todas as funcións primarias (por exemplo a natureza, a poboación, a familia e a comunidade, a cultura, a arte e o lecer) do metabolismo social en xeral, se ven alteradas co fin de axustalas e sometelas ás necesidades de autoexpansión do sistema, que é un sistema fetichista e alienante que debe subordinar absolutamente todo ao imperativo da acumulación e reprodución do capital. Ata que o sistema político e económico deste último é absolutamente intolerante con todas aquelas formas de produción, de organización da vida social e comunitaria, autoxestivas, que non se dobreguen ás "regras do xogo" que ditan o mercado e o Estado, que é tamén un Estado capitalista. Certamente, poden "coexistir en determinados tempos e espazos con el; pero tarde ou cedo, este reacciona e termina por subsumilas realmente baixo as súas condicións mercantilistas e depredadoras. Pero cando estas non se logran impor por métodos "persuasivos", de consenso, entón utiliza a violencia física, psíquica e a represión ata que as logran controlar e esvaecer.
Dentro da dominación xeral que garante o Estado, cómpre destacar o papel da ideoloxía e dos medios de comunicación como verdadeiros artífices e trasmisores da ideoloxía das clases dominantes, nacionais e internacionais. O obxectivo da primeira é domesticar e/ou neutralizar a conciencia de clase das masas para amoldala e identificala cos valores centrais e principios da sociedade burguesa, de tal xeito que as persoas perdan a iniciativa de transformación da orde, porque pensan que esta é, en si mesma, "suficiente" para "resolver" e "satisfacer" os seus problemas e necesidades.
Mentres que os medios de comunicación e información de masas -controlados e manipulados electronicamente- teñen como fin construír e presentar mediaticamente o mundo capitalista como o único posíbel, sen o que non son, sequera, concebíbeis outras formas de vida, de traballo e de existencia humana. Trátase de convencer a xente de que os principios da competencia entre os seres humanos, a "destrución creativa" de empresas, homes e natureza, o individualismo, o egoísmo, o racismo e o instinto de supervivencia, constitúen os eixos motores de toda acción humana que son perfectamente compatíbeis coa orde establecida polo sistema capitalista. Que todo é cuestión de tempo e de paciencia!
É este o contexto xeral que xustifica que a crise do capital -produto de fortes contradicións e desequilibrios macroeconómicos e sociopolíticos- é unha condición necesaria, aínda que "dolorosa", para preservar o desenvolvemento do capitalismo. Neste sentido, os ideólogos do sistema, sexan membros do Estado ou da burguesía, dos seus aparellos de dominación ou dos partidos políticos, sempre falan desta crise e a caracterizan como un "mal necesario" da humanidade; pero que, con todo, é controlábel e factíbel de ser superada. Deste xeito embázanse os proxectos e as iniciativas das clases subalternas, populares e obreiras, para loitar por unha alternativa fronte a unha crise que é sistémica e inexorábel. Aquí o Estado burgués desempeña, xunto cos organismos protocapitalistas e imperialistas, como o FMI e o BM, un papel esencial durante as crises que son cada vez máis recorrentes, profundas, prolongadas e, como hoxe se estila dicir, sistémicas: porque operan como un mecanismo consubstancial do seu funcionamento.
A crise actual do capital, como sostivemos noutras ocasións, deriva das dificultades para producir plusvalor na escala suficiente que require o sistema para se reproducir en escala ampliada. Ao non conseguilo, masas crecentes de recursos financeiros e humanos dan en concentrarse nas arcas dos bancos, das bolsas de valores, nas inmobiliarias e compañías de seguros, etc., para conseguir a súa "valorización" ficticia ampliando, deste xeito, a concentración e centralización do capital nunhas cantas mans (o 1% da humanidade) que se enriquecen día a día á conta de castigar severamente as condicións xerais de vida, ambientais e de traballo da poboación.
Entre outros autores que se ocuparon do tema, David Harvey menciona que o capital ficticio ten un valor en diñeiro nominal e apoia a súa existencia en documentos -como poden ser os bonos do tesouro- pero que, nun momento dado no tempo, carece de respaldo en termos da actividade produtiva real ou de activos físicos colaterais. Porén, para un capitalista especulador a súa riqueza é tan tanxíbel e material como a que produce millóns de traballadores, os cales, por suposto, non a posúen nin a fan no seu beneficio, senón para os intereses dos non traballadores.
Na conxuntura actual da crise internacional do capital, o papel do Estado foi, e é!, a de deixar intocada esta situación -mesmo: salvagardala- para coadxuvar a fortalecer ao capital ficticio cunha serie de medidas e políticas de xorne neoliberal que protexen os intereses das clases parasitarias do mundo e castigan os ciclos produtivos e os procesos de traballo encamiñados á produción de valor e de plusvalor.
Preguntarase, entón, a quen convén un esquema desta natureza, e a resposta é que para o capital en xeral non é importante onde se invista, senón estratexicamente onde pode facelo para obter beneficios ilimitados, non importando se isto o fai na industria de armamentos, na destrución da natureza ou na produción de transxénicos ou, finalmente, na bolsa de valores ou na venda de cosméticos.
O sistema capitalista neoliberal actual é enteiramente favorábel para alcanzar estes obxectivos na economía mundial, porque é xustamente o capital ficticio, é dicir, o capital financeiro especulativo, o que mantén o predominio -fronte a outras fraccións do capital-. E aínda que non crea riqueza, nin empregos produtivos, nin remuneracións para os traballadores, e é enteiramente responsábel das baixas taxas de crecemento do capitalismo na súa actual fase neoliberal, con todo, si produce ganancias para os seus ricos posuidores e para iso conta co apoio incondicional do Estado.
[Artigo tirado do sitio web ‘Rebelión’, do 12 de marzo de 2012]
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Entrevista com Tariq Ali: “Só protestar simbolicamente não é suficiente”
– Numa entrevista recente, o senhor disse que, diferentemente da resistência na América do Sul durante o final do século 20 e começo do 21, os países da chamada "Primavera Árabe" não produziram organizações políticas. Então, quais são as forças políticas que devem emergir nesses países com a queda dos governos? Há semelhanças entre elas?
Aqui na América do Sul tivemos movimentos sociais conectando-se, criando novos movimentos políticos, organizações políticas, disputando eleições e chegando ao poder – isso é o importante e completamente novo: tomar o poder a partir do sistema democrático eleitoral. No mundo árabe tivemos grandes levantamentos, mas não produziram uma nova formação política. Na Tunísia e no Egito ocorreu que as organizações políticas que haviam sido reprimidas voltaram a aparecer, principalmente, as islamistas. Então, os novos personagens, os jovens que criaram os movimentos agora, ficaram sem voz política. A escala dos movimentos foi imensa, mas não produziram nada e, por isso, o exército no Egito pode tomar o poder novamente.
Na Tunísia os islamistas ganharam as eleições. Agora, existe um grande equívoco sobre esses partidos. As pessoas automaticamente pensam em terroristas, extremistas, fundamentalistas, mas esses partidos islamistas são religiosos, socialmente conservadores, como os democratas cristãos da Europa e os partidos dominados pela Igreja Católica em outros lugares do mundo. É muito importante pôr isso em perspectiva. Os partidos apoiados por luteranos e católicos existem em diferentes lugares do mundo ocidental e são aceites, mas quando os islamistas são eleitos, todo o mundo fica nervoso. Eu não concordo com esses partidos, mas há que se aceitar seu direito a ganhar eleições e que as pessoas aprendam através de suas próprias experiências.
No Egito, se são feitas eleições livres, é provável que a Irmandade [Muçulmana] ganhe. Calculo que tenham aproximadamente 40% do eleitorado, ou seja, podem formar um governo se o exército e os EUA permitirem. Se houver mudanças na Síria, algo similar acontecerá.
É importante entender a razão disso. De 1976 a 1989/90, a esquerda e os nacionalistas foram erradicados do mundo árabe pelos estadunidenses, em aliança com os islamistas – estes sim, islamistas duros. Então, existe um vazio e novos tipos de grupos islamistas estão surgindo. No Egito e na Tunísia, a esquerda está tentando organizar novos movimentos, partidos e esperemos que tenham êxito, mas até agora não tem forças, são pequenos, assim como em todo o mundo árabe.
– O que há de comum entre esses levantamentos e as mobilizações recentes da Europa e EUA, além de serem contemporâneos?
Há dois movimentos diferentes. Um são os movimentos nos EUA e Reino Unido, que são essencialmente movimentos de protesto simbólico, ocupando espaços públicos e se mantêm só nisso. Mas são muito importantes porque, ao menos, algo está acontecendo, são movimentos em uma etapa muito embrionária, pequenos, principalmente de jovens, às vezes alguns sindicalistas, e esse é seu alcance, simbólico. Não sabemos o que acontecerá com eles. Os EUA são imensos como o Brasil, não é tão fácil organizar- se, e, na minha opinião – e isso eu disse à ocupação em Oakland –, é extremadamente importante convocar uma assembleia popular de todos os movimentos para discutir como avançar. Do contrário, se diluirão, esse é meu temor.
Outro tipo de movimento está na Espanha e Grécia, que foram movimentos imensos, não somente protestos simbólicos. Na Espanha houve imensas ocupações em Madri, Barcelona e outras cidades, mas que não formularam uma carta ou programa ainda que de limitadas exigências. É evidente que o pensam, mas não o codificaram, não o puseram num plano que pudesse unir as pessoas por um longo tempo. Por isso, apesar dos imensos movimentos, tivemos na Espanha a vitória da direita nas eleições, os movimentos não participaram da política porque dizem que "a política é suja, asquerosa, manchada". Isso é um problema porque ou se faz uma revolução – que não é possível neste momento – ou se intervém no sistema político, tal como está, como na América do Sul, e tenta-se mudá-lo com novas constituições ou seja lá o que for. Não fizeram, e a Espanha é um grande fracasso.
Na Grécia houve seis greves gerais, movimentos massivos, mas nada de resultados, e o país está entregue aos banqueiros, literalmente. Um banqueiro foi nomeado para dirigir o país, de Papandreou a Papademos. Esse é um acontecimento interessante na Europa: os partidos políticos tradicionais já não podem dirigir o sistema. Então, agora são uma colónia da União Europeia e os alemães e estadunidenses são quem decide: "Tudo bem, tomem o governo porque não confiamos neles". Isso é o que chamo de ditadura do capital que, de distintas formas, é o "extremo centro", composto pela centro-esquerda e centro-direita, onde não importa quem está no poder, fazem exatamente as mesmas coisas. Contra eles é preciso uma resposta política, caso contrário, os movimentos poderão ser esmagados. Na minha opinião, era possível que os movimentos na Grécia tomassem uma cidade. Eu disse a eles: "Tomem Tessalónica! Simplesmente tomem! Capturem! Se a presença das massas é imensa, os militares não vão intervir. Convoquem uma assembleia popular, tenham delegados de todas as áreas e elaborem um programa para toda a Grécia e isso inspirará o mundo".
– Mas eles têm suficiente organização para isso?
Esse é o problema, poderiam ter feito. Creio que se houvesse 500 ou 600 pessoas pensando com clareza... Na Grécia há a combinação de mobilizações massivas e grupos escleróticos, atrofiados na esquerda. O Partido Comunista do Exterior, o Partido Comunista do Interior, cinco dezenas de grupos trotskistas que sequer podem se unir entre si, muito menos oferecer liderança às massas.
– E o que há de comum entre os movimentos dos EUA e da Europa e os da Primavera Árabe?
A crise de 2008, do sistema Wall Street, ou seja, do neoliberalismo, contra o qual os políticos não são capazes de lidar por causa do "extremo centro". Temos uma crise imensa e eles não fazem nada para desafiar a vigência do neoliberalismo e capitalismo; seguem implementando as mesmas políticas. Até economistas burgueses tradicionais os advertem que assim não se resolverão os problemas, mas eles temem fazer mudanças e abrir espaço para mais disputas.
– Mas não é essa nossa esperança?
Sim, e sou otimista. Agora temos que dizer: só protestar simbolicamente não é suficiente. Eles [neoliberais] estão plenamente confiantes de que não existe uma alternativa a eles. Não importam os movimentos de massas. Virão e passarão e, caso se tornem muito perigosos, podem ser esmagados. A menos que haja uma crise terminal do capitalismo, os neoliberais sempre se recuperarão. Por isso que muita gente no mundo tem esperanças verdadeiras de que algo diferente possa sair da América do Sul.
– O rompimento com o capitalismo não se dá porque não há vontade popular ou porque não temos uma alternativa?
Acho que temos uma alternativa, mas as pessoas ainda continuam um pouco traumatizadas pela queda da União Soviética e pela vitória do capitalismo na China. Isso fez com que muita, muita gente, tenha medo de propor alternativas. Acho que isso acabará, mas necessitamos um ou dois grandes êxitos em algum lugar para mostrar que é possível construir um mundo e uma economia que se desfaça completamente do capitalismo. Isso não aconteceu ainda. Independentemente da solidariedade com os processos da Bolívia, Venezuela e Equador, o capital permanece. E esse é o perigo para esses processos. A situação na América do Sul é de transição, podendo ir além, num bom caminho, ou retroceder, temos que estar conscientes disso.
Se olhamos objetivamente, o mundo está pedindo a gritos um sistema diferente. Essa é a imensa tragédia e a contradição em todos os níveis: na economia, nas condições de vida durante os últimos 20 anos, o tamanho da classe trabalhadora mundial, que dizem que desapareceu, na verdade passou de 1,6 bilhão nos anos de 1980 para mais de 3 bilhões agora, com a entrada do capitalismo na China, na Rússia, a expansão na Índia e até no Brasil. A classe trabalhadora mundial é imensa, mas está muito reprimida na China, na Rússia, mas está aí.
Em segundo lugar, agora está claro que a maneira como funciona o capitalismo degrada a ecologia do mundo e o clima. Qual é a solução? A economia planejada, global ou regional, onde exista grande colaboração e planejamento para salvar o planeta da devastação do capitalismo: temos que fazer isso, isso e isso. Não produziremos mais automóveis, tentaremos tirá-los de uso – não completamente: deixaremos que sejam usados para longas viagens, não dentro das cidades (nelas, teremos um sistema de transporte público). Mas os políticos não estão pensando assim, não podem nem começar a fazê-lo. Então, a necessidade objetiva do socialismo é muito forte, mas não acontece. Esses políticos e a elite capitalista que se une contra a classe trabalhadora global e os movimentos sociais não são capazes de salvar o planeta porque necessitam maximizar os vultuosos lucros, usar o dinheiro para fazer mais dinheiro. Isso é o que os determina e o que os explodirá em algum momento.
– Após mais de uma década das mudanças na América Latina, quais são os resultados?
Varia de país a país, mas há um padrão que provavelmente é o mesmo. Foi extremamente importante esses movimentos tomarem o poder em eleições democráticas, derrubando um dos pilares do Ocidente, que dizia que todos esses grupos que querem mudanças são antidemocráticos. Isso foi um impacto tremendo que não se deve subestimar. As vitórias eleitorais sucessivas de Chávez na Venezuela são extremamente importantes. Primeiro, é um líder muito valente, sem medo de dizer o que pensa diante dos EUA, o que é raro. Segundo, o fato de o maior produtor de petróleo da América se mover à esquerda é um grande atraso para os EUA e é um erro pensar que eles se renderam. Andaram e ainda estão ocupados com o Oriente Médio, mas começaram a atuar novamente aqui. Em Honduras, o Esquadrão da Morte voltou ao poder; usaram colombianos com regularidade para desestabilizar a Venezuela, puseram cada vez mais pressão sobre o Brasil para que intervenha a favor de seus interesses no continente.
– Hoje, pela primeira vez na história da América, não há embaixadores dos EUA na Venezuela, Bolívia e Equador. Isso reflete algo.
O PT chegou ao poder depois de uma decisão muito consciente – não foi por acidente – de não desafiar o sistema neoliberal. Não o fizeram e é por isso que por muitos anos a imprensa financeira, como o Financial Times, The Economist, dizia que existia na América do Sul o modelo bom, o Brasil, e o mau, os bolivarianos. O Brasil é o ornitorrinco descrito por Francisco de Oliveira: manteve, em nível económico, o modelo neoliberal – Palocci era um grande –, mas em assuntos externos mudou. Disseram aos EUA: "já não faremos o que querem", e as tentativas muito fortes de dividir Lula e Chávez foram neutralizadas. Talvez seja somente simbólico, mas foi muito importante.
– Então, qual é o balanço?
É misto. Isso é um problema, mas é o mundo em que vivemos. Vemos reformas sociais, tentativas de mobilizar desde baixo, envolver esses setores, fazê- los participar no funcionamento do sistema e isso é muito positivo. Vimos imensas quantidades de dinheiro postas a disposição. Mas o fato de que o capitalismo exista com todas suas contradições também significa que não se pode lidar com o país como um todo. Qual é a causa do nível de insegurança na Venezuela? Se houve uma verdadeira melhora das condições de vida dos pobres, por que ela acontece? É puramente interno ou parte é promovida pela intervenção colombiana para criar instabilidade? Provavelmente um pouco dos dois. Na Bolívia também houve avanços e problemas, que recentemente explodiram num confronto entre o povo e o governo, resultado da intervenção económica de uma empresa brasileira. Portanto, são problemas que permanecem conosco e acho que a única solução em médio prazo é os governos fortalecerem e institucionalizarem estruturas desde baixo. Assim, ainda que derrotados, a estrutura se mantém alternativa ao parlamento existente e o progresso conquistado não poderá ser totalmente revertido, porque, se tentar reverter as reformas, a direita sofrerá um tremendo levante.
Então, penso que é uma situação mista. Para o resto do mundo, o que aconteceu na América do Sul é o experimento mais radical até agora – dentro do capitalismo, de acordo –, mas muito radical, porque o mundo nos disse que o Estado não deve fazer nada, o que é muito irónico agora, quando há uma tremenda crise e é preciso recorrer ao Estado.
– O senhor acredita que o Brasil está promovendo um novo tipo de imperialismo?
Nos anos de 1970, tivemos este grande debate sobre se os poderes regionais poderiam chegar a ser subimpérios. Ironicamente, Cardoso [FHC] escreveu sobre isso, quando era de esquerda, na nossa revista New Left Review. Eu acho um problema, essas são as contradições do Brasil. Se fosse um governo de direita, não haveria contradições. O governo do PT permitiu que a indústria privada se metesse em sua indústria petroleira, fomentou investimentos de corporações ocidentais no Brasil e, logo, essa é sua própria lógica para operar em outros países do continente, sem ver que esses investimentos são vistos pelas pessoas desses outros países como um tipo de exploração.
É muito comparável com a Índia em partes da Ásia. Essa é a maneira como funciona o capitalismo, a menos que tenha um Estado que o controle. Todos esses projetos deveriam ser um corpo comum das repúblicas sul-americanas. O governo brasileiro provavelmente dirá: "Não depende de nós, é o capital". Mas depende deles, sim. Eles podem controlar o capital se quiserem.
– O senhor acha importante e possível um diálogo entre os processos sul-americanos e árabes?
É muito importante que ocorra. Mas os levantamentos árabes ainda não estabeleceram vínculos entre eles mesmos. Os Estados estão colaborando entre si, os movimentos estabelecem vínculos apenas episódicos, com alguns indivíduos. É extremamente importante mostrar alo que se fez na América do Sul. Quando estamos aqui, pensamos que não é suficiente, mas comparado ao que aconteceu no mundo árabe, é enorme. Quando Chávez visitou o mundo árabe há uns cinco ou seis anos e a Al-Jazeera o entrevistou por uma hora, foi a entrevista mais popular que haviam feito até então. Porque ele falou sobre o programa social da Venezuela, como estavam utilizando os recursos do petróleo e os árabes escutando- o se diziam: "Meu Deus, por que não aqui?". O diretor da Al-Jazeera me disse que receberam mais e-mails sobre essa entrevista do que sobre qualquer outra coisa que já transmitiram. Dezenas de milhares de e-mails que perguntavam, de diferentes maneiras: "quando o mundo árabe vai produzir um Chávez?".
– E qual é a imagem do Brasil no Oriente Médio?
Não creio que o Brasil tenha uma imagem. As pessoas pensam, desafortunadamente, em outros continentes neste momento. A Venezuela é uma exceção. Chávez, basicamente, pôs a Venezuela no cenário mundial. É o único país sulamericano que de verdade é bem conhecido, pelo programa bolivariano. Não creio que o Brasil tenha uma imagem, boa ou má.
– O Fórum Social Mundial (FSM) estabeleceu um diálogo entre organizações políticas de todo o mundo e o senhor participou bastante disso. O FSM poderia ser um espaço de encontro desses levantamentos hoje?
Não estou tão convencido disso porque, quando o FSM começou, era extremamente importante, era a primeira vez, desde o grande triunfo do capitalismo, que as pessoas de todo mundo que pensavam que era preciso outra coisa começaram a se encontrar para dizer uns aos outros: "Oi! Você ainda está aqui! Que bom!". Nesses anos existiam movimentos sociais grandíssimos, que podiam ser reconhecidos, que tinham representantes identificáveis. Tínhamos movimentos e ONGs, com contradições entre eles em alguns casos. As ONGs, por sua natureza, são obrigadas por seus patrocinadores a não serem políticas e se concentrarem em um tema, como una fábrica em particular em um país em particular. Como resposta aos problemas do mundo isso não é sufi ciente. Muitas ONGs na Ásia e no mundo árabe foram advertidas por seus patrocinadores para não se oporem à guerra no Iraque. Então, agora, com os movimentos sociais debilitados e com as ONGs dominado totalmente o FSM, acho que ele não é tão relevante. Deixei de ir aos FSMs nos últimos anos. Os de Porto Alegre foram muito importantes, mas os que se levaram a cabo agora... converteram- se em uma espécie de simbolismo. Nada é feito. Só te faz sentir bem por dois ou três dias. E agora tampouco te faz se sentir tão bem. Muita gente pobre não pôde chegar aos fóruns organizados na África porque eram muito caros. Seus organizadores têm que se perguntar: "Para que estamos organizando isso? Qual é o objetivo do FSM?" Porque o mundo mudou desde os primeiros fóruns, para melhor em alguns casos, e creio que o mais importante agora é o fortalecimento regional, unir as forças progressistas na América do Sul, unir as forças progressistas no mundo árabe, unir as forças progressistas na Europa contra os banqueiros e a burocracia que não foi eleita. Nisso que acho que devemos nos concentrar. E com as novas iniciativas estadunidenses, é muito importante criar um movimento de oposição na região do Pacífico.
[Entrevista tirada do sitio web portugués ‘Esquerda’, do 14 de xaneiro de 2012]
Para que o FSM se integre na construção do outro mundo possível
[Artigo tirado do sitio web brasileiro ‘Agência Carta Maior’, do 23 de xaneiro de 2012]
Emir Sader
Onze anos depois da sua primeira versão, o Forum Social Mundial volta a seu berço, Porto Alegre. Volta como Forum Social Temático, mas com todas as possibilidades de que daqui a um ano possa voltar a abrigar o Forum Social Mundial.
O mundo mudou desde então – e como? A avaliação do FSM não deve ser feita a partir de si mesma, mas da capacidade de responder aos desafios que as transformações do mundo impõem desde seu início.
O FSM foi organizado como reflexo das lutas de resistência ao neoliberalismo, que teve na década de 90 seu auge. Constituiu-se inicialmente no grande espaço que reunia a todos os que se opunham ao neoliberalismo, sob o lema da construção do “Outro mundo possível”. Porém, não soube transformar-se para se adequar aos novos tempos – tempos de construção de alternativas ao neoliberalismo e tempos de guerras imperiais.
A aparição do FSM já se deu entre a eleição do primeiro governo antineoliberal na America Latina – o de Hugo Chavez, em 1998 – e os atentados nos EUA – no mesmo ano de 2001. Esses dois acontecimentos, que poderiam ampliar a ação do FSM, acabaram definindo seus limites e revelando como o engessamento inicial imposto pelas ONGs que até hoje tem hegemonia no FSM, tenham sido fatais para os destinos do Forum.
A definição inicial de exclusão dos partidos significava também a exclusão da política, dos Estados, do imperialismo, entre outros temas da esfera da política. A eleição de Hugo Chavez apenas dava inicio à serie de presidentes latino-americanos na mesma onda posneoliberal – o fenômeno mais importante da América Latina na década passada, assim como para a construção do “Outro mundo possível”, dado que no continente estão todos os governos que pretendem superar o modelo neoliberal.
Desconhecer essa virada foi fatal para o FSM, que se isolou diante dos mais importantes acontecimentos da década. Foi convocador fundamental das gigantescas manifestações contra a intervenção militar no Iraque, mas não fez balanço delas e menos ainda deu continuidade a elas, até porque temas como imperialismo guerra, etc.. estão inevitavelmente na órbita de Estados, da politica, em que o FSM se autolimitou para intervir.
Teve a presença de presidentes como Chavez, Lula, Evo, Lugo, Rafael Correa – mas os manteve em atividades paralelas, marginais. O FSM, sempre sob controle de ONGs, se automarginalizou assim dos processos reais para os quais tinha nascido.
De que forma é possível regulamentar a circulação do capital financeiro, sem Estado e governo? Como é possível garantir direitos que o neoliberalismo tinha expropriado, senão através de Estados e de governos? Como é possível superar o Estado mínimo do neoliberalismo, sem Estados e governos? Em suma, o formato a que o FSM se condenou no começo, o levou ao engessamento e à incapacidade de acompanhar a evolução da luta pela superação do neoliberalismo. Para as ONGs pode ser bom que que o FSM seja apenas um lugar de troca de experiências, mas isso fez com que já exista uma nova geração de jovens – os indignados na Europa, os Ocupas nos EUA, na Inglaterra, os pinguins no Chile, os rebelados no mundo árabe – que nem sabe da existência do FSM.
O FSM hoje deveria ser um espaço para que os governos progressistas latino-americanos discutissem com os movimentos sociais dos diferentes países os problemas que tem enfrentado com óticas distintas, seja na Bolívia, no Equador, no Brasil, na Venezuela, no Uruguai, no Paraguai, para dar alguns exemplos. Mas para isso o FSM teria que mudar seu formato, incorporar todas as forças que estão construindo alternativas ao neoliberalismo e mudar a composição das suas direções, deixando para as ONGs um papel secundário e entregando para os movimentos sociais o protagonismo essencial. Isto pode fazer com que o FSM ganhe, a partir do próximo ano, em Porto Alegre, o lugar que perdeu ao longo do tempo e possa ser o espaço contemporâneo de construção do outro mundo possível.
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Primavera Árabe de 2012: mais tempestades do que flores
[Artigo tirado do sitio web brasileiro ‘Agência Carta Maior’, do 13 de xaneiro de 2012]
Mohamed Habib
Quando o tunisiano Mohamed Bouazizi ateou fogo no próprio corpo num gesto de protesto, acabou, sem querer, acendendo as chamas de revoltas populares em vários países árabes. Uma análise coerente dessas revoltas e suas perspectivas para 2012, deve considerar duas questões : a geopolítica e a econômica. Além disso, as interferências externas, em especial as do Ocidente dominante, que influenciam cada país do mundo árabe.
A relação do Ocidente com o Oriente Médio é antiga e sempre teve como base os interesses da Europa e, mais recentemente, dos Estados Unidos. A fase atual, é resultado dos interesses do Ocidente pós Primeira Guerra Mundial e envolve a localização e os recursos energéticos do mundo árabe. Os EUA, 3º maior produtor de petróleo e 2º maior de gás natural do planeta, não é visto como produtor e sim como grande consumidor, pois precisa do dobro da sua produção para garantir seu padrão de vida. A Europa, por sua vez, depende fortemente do gás e do petróleo árabes, principalmente da Líbia.
Para manter o consumo energético nos países árabes em cerca de 3%, foi crucial a criação de governos tiranos e/ou corruptos, protegidos pelo Ocidente, para governar os povos da região. Os países árabes foram agrupados em duas categorias, os produtores e os não produtores de petróleo e gás natural. Os primeiros propiciaram um padrão sócio-econômico mais confortável ao seu povo, ao passo que os segundos, ofereceram a miséria e a opressão. Ambos tinham em comum o estabelecimento de regimes não democráticos e de não desenvolvimento.
O Egito, um país rico por sua agricultura, turismo, pedágio do Canal de Suez e indústria, conta hoje com mais de 42% de seu povo abaixo da linha da pobreza e uma dívida externa de 32 bilhões de dólares. Com o sucesso dos levantes populares, a mídia britânica revelou que o ditador Mubarak, em 30 anos de poder, acumulou mais de 70 bilhões de dólares em bancos europeus. O Egito é considerado estratégico, pois em 42 anos, tanto Sadat quanto Mubarak, foram importantes interlocutores e representantes dos interesses do Ocidente e de Israel no Oriente Médio. Além disso, o Canal de Suez, que liga o Mediterrâneo com o Mar Vermelho, é de grande importância para as navegações bélicas e comerciais.
A Líbia é fundamental para o abastecimento energético da Europa, o que justifica a intervenção da OTAN e a participação na queda e na morte de Kaddafi. Uma situação equivalente à intervenção dos EUA no Iraque e à morte de Saddam Hussein. O Iêmen, embora um país pobre, possui localização geográfica que permite total controle das navegações marítimas na conexão do Mar Vermelho com o Golfo de Aden e o Oceano Índico. O ditador Abdullah Saleh, que após meses de protestos e muita violência contra seu povo, terminou saindo no final de 2011, não sem antes deixar o seu vice-presidente no comando do estado que continua baixando a repressão. Saleh é um aliado fiel do Ocidente e dos monarcas da Península Arábica.
O que ficou claro nas declarações do o embaixador dos EUA naquele país, que classificiou de “provocações desnecessárias” as manifestações civis contra o regime e os seus assassinatos. A Síria não conta com recursos energéticos no seu território e sua localização geográfica não tem grandes significados geopolíticos. No entanto, Síria e Irã representam as últimas duas bases de aliados do eixo Rússia-China, que representam forças antagônicas aos EUA.
No início dos levantes árabes, EUA e Europa não expressavam suas preocupações e declararam apoio aos ditadores. Com o crescimento dos movimentos e o enfraquecimento dos regimes, o Ocidente passou a apoiar os movimentos, fornecendo armas e proteções aéreas. Um exemplo marcante é o apoio dos EUA à Junta Militar que governa o Egito atualmente. Os EUA não só silenciam diante dos massacres das últimas semanas contra os manifestantes civis, como também fornecem armas para essa opressão. As forças armadas, que assumiram o comando temporariamente após a queda do ditador Mubarak, tentam manobras desesperadas para continuar no poder. Porém, esta é uma situação que a sociedade egípcia não mais aceitará.
Diante deste quadro, 2012 será de grande complexidade para o Oriente Médio. Salvo melhor juízo, será menos “primavera” e muito mais “outono”, repleto de tempestades e destruições. E serão as forças do Ocidente, principalmente os EUA, que definirão a velocidade da democratização e a reconquista da dignidade do mundo árabe. Mas, apenas se for conveniente ao seu próprio projeto.
A inexorável crise económica global: Uma visão apocalíptica de 2012
por James Petras
A perspectiva económica, política e social para 2012 é profundamente negativa. O consenso quase universal, mesmo entre economistas ortodoxos da corrente dominante, é pessimista em relação à economia mundial. Embora, mesmo aqui, as suas previsões subestimem o âmbito e profundidade das crises, há razões poderosas para acreditar que no princípio de 2012 marchamos rumo a um declínio mais pronunciado do que foi experimentado durante a Grande Recessão de 2008-2009. Com menos recursos, maior dívida e crescente resistência popular em arcar com o fardo de salvar o sistema capitalista, os governos não podem salvar o sistema.
Muitas das maiores instituições e relações económicas que foram causa e consequência da expansão capitalista mundial e regional ao longo das últimas três décadas estão em processo de desintegração e confusão. Os novos centros de crescimento, China, Índia, Brasil, Rússia, que durante uma "década curta" proporcionaram um novo ímpeto para o crescimento mundial cumpriram o seu curso e agora estão a desacelerar rapidamente e continuarão assim ao longo do novo ano.
O colapso da União Europeia
Especificamente, as crises que gangrenaram a União Europeia irromperão e a estrutura de facto em múltiplas camadas transformar-se-á numa série de acordos de comércio e investimento bilaterais e multilaterais. A Alemanha, França, os Países Baixos e os países nórdicos tentarão aguentar a retracção económica. A Inglaterra – nomeadamente a City de Londres, em esplêndido isolamento, afundará no crescimento negativo, seus financeiros esforçar-se-ão por encontrar novas oportunidades especulativas entre os estados petrolíferos do Golfo e outros "nichos". Na Europa do Leste e Central, particularmente a Polónia e a República Checa, aprofundarão seus laços com a Alemanha mas sofrerão as consequências do declínio geral dos mercados mundiais. A Europa do Sul (Grécia, Espanha, Portugal e Itália) entrará numa depressão profunda quando pagamentos maciços de dívidas alimentados por assaltos selvagens a salários e benefícios sociais reduzirão drasticamente a procura do consumidor.
O nível de desemprego e sub-emprego chegando a um terço da força de trabalho provocará conflitos sociais de longa duração, que se ampliarão em levantamentos populares. Finalmente, uma ruptura da União Europeia é quase inevitável. O euro como divisa de referência será substituído por novas moedas nacionais ou as antigas, acompanhado por desvalorizações e proteccionismo. O nacionalismo estará na ordem do dia. Bancos na Alemanha, França e Suíça sofrerão enormes perdas nos seus empréstimos ao Sul. Grandes salvamentos serão necessários, polarizando as sociedades alemã e francesa, com oposição entre as maiorias tributadas e os banqueiros. A militância sindical e o pseudo populismo de extrema-direita (neofascismo) intensificarão as lutas de classe e nacionalistas.
Será menos provável que uma Europa deprimida, fragmentada e polarizada adira a qualquer aventura militar estado-unidense-israelense, de inspiração sionista, contra o Irão (ou mesmo a Síria). A Europa cavalgada pela crise opor-se-á à abordagem de confronto de Washington em relação à Rússia e à China.
Os EUA: A recessão retorna com uma vingança
A economia dos EUA sofrerá as consequências do seu inchaço do défice fiscal e não será capaz de contrapor-se à recessão mundial de 2012. Nem pode ela contar com a saída de "exportar" o crescimento negativo voltando-se para a Ásia anteriormente dinâmica, pois a China, Índia e o resto da Ásia estão a perder vapor económico. A China crescerá muito abaixo da sua média móvel de 9%. A Índia declinará dos 8% para 5% ou menos. Além disso, a política militar do regime Obama de "cerco", sua política económica de exclusão e proteccionismo, impedirão qualquer novo estímulo por parte da China.
O militarismo exacerba o declínio económico
Os EUA e a Inglaterra serão os maiores perdedores na reconstrução económica do Iraque do pós guerra. Os US$186 mil milhões em projectos de infraestrutura, as corporações dos EUA e Reino Unidos ganharão menos do que 5% ( Financial Times, 12/16/11, p 1 e 3). Um resultado semelhante é provável na Líbia e alhures. O militarismo imperial dos EUA destrói um adversário, mergulha-o em dívidas, e países não beligerantes obtêm os contratos lucrativos da reconstrução económica do pós guerra.
A economia dos EUA cairá na recessão em 2012 e a "recuperação sem empregos de 2012" será substituída por um aumento drástico do desemprego em 2012. De facto, toda a força de trabalho contrair-se-á pois pessoas que perdem seus benefícios de desemprego deixarão de registar-se.
A exploração do trabalho ("produtividade") será intensificada pois os capitalistas forçarão os trabalhadores a produzirem mais, por menos pagamento, ampliando-se portanto o fosso dos rendimentos entre salários e lucros.
O declínio económico e o crescimento de desemprego serão acompanhados por cortes selvagens em programas sociais para subsidiar bancos e indústrias financeiramente perturbados. Os debates entre os partidos serão sobre quão amplos deverão ser os cortes para trabalhadores e pensionistas a fim de assegurar a "confiança" dos possuidores de títulos. Confrontado com escolhas políticas igualmente limitadas, o eleitorado reagirá não reelegendo os políticos no governo, abstendo-se e com movimentos de massa espontâneos e organizados, tais como o protesto "Occupy Wall Street". A insatisfação, hostilidade e a frustração permeará a cultura. Os demagogos do Partido Democrata farão da China o seu bode expiatório; os demagogos dos Partido Republicano culparão os imigrantes. Ambos fulminarão contra "os islamo-fascistas" e especialmente contra o Irão.
Nova guerra em meio a crises: sionistas puxam o gatilho
Os "52 presidentes das Principais Organizações Judias Americanas" e seus seguidores "Israel First" no Congresso, no Departamento do Estado, no Tesouro e no Pentágono pressionarão pela guerra com o Irão. Se eles tiverem êxito isto resultará numa conflagração regional e numa depressão mundial. Dado o êxito extremista do regime israelense em assegurar obediência cega para as suas políticas de guerra por parte do Congresso dos EUA e da Casa Branca, quaisquer dúvidas acerca da possibilidade real de um resultado tão catastrófico não podem ser ignoradas.
China: Mecanismos compensatórios em 2012
A China enfrentará a recessão global em 2012 com várias possibilidades de amenizar o seu impacto. Pequim pode comutar a sua produção para o fornecimento de bens e serviços aos 700 milhões de consumidores internos actualmente fora da tormenta económica. Através de aumentos salariais, serviços sociais e segurança ambiental, a China pode compensar a perda de mercados além-mar. O crescimento económico da China, o qual está em grande medida dependente da especulação imobiliária, será afectado adversamente quando a bulha estourar. Daí resultará um declínio agudo, levando a perdas de emprego, bancarrotas municipais e conflitos sociais e de classe agravados. Isto pode resultar tanto numa maior repressão como numa democratização gradual. O resultado afectará profundamente as relações da China entre mercado e estado. A crise económica provavelmente fortalecerá o controle do estado sobre o mercado.
A Rússia enfrenta as crises
A eleição do presidente Putin diminuirá o apoio da Rússia aos levantamentos e às sanções fomentadas pelos Estados Unidos contra os aliados e parceiros comerciais da Rússia. Putin aproximar-se-á da China e beneficiar-se-á com o estilhaçamento da Europa e o enfraquecimento da NATO.
A oposição russa apoiada pelos media ocidentais utilizará a sua influência para desgastar a imagem de Putin e encorajar boicotes ao investimento, o que não os impedirá de perder as eleições presidenciais por um grande margem. A recessão mundial enfraquecerá a economia russa e irá obrigá-la a escolher entre as nacionalizações ou a utilização de fundos crescentes do estado para salvar oligarcas eminentes.
A transição 2011-2012: Da estagnação e recessão regionais para a crise mundial
O ano de 2011 preparou o terreno para o colapso da União Europeia. As crises começaram com a agonia do euro, a estagnação nos EUA e a irrupção de protestos em massa numa escala mundial contra desigualdades obscenas. Os eventos de 2011 foram um ensaio geral para um novo ano de guerras comerciais de plena escala entre grandes potências, agravando lutas inter-imperialistas e a probabilidade de rebeliões populares transformarem-se em revoluções. Além disso, a escalada da febre guerreira contra o Irão, orquestrada pelos sionistas, promete a maior guerra regional desde o conflito indochinês com os EUA. As campanhas eleitorais e os resultados de eleições presidenciais nos EUA, Rússia e França aprofundarão os conflitos globais e as crises económicas.
Durante o ano de 2011 o regime Obama anunciou uma política de confrontação militar com a Rússia e a China e políticas concebidas para minar e degradar a ascensão da China como uma potência económica mundial. Face a um aprofundamento da recessão económica e com o declínio de mercados além-mar, especialmente na Europa, verificar-se-á uma grande guerra comercial. Washington buscará agressivamente políticas que limitem exportações e investimentos chineses. A Casa Branca ampliará seus esforços para perturbar o comércio e os investimentos da China na Ásia, África e alhures. Podemos esperar maiores esforços dos EUA para explorar conflitos internos inter-étnicos e populares na China e aumentar a sua presença militar ao largo da costa chinesa. Neste contexto, uma grande provocação ou incidente fabricado não pode ser excluído. O resultado em 2012 podia levar a raivosos apelos chauvinistas por uma nova "Guerra Fria". Obama proporcionou o quadro e a justificação para uma confrontação em grande escala e a longo prazo com a China. Isto será visto como um esforço desesperado para promover a influência e as posições estratégicas dos EUA na Ásia. O "quadrângulo de poder" militar dos EUA – EUA-Japão-Austrália-Coreia do Sul – com o apoio satélite das Filipinas, tentará destruir os laços comerciais da China por meio da potência militar de Washington.
Europa: Austeridade mais profunda e luta de classe intensificada
Os programas de austeridade impostos na Europa, desde a Inglaterra até à Letónia e o Sul da Europa, serão a marca de 2012. Despedimentos maciços no sector público, salários e oportunidades de emprego reduzidos no sector privado levarão a um ano de guerra de classe permanente e desafios ao regime. As "políticas de austeridade" no Sul serão acompanhadas por incumprimentos de dívida resultando em falências bancárias na França e na Alemanha. A classe dominante financeira na Inglaterra, isolada da Europa mas dominante na Inglaterra, insistirá em que o Partido Conservador "reprima" inquietações trabalhistas e populares. Um novo pensamento estilo neo-thatcheriano de domínio autocrático emergirá; a oposição sindical trabalhista emitirá protestos vazios e apertará as rédeas da populaça em revolta. Numa palavra, as políticas sociais e económicas regressivas desenvolvidas em 2011 prepararam o cenário para novos regimes policiais e confrontações mais grves e possivelmente sangrentas com trabalhadores e jovens desempregados sem futuro.
As próximas guerra que acabarão a América "tal como a conhecemos"
No interior dos EUA, Obama preparou o terreno para uma nova e grande guerra no Médio Oriente através da relocalização de tropas desde o Iraque até o Afeganistão e a sua concentração contra o Irão. Para minar o Irão, Washington está a expandir operações militares e civis clandestinas contra aliados iranianos na Síria, Paquistão, Venezuela e China. A chave para a estratégia belicosa dos EUA e de Israel em direcção ao Irão é uma série de guerras em estados vizinhos, sanções económicas à escala mundial, ciber-ataques destinados a incapacitar indústrias vitais e assassínios terroristas clandestinos de cientistas e responsáveis militares. Toda a pressão, planeamento e execução das políticas estado-unidenses que levam à guerra com o Irão podem ser empiricamente e sem qualquer dúvidas atribuídas à configuração de poder sionista que ocupa posições estratégicas na administração dos EUA, nos mass media e na "sociedade civil".
Uma análise sistemática de decisores americanos que concebem e implementam a política de sanções económicas revela que os papéis principais são exercidos por mega-sionistas (Israel-Firsters) como Ileana Ros-Lehtinen e Howard Berman no Congresso; Dennis Ross na Casa Branca, Jeffrey Feltman no Departamento de Estado e Stuart Levy e seu substituto David Cohen no Tesouro. A Casa Branca está totalmente dominante por gente que arrecada fundos para os sionistas e faz o que querem os "52 presidentes das Principais Organizações Judias Americanas". A estratégia israelense-sionistas é cercar o Irão, enfraquecê-lo economicamente e atacar os seus militares. A invasão do Iraque foi a primeira guerra por Israel; a guerra líbia a segunda; a actual guerra por procuração contra a Síria é a terceira. Estas guerras destruíram adversários de Israel ou estão em vias de fazê-lo.
Em 2011, as sanções económicas, as quais foram concebidas para criar descontentamento interno no Irão, foram a arma escolhida. A campanha de sanções globais empenhou todas as energias dos principais lobbies judeus-sionistas. Eles não enfrentaram qualquer oposição dos mass media, do Congresso ou da Casa Branca. A Configuração de Poder Sionista (Zionist Power Configuration, ZPC) ficou virtualmente isenta de crítica por parte de quaisquer movimentos ou grupos progressistas, de esquerda e jornais socialistas – com umas poucas excepções notáveis. O reposicionamento do ano passado de tropas estado-unidenses do Iraque para as fronteiras do Irão, as sanções e a influência crescente da quinta coluna israelense nos Estados Unidos significa que a guerra irá estender-se ao Médio Oriente. Isso implica sem dúvida um ataque aéreo "surpresa" de mísseis pelas forças estado-unidenses. Ele será justificado por um pretenso "ataque nuclear" iminente inventado pelo Mossad israelense e transmitido fielmente pela ZPC aos seus lacaios dos Congresso estado-unidense e da Casa Branca para ser oficializado e difundido no mundo inteiro. Esta será uma guerra assassina, sangrenta e longa em proveito de Israel; os Estados Unidos pagarão o preço militar directo e o resto do mundo pagará um preço económico elevado. A guerra estado-unidense promovida pelos sionistas converterá a recessão do princípio de 2012 numa grande depressão por volta do fim do ano e provavelmente provocará levantamentos em massa.
Conclusão
Todas as indicações apontam para 2012 como um ano de viragem da implacável crise económica que se propaga da Europa e dos EUA para a Ásia e suas dependências na África e América Latina. A crise será verdadeiramente global. Confrontações inter-imperiais e guerras coloniais minarão quaisquer esforços para atenuar esta crise. Em resposta, emergirão movimentos de massa que com o tempo transformar-se-ão em protestos e rebeliões – e, esperançosamente, em revoluções sociais e poder político.
O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=28349
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
02/Jan/12
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A esquerda mundial após 2011
Por Immanuel Wallerstein
Por qualquer ângulo, 2011 foi um bom ano para a esquerda mundial – seja qual for a abrangência da definição de cada um sobre a esquerda mundial. A razão fundamental foi a condição econômica negativa, que atinge a maior parte do mundo. O desemprego, que era alto, cresceu ainda mais. A maioria dos governos enfrentou grandes dívidas e receita reduzida. A resposta deles foi tentar impor medidas de austeridade contra suas populações, ao mesmo tempo em que tentavam proteger os bancos.
O resultado disso foi uma revolta global daquilo que o movimento Occuppy Wall Street chama de “os 99%”. Os alvos eram a excessiva polarização da riqueza, os governos corruptos, e a natureza essencialmente antidemocrática desses governos — tenham eles sistemas multipartidários ou não.
O Occuppy Wall Street, a Primavera Árabe e os Indignados não alcançaram tudo o que esperavam. Mas sim conseguiram alterar o discurso mundial, levando-o para longe dos mantras ideológicos do neoliberalismo — para temas como desigualdade, injustiça e descolonização. Pela primeira vez em muito tempo, pessoas comuns passaram a discutir a natureza do sistema no qual vivem. Já não o vêem como natural ou inevitável…
A questão para a esquerda mundial, agora, é como avançar e converter o sucesso do discurso inicial em transformação política. O problema pode ser exposto de maneira muito simples. Ainda que exista, em termos econômicos, um abismo claro e crescente entre um grupo muito pequeno (o 1%) e outro muito grande (os 99%), a divisão política não segue o mesmo padrão. Em todo o mundo, as forças do centro-direita ainda comandam aproximadamente metade da população mundial, ou pelo menos daqueles que são politicamente ativos de alguma forma.
Portanto, para transformar o mundo, a esquerda mundial precisará de um grau de unidade política que ainda não tem. Há profundos desacordos tanto sobre a objetivos de longo prazo quanto sobre táticas a curto prazo. Não é que esses problemas não estejam sendo debatidos. Ao contrário, são discutidos acaloradamente, e pouco progresso tem sido feito para superar essas divisões.
Essas discordâncias são antigas. Isso não as torna fáceis de resolver. Existem duas grandes divisões. A primeira é em relação a eleições. Não existem duas, mas três posições a respeito. Existe um grupo que suspeita profundamente de eleições, argumentando que participar delas não é apenas politicamente ineficaz, mas reforça a legitimidade do sistema mundial existente.
Os outros acham que é crucial participar de processos eleitorais. Mas esse grupo está dividido em dois. Por um lado, existem aqueles que afirmam ser pragmáticos. Eles querem trabalhar de dentro – dentro dos maiores partidos de centro-esquerda quando existe um sistema multipartidário funcional, ou dentro do partido único quando a alternância parlamentar não é permitida.
E existem, é claro, os que condenam essa política de escolher o mal menor. Eles insistem que não existe diferença significativa entre os principais partidos e são a favor de votar em algum que esteja “genuinamente” na esquerda.
Todos estamos familiarizados com esse debate e já ouvimos os argumentos várias vezes. No entanto, está claro, pelo menos para mim, que se não houver algum acordo entre esses três grupos em relação às táticas eleitorais, a esquerda mundial não tem muita chance de prevalecer a curto ou a longo prazo.
Acredito que exista uma forma de reconciliação. Ela consiste em fazer uma distinção entre as táticas de curto prazo e as estratégias a longo prazo. Concordo totalmente com aqueles que argumentam que obter poder estatal é irrelevante para as transformações de longo prazo do sistema mundial – e possivelmente as prejudica. Como uma estratégia de transformação, foi tentada diversas vezes e falhou.
Isso não significa que participar nas eleições seja uma perda de tempo. É preciso considerar que uma grande parte dos 99% está sofrendo no curto prazo. Esse sofrimento é sua preocupação principal. Tentam sobreviver, e ajudar suas famílias e amigos a sobreviver. Se pensarmos nos governos não como agente potencial de transformação social, mas como estruturas que podem afetar o sofrimento a curto prazo, por meio de decisões políticas imediatas, então a esquerda mundial se verá obrigada a fazer o que puder para conquistar medidas capazes de minimizar a dor.
Agir para minimizar a dor exige participação eleitoral. E o debate entre os que propõem o menor mal e os que propõem apoiar partidos genuinamente de esquerda? Isso torna-se uma decisão de tática local, que varia enormemente de acordo com vários fatores: o tamanho do país, estrutura política formal, demografia, posição geopolítica, história política. Não há uma resposta padrão. E a resposta para 2012 também não irá necessariamente servir para 2014 ou 2016. Não é, pelo menos para mim, um debate de princípios. Diz respeito, muito mais, à situação tática de cada país.
O segundo debate fundamental presente na esquerda é entre o desenvolvimentismo e o que pode ser chamado de prioridade na mudança da civilização. Podemos observar esse debate em muitas partes do mundo. Ele está presente na América Latina, nos debates fervorosos entre os governos de esquerda e os movimentos indígenas – por exemplo na Bolívia, no Equador, na Venezuela. Também pode ser acompanhado na América do Norte e na Europa, nos debates entre ambientalistas/verdes e os sindicatos, que priorizam manutenção dos empregos já existentes e a expansão da oferta de emprego.
Por um lado, a opção desenvolvimentista, apoiada por governos de esquerda ou por sindicatos, sustenta que sem crescimento econômico, não é possível enfrentar as desigualdades econômicos do mundo de hoje – tanto as que existem dentro de cada país quanto as internacionais. Esse grupo acusa o oponente de apoiar, pelo menos objetivamente e talvez subjetivamente, os interesses das forças de direita.
Os que apoiam a opção anti-desenvolvimentista dizem que o foco em crescimento econômico está errado em dois aspectos. É uma política que leva adiante as piores características do sistema capitalista. E é uma política que causa danos irreparáveis – sociais e ambientais.
Essa divisão parece ainda mais apaixonada, se é que é possível, que a divergência sobre a participação eleitoral. A única forma de resolver isso é com compromissos, diferentes em cada caso. Para fazer com que isso seja possível, cada grupo precisam acreditar na boa fé e nas credenciais de esquerda do outro. Isso não será fácil.
Essas diferenças poderão ser superadas nos próximos cinco ou dez anos? Não tenho certeza. Mas se não forem, não acredito que a esquerda mundial possa ganhar, nos próximos vinte ou quarenta anos, a batalha fundamental. Nela se definirá que tipo de sistema sucederá o capitalismo, quando este sistema entrar definitivamente em colapso.
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Gerry Adams: 'Agora o Governo Britânico está disposto a ir embora quando o povo o decidir'
Gara - [Iñaki Soto, tradução do Diário Liberdade]
Por responsabilidade, Adams não pode contar grande parte das coisas que conhece sobre o processo político basco. Pelo seu conhecimento e interesse sobre os conflitos irlandês e basco, o leitor de GARA pode entender que elementos da realidade irlandesa podem transladar-se, com todas as cautelas, ao caso basco. Esse é a focagem desta entrevista.
Gerry Adams (Belfast, 1948) recebe-nos no hall de um hotel de Dún Dealgan (Dundalk), no Condado de Louth, território arraiano com os condados do norte e do qual Adams é agora deputado no Parlamento de Dublim, o Dáil. Conduz-nos até uma sala em que esteve reunido durante todo o dia com membros da direção do Sinn Féin. A sala está lotada de cadeiras e xícaras de café e de chá vazias. O cansaço não lhe resta nem cordialidade no trato nem serenidade ao falar sobre política.
Recentemente Adams trocou a sua cadeira em Westminster, um Parlamento ao qual não assistia, pelo seu assento no Dáil, onde participa muito ativamente. Algo que, em parte, pode simbolizar algumas das mudanças que aconteceram na Irlanda na última década.
Em que ponto está a unificação da Irlanda?
O processo para reunir de novo o país tem dois caminhos paralelos. Um é o estabelecido pelo Acordo da Sexta-feira Santa, que estipula que o Governo britânico é obrigado a legislar para a unidade da Irlanda se uma maioria dos seus cidadãos o apoiar. Na medida em que reforçámos a nossa capacidade, reforçámos o partido, agora estamos a tratar de atrair particularmente os unionistas, todo mundo mas particularmente eles, tentando persuadi-los de que uma Irlanda unida é o melhor futuro que podem ter em termos dos seus direitos, para eles próprios. É um processo, um «work in progress» (um trabalho em progresso). Por exemplo, na próxima semana, no aniversário do Domingo sangrento, temos uma conferência ao respeito em Derry. Há pouco organizamos um evento parecido em Newry, ao qual foram representantes unionistas. Estiveram no palco e expuseram a sua posição sobre os temas mais sensíveis para eles.
Ao mesmo tempo, nestes momentos economicamente tão obscuros, qualquer um que fosse o benefício económico da partição -e certamente no seu momento esse «benefício» existiu, porque a partição britânica ficou com a parte mais desenvolvida industrialmente, as fábricas, a indústria naval... todo isso ficava no nordeste do país- todo isso sumiu. A partição não tem já um propósito económico. A cada dia que se passa, de jeito exponencial, a partição quebra-se. Estão a levar-se a cabo iniciativas interfronteriças sobre serviços de saúde, agricultura, emprego, infraestruturas... Para uma família que mora no sul o colégio mais próximo pode ficar no norte e caso estejas doente e mores no norte o hospital mais próximo pode ficar no sul. A todos esses níveis, nas questões chave para as pessoas, para o seu bem-estar, estão-se a levar a cabo muitas iniciativas.
A certo nível, existe um panorama geral, o referido aos unionistas, ao Governo britânico e ao Governo irlandês, ao próprio Sinn Féin... Esse é um dos níveis. Depois está um nível popular, no qual as pessoas estão a tomar uma perspetiva mais pragmática, prática...
Então, considera que neste terreno estão melhor que há dez anos?
Com certeza. Há uma imagem muito simples, e é a que tem em consideração os últimos quarenta anos, os começos da luta pelos direitos civis, quando as pessoas estavam numa posição quase servil e tinham negados todos os seus direitos. Mesmo há trinta anos, nos tempos das greves de fome, quando Margaret Thatcher dizia que o norte da Irlanda era «tão britânico como Finchley» [distrito de Londres pelo qual ela foi eleita]. Agora tens um Governo britânico disposto a ir embora, logo de que o povo decida que é hora de que se vão; temos o acordo para toda a Irlanda, que implica uma infraestrutura através da ilha, totalmente interligada; e o mais importante, o povo começou a perguntar a si próprio que significa ser irlandês. Por certo, o conflito magoou muitas pessoas, pessoas que morreram ou foram feridas, também pessoas que não estavam envolvidas no próprio conflito. Portanto, é preciso um processo de reconciliação, de nos conhecermos uns os outros, de fazermos amigos. Ainda resta muito por fazer, mas isso está em marcha agora.
Pode-se dizer que a crise pode «beneficiar» o projeto de uma Irlanda unida?
A crise tem um custo grande demais, particularmente em partes da ilha como esta. Aliás, em muitos sentidos no norte não tivemos um Tigre Celta, não houve um grande crescimento dos salários ou das oportunidades do povo. O Tigre Celta não visitou muitos bairros e comunidades que permaneceram à beira da pobreza. Foi um período no qual só uns poucos viveram na abundância, com uma riqueza enorme acumulada precisamente por aqueles que causaram a crise. Mas agora temos meio milhão de pessoas desempregadas e todas as semanas entre quinhentos e oitocentos jovens abandonam a Irlanda. Neste natal pudemos ver em televisão como muitos deles regressavam da Austrália, EUA, Grã-Bretanha... para passar as férias. Posteriormente vimos as suas famílias despedi-los emotivamente. Do mesmo jeito, os pequenos agricultores, as mulheres, especialmente as mulheres, as que têm filhos, os próprios meninos, os idosos... todos eles estão a sofrer uma situação selvagem provocada por um Governo que agora mesmo está a fazer cortes de 3.800 milhões de euros e à sua vez reembolsando dinheiro a bancos criminosos. Isto não faz nenhum sentido, isto é o capitalismo em crise, mas os peixes gordos estão a sobreviver, enquanto o povo está a sofrer.
Está a unificação já na agenda do resto de partidos e agentes irlandeses?
Se calhar não de uma maneira ativa, mas é muito educativo ver que todos os partidos em Dublim entendem a unificação como um ponto chave das suas políticas. Claro que nesses partidos há pessoas que genuinamente desejam a unidade da Irlanda. Mas sobretudo reflete a consciência de que é um assunto popular, que afeta o povo na sua vida diária, e o povo é muito consciente disso. Por exemplo, um argumento que teve muito bom acolhimento expõe que, num momento como este, a duplicidade de despesas que provoca a fronteira deve ser travada. Quer dizer, estamos bastante satisfeitos de que uma vasta maioria ao longo da ilha queira ver uma interpretação que concretize a unificação da Irlanda.
Reconhecemos dois grupos, os unionistas por um lado e o establishment de Dublim pelo outro, que são contra. O establishment de Dublim quer o statu quo. Levam quase um século a defendê-lo, não querem ver a classe de república que surgiria de uma Irlanda unida. A república que temos aqui não é a classe de república com os valores que defendia a Declaração de 1916. O povo não é soberano. Os valores centrais dessa república, o acesso à educação, trabalhos decentes, moradas decentes, o acesso à saúde... todo isso falta. Precisamos de uma república real. Na realidade os unionistas têm uma justificativa mais clara para a sua postura, no sentido de que estão do lado «errado» da história, mas no caso dos conservadores é puro egoísmo que só pretende salvaguardar os seus privilégios de elite.
Existem contradições entre o labor de governo no norte e de oposição no sul?
Em absoluto. Há uma obrigação pela nossa parte de ser consistentes. Obviamente, o que tentamos fazer na oposição e no Governo é coerente. O nosso objetivo é estar no Governo em ambas as instituições. O nosso objetivo é ter um Governo que seja responsável e eleito para representar o povo de toda a Irlanda.
É bastante irónico que neste momento os nossos representantes no Executivo do norte, com Martin McGuinness à cabeça e com o apoio de Peter Robinson, estejam a tentar trazer poder fiscal desde Londres para a Irlanda, enquanto ao mesmo tempo, em Dublim, esse poder se está a perder em prol da UE ou do FMI. Portanto, não existe contradição alguma entre as nossas políticas. Onde estão essas contradições é no que estão a fazer os conservadores e a classe dirigente deste país.
Voltando ao processo, o senhor afirmou que «a guerra acabou», mas o conflito mudou definitivamente? que resta por fazer?
A questão das vítimas é algo que deve ser resolvido, incluídas as vítimas do IRA, gente que perdeu os seus familiares, que foi ferida... Não teve um processo ao respeito e o Sinn Féin está a favor de um processo independente para este assunto. No lado dos ativistas republicanos, existem temas a resolver, como a situação dos refugiados [há umas dezenas de ativistas que não podem calcar «chão britânico»], a dos presos que permanecem livres baixa permissão, ainda não existe uma Ata do idioma irlandês no norte... Sim, há questões abertas. É por isso que o termo «processo» é muito apropriado para um processo de paz. O acordo consegue-se, neste caso o de Sexta-feira Santa, mas durante anos seguimos negociando a implementação, inclusive alguns dos componentes centrais do Acordo se seguem tratando em posteriores negociações e conversas. A questão da Polícia, por exemplo, só se resolveu em termos de princípios muito amplos, faz três anos. Aí chegas onze anos após o acordo básico. Um processo é como a democracia mesma, como a sociedade, como a comunidade, é um «work in progress». Não vais chegar a nenhum ponto no que digas «já está», sempre vai ter algo que fazer.
Então está de acordo em que foi mais fácil fazer o acordo que executá-lo?
O senador Mitchell assim o exprimiu a Martin McGuinness então. Disse-lhe «isto é fácil, mas o difícil é implementá-lo». Suponho que até certo ponto o Sinn Féin e os seus líderes entenderam a necessidade de ver a negociação como se significasse «luta», não como uma etapa que se termina e todo o mundo se vai para casa. Precisas de continuar comprometido, trata-se do nosso futuro, e deve ser o melhor, o protocolo de direitos humanos de maior qualidade. Certamente, há resistências, particularmente por parte dos governos. O Governo britânico entende que com o tipo da Irlanda que pode surgir aqui do que se está a falar é de uma rutura do Reino Unido. São grandes questões. E o mesmo pensam os unionistas no País Basco e no Estado espanhol. São grandes questões a nível humano, de pessoas que requerem ser respeitadas pelo Estado, sendo os seus direitos reconhecidos, defendidos e promovidos ativamente pelo Estado.
Mergulhando na questão basca, achava que após a Declaração de Aiete, da qual o senhor participou, a resposta da ETA ia ser tão rápida e clara?
Tinha-se feito muito trabalho durante longo tempo por parte do pessoal envolvido. Acho que se tinha criado uma oportunidade realmente definitiva. Tinha um grande trabalho, a acumulação de muitos esforços por parte de todos os agentes envolvidos. Penso que há que o elogiar e quero-o agradecer. Acredito que o Governo espanhol e os responsáveis no País Basco responderão positivamente. Agora há uma situação de lapso total de todo o tipo de ações armadas por parte do ETA e essa era a chave durante um tempo considerável. O seu compromisso com as vias pacíficas e democráticas é muito, muito claro. É uma responsabilidade enorme a que tem o Governo. Não sou quem para dar lições a ninguém. Ninguém de fora da Irlanda pode fazer a paz na Irlanda, ninguém de fora do País Basco ou do Estado espanhol pode levar a paz ali. Mas não há nenhuma razão pela qual não se possa dialogar e esse diálogo pode resolver todo o problema que se apresentar.
Podem os denominados securocratas parar este processo?
Na medida em que houver vontade por parte do povo que vive aí de construir um processo, e tenho a convicção de que essa vontade existe, um processo plenamente pacífico que procure a independência e a justiça para o povo do País Basco, isso não pode ser travado. Pode-se atrasar, pode-se resistir, mas não se pode parar. Se a gente e a liderança tiverem essa vontade... E quando falo em liderança refiro-me à base, aos cidadãos e cidadãs. Se tiverem o desejo, a determinação, a vontade, a paciência e a estratégia... A estratégia é crucial para poder frear aqueles que querem bloquear o processo, os que procurem resistir demandas legítimas. Por exemplo, o povo deve ter o direito a votar no partido político que quiser. Os prisioneiros devem ser tratados decentemente e aqueles que possibilitaram chegar a esta oportunidade de paz devem ser libertados. Há que gerar confiança por todas as partes. Há que reconhecer os direitos dos familiares de presos, que até que sejam libertados devem estar em condições dignas, e aqueles não podem ter que dar a volta ao mundo para os ver... Todas essas coisas que a gente vê como normas democráticas básicas são parte do que tem que alicerçar essa estratégia.
Acha que a comunidade internacional realmente vai envolver-se se os estados não derem passos?
O País Basco é no coração da Europa e era o conflito mais longo e duradouro. Agora há uma oportunidade real para o solucionar. Acho que a presença de personalidades importantes, vultos de prestígio internacional na Declaração de São Sebastião mostra que reconhecem que há uma necessidade por parte da comunidade internacional se envolver, e designadamente para a União Europeia, alentando e alimentando este processo. E em concreto nós, em todas as formas que pudermos -nesse sentido lhe propusemos isto mesmo em repetidas ocasiões ao nosso Taoiseach [primeiro-ministro irlandês]- faremos todo o que possamos para ajudar.
«Sou um aspirante a revolucionário»
Os denominados «dissidentes republicanos», têm alguma razão para manter a sua postura? Qual é a sua posição ao respeito?
Antes de mais, não existe um propósito estratégico que seja racional ou lógico, também não uma vantagem tática para os objetivos da república irlandesa, que possa avançar neste momento por meio dessas ações. Esse tempo passou, já foi, finalizou. Deixando de lado a obscenidade da participação das autoridades britânicas em questões irlandesas, racionalmente qualquer que defenda ou leve a cabo ações armadas procura defender-se a si próprio, ou a sua família ou a sua comunidade; ou se não, pretende avançar nos seus objetivos. Se olharmos qualquer desses dois critérios não há base para essas ações. E se formor para além, não tem apoio popular. É certamente um grupo pequeno de pessoas que pode levar ações individuais enquanto quiserem fazê-lo. Mas em termos de ser um movimento ou luta credível, não têm espaço social. Inclusive não gosto de usar o termo «dissidente». A discrepância é uma grande coisa. Nós no Sinn Féin ativamente animamos as pessoas a discrepar, isso implica discutir, avançar.
Uns desqualificam-no acusando-o de ter sido «chefe do IRA» e outros acham que merecia o Nobel da Paz. Considera-se um pacifista ou um revolucionário?
Sou um aspirante a revolucionário! Sou um ativista que faz todo o que pode. Todos os da minha geração, os que sobrevivemos ao conflito, somos realmente afortunados por podermos construir a paz. Acho o mesmo sobre os bascos e bascas que agora têm essa oportunidade. Uma vez que fica claro para todos que não há outra alternativa que ir avante, isso pode ser muito libertador. A partir daí pode-se ver uma sociedade melhor desenvolver-se. Acho que sou muito afortunado por ter podido contribuir para todo isso, por muito pequeno que fosse o contributo, ajudando a trazer a paz.
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A reforma laboral promovida polo PP
Suso Seixo (Secretário Geral da CIG)
Desde o Goberno Español e desde altas instancias europeas, como é o caso do BCE e da propia Comisión Europea, sigue a facerse fincapé da necesidade urxente dunha reforma laboral profunda como medida prioritaria para crear emprego e saír da crise.
Os eixos desa reforma laboral xiran ao redor de : modificación da estrutura da negociación colectiva, pola vía de darlle prevalencia o convenio de empresa sobre o convenio de calquera outro ámbito; abaratar o despedimento ou facilitar a flexibilidade interna ás empresas, o que se traduce en darlle facilidades á empresa para que poida descolgarse do cumprimento do convenio colectivo en calquera das materias, modificar a xornada laboral ao seu antollo, etc.
As supostas rixideces do mercado laboral nada tiveron, nin teñen que ver, coa crise económica e polo tanto tampouco a solución á mesma está na reforma de dito mercado, como de forma reitera pretenden facernos crer os poderes económicos cos seus gobernos títeres á fronte. Nunca as reformas do mercado laboral foron a saída ás crises económicas no Estado Español, proba desto é que as reformas feitas polo anterior goberno non só non evitaron a destrución de emprego senón que este veuse incrementado. Dous datos, o Estado Español é dos que máis desemprego acumula en toda a UE, sendo tamén onde se dan os maiores índices de temporalidade e rotación nos postos de traballo; así mesmo, os maiores índices de desemprego se dan no sector dos menores de 30 que é tamén onde é maior a temporalidade e os salarios máis baixos.
A reforma laboral que vai levar adiante o Goberno do PP e que esixen a UE, o BCE e a CEOE, o única que busca é aproveitar a crise económica para por en marcha toda unha serie de reformas estruturais que provoquen un recorte xeneralizado de dereitos e das actuais condicións laborais, retrocedendo as mesmas a un escenario de fai cincuenta anos; debilitar as armas de presión con que conta a clase traballadora como son a negociación colectiva e a folga, en definitiva, cargar os custos da crise á clase traballadora e deixala nunha situación de debilidade e cunha capacidade de resposta moi mermada de cara os próximos anos.
A crise económica é unha crise de modelo económico, social e produtivo. Un modelo enormemente inxusto e antidemocrático, baseado no fomento dunha economía especulativa que favorece a acumulación da riqueza en poucas mans, a centralización do poder e a dirección das políticas económicas, sociais e laborais, por institucións financeiras e políticas, sen o máis mínimo control democrático, ao servizo do capital financeiro.
A saída á crise ten que partir dunhas políticas estruturais que fixen o camiño do que ten que ser un novo modelo económico, sostíbel social e medioambientalmente, que garanta un reparta equitativo da riqueza e o acceso, por parte de toda a poboación, a dereitos básicos como son o emprego, a vivenda, o ensino, a saúde, a enerxía, a alimentación e un medio ambiente limpo.
(Artigo publicado no xornal ‘El Progreso’ o día 20 de xaneiro de 2012)
O povo armênio tem direito a que seu clamor seja escutado
Kaos en la Red - [Carlos Roberto Martínez Ulloa, tradução do Diário Liberdade]
Os números não contam, a verdade é o que interessa: Sim houve genocídio armênio.
Durante cerca de 100 anos, o povo de Armênia lutou por que se escute seu clamor, que os povos do mundo conheçam a verdade do que seu povo já sofreu, a verdade do primeiro genocídio do século XX, a verdade de quem foram os culpados do desaparecimento físico de quase dois milhões de pessoas, e o exílio de muitos mas que tiveram que abandonar suas terras, suas pertences, suas famílias, mas que nunca têm desistido em seu empenho para fazerem ouvir seu clamor, esse grito que se afogou em suas gargantas, mas que sai em silêncio e se divulga por todo o planeta: Justiça para o povo armênio!
Herbert Adams Gibbons escreveu a mas negra pagina da história moderna em 1915. Em seu prólogo diz: Sinto necessário e imperativo neste momento chamar a atenção a respeito desta, sem dúvida alguma, pagina negra na história moderna, para que se conheçam os fatos e se indiquem as responsabilidades.
Henry Morghentau em seu livro The Murder of a Nation, publicado em 1918 por DoubleDay, fala-nos como sendo embaixador dos Estados Unidos em Constantinopla, durante os anos 1913 a 1916, foi testemunha dos fatos com que nos relata com grande precisão, a destruição da população armênia sob administração turca, durante a deportação de 1915, e que qualificou como o mas terrível na história do mundo. Em sua dedicatória diz: a Woodrow Wilson, o expoente na América da ilustração da opinião publica do mundo, quem decretou os direitos das pequenas nações tem ser respeitadas e que os crimes que se descrevem neste livro nunca mais obscureçam as páginas da história.
Arnold J. Toynbee, em seu livro Armenian Atrocities The murder of a nation, publicada em 1915, apresenta-nos os depoimentos de testemunhas que lhe relataram os acontecimentos. Na introdução do mesmo, Lord Bryce diz-nos: Não foi por uma paixão muçulmana contra os cristãos de Armênia. Tudo foi pela vontade do Governo, e cometido não por fanatismo religioso, mas porque simplesmente se queria, por razões meramente políticas, para que nenhum elemento não muçulmano impedisse a hegemonia do Império... Toynbee nomeia seu prólogo como A Evidência. É este livro um dos grandes depoimentos da época onde se nos relatam os massacres, as deportações, os vexames a que foi submetido o povo armênio.
A questão armênia era um termo que se utilizava nos anos anteriores a 1920, e é que era um assunto que muito tempo atrás se tinha iniciado. Massacres em povoações armênias durante o século XIX eram relatadas por muitos escritores, e continuavam se produzindo ainda nos princípios do século XX. Kevork Aslan, em Armênia e os armênios faz-nos um relato sobre os armênios desde os primeiros tempos até 1914. Os armênios foram perseguidos por sua religião, mas eles preferem a morte à apostasia. Etnicamente, os armênios constituem uma raça e possuem um elemento de homogeneidade. Têm sua própria lingua e literatura, bem como suas próprias tradições, santificadas pelo sangue de inúmeros mártires. Estes são os requisitos para uma existência independente e que permitem que a Armênia seja admitida dentro da família das nações.
Talvez um das mais expressivas manifestações se encontre no livro de Bertha Papazian, na primeira alínea da introdução, escrita por James L. Barton: A crucifixão dos armênios em mãos do Governo Turco e com a aprovação se não direta cooperação da Alemanha, tocou o coração da humanidade. O mundo testemunhou como a mas antiga e notável das raças da história foi alvo de prolongados ataques, atrocidades além do que as palavras podem descrever, sem uma razão concebível, mais que a de exterminar um povo inteiro, cuja ofensa foi a indústria e seu inesquecível crime a profissão e prática da Cristandade. ( Pagina IX . The Tragedy of Armenia.1918).
A 15 de maio de 1996, deu-se uma audiência ante o Comitê de Relacionamentos Internacionais da Casa de Representantes nos Estados Unidos, cujo titulo era A História do Genocídio armênio. As testemunhas dessa audiência foram Dr. Levon Marashlian, professor de História, da Universidade de Glendale, Califórnia, o Doutor Rouben Adalian, Professor de História, Universidade de Georgetown e Universidade George Washington, e o Dr. Justin McCarthy professor de História Universidade de Louisville, Kentucky.
Nessa Audiência, o Representante da Califórnia, Mathew G. Martínez disse: O ponto é que a comunidade armênia, por muitos anos quis que o Governo Turco reconheça o que fizeram e que isso esta cheio de evidências e provas que o confirmam... A verdade sobre este assunto está bem documentada e que foi o ponto de partida do Holocausto Judeu, e bem sabemos que Hitler disse a seus generais quando o interrogaram: Quem, depois de tudo, fala da aniquilação dos armênios?... E a razão por que estamos cá debatendo, é por que quando o mundo se paralisa e permite um genocídio ou uma eliminação de um povo por suas diferenças, então nós somos tão culpadas como aquele povo que o comete, como não se tomaram ações para o evitar. E nossa responsabilidade com os direitos humanos o evitar o abuso de um povo contra outro povo. Por isso deve ser mantida esta audiência, já que há pessoas que negam o genocídio armênio, tanto como há quem negue o Holocausto Judaico. (Pagina 7. Hearing before the Commitee of International Relations House of Representatives one houndred Fourth Congress Second Session May, 15.1996)
Na mesma audiência o Dr. Marashlian diz: Em 1919, o Congresso Nacional de Turquia confirma a esmagadora evidência de que os armênios foram vítimas de destruição em massa durante a Primeira Guerra Mundial. Esse Congresso declaro culpados aos oficiais que conceberam e levaram a cabo a política infernal de exterminación e roubo como patente. Esses oficiais são declarados como grandes criminosos da humanidade. Isso é do Congresso Nacional de Turquia. O diário oficial, Takvimi Veyaki, publico o veredito dos julgamentos de pós guerra contra esses oficiais. Corte-a Turca sentencio a intenção dos líderes otomanos, que era a organização e execução do crime de massacre. Esses que hoje em dia denegan o genocídio armênio, e levam a cabo um revisionismo acadêmico para prevenir os atos morais de lembrança destes crimes contra a humanidade. Os revisionistas de agora disseram que Forrest Yowell, Mark Ward, Ruth Parmalee, Isabel Harley, Edith Woods, Herbert Gibbons e o Embaixador Henry Morgenthau foram todos mentirosos e mal aconselhados... ( Página. 11).
Como expressei em um articulo que escrevesse no mês de abril 2001, Monumento à memória, sobre a sentença histórica de um Juiz Argentino: O juiz federal Norberto Oyarbide emitiu uma falha no que consagrou que "o Estado turco cometeu o crime de genocídio contra o Povo armênio" entre 1915 e 1923, quando mais de um milhão de cidadãos dessa nacionalidade foram assassinados pelas forças de Istambul. Além disso, reclamou à Turquia que informe sobre a sorte de familiares de um descendente de armênios.
O Parlamento francês acabou de aprovar uma lei em que pune com um ano de prisão e multa (45.000 Euros) aqueles que negarem o genocídio armênio, baseando em uma lei do 2001, na qual esse mesmo parlamento reconhecia o genocídio armênio como uma verdade inegável.
A Turquia rompeu relações políticas e militares com a França, exigindo ao Parlamento francês que retire a nova lei.
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Audácia, mais audácia
por Samir Amin
Por que audacia?
1. O capitalismo contemporâneo é um capitalismo de monopólios generalizados. Com isto quero dizer que os monopólios não são já mais ilhas grandes num mar de empresas relativamente autónomas, mas que são um sistema integrado, que controla absolutamente todos os sistemas de produção. Pequenas e médias empresas, mesmo as grandes corporações que não são estritamente oligopólios, estão sob controle de uma rede que substitui os monopólios. Seu grau de autonomia viu-se reduzido ao ponto de se converterem em subempreiteiras dos monopólios.
Este sistema de monopólios generalizados é produto de uma nova fase de centralização do capital que teve lugar durante os anos 80 e 90 nos países que compõem a Tríade (Estados Unidos, Europa e Japão).
Os monopólios generalizados dominam agora a economia mundial. "Globalização" é o nome que deram ao conjunto de demandas mediante as quais exercem o seu controlo sobre os sistemas produtivos da periferia do capitalismo global (periferia percebida como o mundo abaixo da Tríade). Isto não é mais que uma nova fase do imperialismo.
2. O capitalismo dos monopólios generalizados e globalizados é um sistema que garante que estes monopólios gravem impostos sobre a massa de mais-valia (transformada em lucros) que o capital extrai da exploração do trabalho. Na medida que estes monopólios estão operando nas periferias do sistema global, a renda monopólica é renda imperialista. O processo de acumulação capitalista -que define o capitalismo em todas as suas sucessivas formas históricas- é determinado pela maximização da renda monopólica/imperialista que persegue.
Este deslocamento do centro de gravidade da acumulação do capital é a fonte da contínua concentração do rendimentos e a riqueza em benefício dos monopólios, amplamente controlada pelas oligarquias (plutocracias) que governam os grupos oligopólicos à custa da remuneração do trabalho e mesmo da remuneração do capital não monopólico.
3. Isto põe em risco o mesmo crescimento, desequilibrando a fonte de financeirização do sistema económico. Com isto, refiro-me a que o segmento crescente da mais-valia não pode ser investido na expansão e profundamento dos sistemas de produção e por conseguinte o investimento financeiro da mais-valia desmedida volta-se a única opção para sustentar a acumulação sob o controle dos monopólios.
A implementação que o capital realiza em determinados sistemas, permite que a financeirização opere de diferentes modos, gerando:
(i) a subordinação da gestão das empresas ao princípio do "valor das acções".
(ii) a substituição do sistema de pensões baseado na capitalização (fundos de pensão) por sistemas de distribuição das pensões.
(iii) a adoção do princípio de "intercâmbio de taxas flexíveis".
(iv) o abandono do princípio sob o qual os bancos centrais determinam a taxa de juros -o princípio de liquidez- e a transferência desta responsabilidade ao "mercado".
A financeirização transferiu a responsabilidade principal no controle da reprodução do sistema de acumulação a 30 grandes bancos que são parte da Tríade. Os eufemisticamente chamados "mercados" outra coisa não são que os lugares onde se despregam as estratégias dos atores que dominam a cena económica.
Portanto, esta financeirização, que é responsável pelo crescimento da desigualdade na distribuição do rendimento (e a riqueza), gera a mesma mais-valia que a sustenta. O "investimento financeiro" (ou, por melhor dizer, o investimento em especulação financeira) continua crescendo a grande velocidade, sem corresponder com o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB, que na actualidade está-se convertendo em qualquer coisa fictícia) ou com o investimento na produção real.
O crescimento explosivo do investimento financeiro requer, e alimenta-se, da existência de dívida em todas as suas formas, especialmente da dívida soberana. Quando os governos que estão no poder dizem estar perseguindo a redução da dívida, estão mentindo deliberadamente. Para concretizar a estratégia de financeirização dos monopólios necessita-se o crescimento da dívida, algo que na realidade os monopólios buscam mais que combatem, como um modo de absorver o lucro dos monopólios. As políticas de austeridade impostas para "reduzir a dívida", tiveram como resultado (tal e como se pretendia) o incremento do volume desta.
4. É este sistema -chamado popularmente neoliberal, o sistema do monopólio generalizado capitalista, "globalizado" (imperialista) e financeirizado (como uma necessidade para a sua própria reprodução)- o que implosiona ante os nossos olhos. Mas este sistema, aparentemente incapaz de derrotar as suas crescentes contradições internas, está condenado a continuar a sua selvagem expansão.
A "crise" do sistema é causada pelo seu próprio "sucesso". Com efeito, a estratégia despregada pelos monopólios sempre produziu os resultados desejados: os planos de "austeridade" e os chamados planos de corte social (na realidade anti-social) continuam sendo impostos, apesar da resistência e as lutas. Atualmente, a iniciativa jaz em mãos dos monopólios ("os mercados") e dos seus servos políticos (os governos subordinados às demandas do "mercado").
5. Nestas condições, o capital monopólico declarou abertamente a guerra tanto aos trabalhadores como aos povos. Esta declaração faz parte da formulação da sentença "o liberalismo não é negociável". O capital monopólico continuará se expandindo sem reduzir a sua velocidade. A crítica à "regulação" que explico a seguir, é baseada neste fato.
Não estamos vivendo um momento histórico onde a procura de um "compromisso social" seja uma opção possível. Já houve momentos no passado, como o compromisso social durante a pós-guerra entre o capital e o trabalho referente a um Estado social democrático no oeste, o socialismo atualmente existente no leste, e os projetos nacionalistas e populares no sul, mas o atual momento histórico já não é o mesmo. O conflito actual produz-se entre o capital monopólico, e os trabalhadores e a gente que é chamada a se render incondicionalmente. As estratégias defensivas de resistência nestas condições não são efetivas e eventualmente levam mesmo a serem derrotadas. Na guerra declarada pelo capital monopólico, os trabalhadores e os povos devem desenvolver estratégias que lhes permitam situar-se à ofensiva.
O período de guerra social está necessariamente acompanhado pela proliferação de conflitos políticos internacionais e intervenções militares das forças imperialistas da Tríade. A estratégia de "controle militar do planeta" pelas forças armadas dos Estados Unidos e dos seus aliados subordinados da OTAN é, em última instância, o único meio pelo qual os monopólios imperialistas da Tríade podem continuar o seu domínio sobre os povos, nações e estados do Sul.
Ante este desafio da guerra declarada pelos monopólios, quais são as alternativas que se propõem?
Primeira resposta: "regulação dos mercados" (financeiros e doutros tipos)
Esta regulação é uma iniciativa que os monopólios e os governos reivindicam. Contudo, isto é só retórica vazia, desenhada para confundir a opinião pública. Estas iniciativas não podem parar a desenfreada corrida pelo lucro financeiro, resultado da lógica de acumulação controlada pelos monopólios. São, portanto, uma falsa alternativa.
Segunda resposta: um retorno aos modelos da pós-guerra
Estas respostas alimentam uma tripla saudai: (i) a reconstrução de uma verdadeira "social-democracia" na Europa ocidental, (ii) a resurrecção de "socialismos" baseados nos princípios que governaram o século XX, (iii) o retorno a fórmulas de nacionalismo popular na periferia do Sul. Estas saudades imaginam que é possível obrigar a retroceder o capitalismo monopólico, forçando-o a regressar ao que era em 1945. Mas a história nunca permite tais retornos ao passado. O capitalismo deve ser confrontado tal e como hoje é, não como nós desejáríamos que fosse, imaginando um bloqueio na sua evolução. Contudo, estes desejos continuam atormentando uma boa parte da esquerda global.
Terceira resposta: a procura de um consenso "humanista"
Eu defino este piedoso desejo do seguinte modo: a ilusão de que um consenso entre interesses em conflito pode ser possível. Alguns ingénuos movimentos ecologistas, entre outros, partilham esta ilusão.
Quarta resposta: as ilusões do passado
Estas ilusões invocam "a especificidade" e "o direito à diferença" sem se preocuparem com compreender o seu alcance e significado. O passado já nos respondeu as perguntas do futuro. Estes "culturalismos" podem adotar várias formas étnicas ou para-religiosas. Teocracias e etnocracias convertem-se em convenientes substitutos das lutas sociais democráticas que viram esvaziada a sua agenda.
Quinta resposta: a prioridade da "liberdade pessoal"
A gama de respostas baseadas nesta prioridade, considerada o "valor supremo", incluem entre as suas fileiras os retrógrados defensores da "democracia eleitoral representativa", que equiparam com a democracia em si mesma. A fórmula separa a democratização das sociedades do progresso social, tolerando mesmo uma associação de fato com a regressão social com tal de não pôr em risco e desacreditar a democracia, reduzida agora ao status de uma trágica farsa.
Mas há variações desta posição até mais perigosas. Refiro-me aqui a alguns típicos "pós-modernos" atuais (como Toni Negri em particular) que imaginam que o indivíduo se converteu já no protagonista da história, coma se o comunismo, que permite o indivíduo de se emancipar da alienação e se converter em protagonista da história, já tivesse sido instaurado.
Está claro que todas as respostas anteriores, incluindo aquelas de direita (como as "regulações" que não afetam a propriedade privada dos monopólios) ainda encontram poderosos ecos numa maioria das pessoas de esquerda.
6. A guerra declarada pelo generalizado capitalismo monopólico do imperialismo contemporâneo não tem nada que temer das falsas alternativas que acabo de perfilar.
E então, o que fazermos?
Este momento oferece-nos a oportunidade histórica de irmos bem mais longe; reclama-nos como única e efetiva resposta uma audaz e atrevida radicalização na formulação de alternativas capazes de mobilizar trabalhadores e povos para se situar à ofensiva e se defender da estratégia de guerra dos seus inimigos. Estas formulações, baseadas na análise do capitalismo atualmente existente, devem enfrentar diretamente o futuro a ser construído, e tirar da saudade do passado e das ilusões da identidade ou o consenso.
Programas audazes para uma esquerda radical
Vou organizar as seguintes formulações sob três ideias centrais: (i) a socialização da propriedade dos monopólios, (ii) a des-financeirização da economia, (iii) a des-globalização das relações internacionais.
Socialização da propriedade dos monopólios
A efetividade da resposta alternativa requer necessariamente do questionamento do princípio da propriedade privada do monopólio do capital. A proposta de "regular" as operações financeiras, o retorno dos mercados à "transparência" para permitir que as expectativas dos "agentes" se convertam em "racionais" e definam os termos de um consenso destas reformas sem abolir a propriedade privada dos monopólios não é mais que uma clara tentativa de confundir uma sociedade ingénua. Os monopólios são chamados a "gerir" reformas contra os seus próprios interesses, ignorando-se o fato de os monopólios manterem mil e um modos de contornar os objetivos destas reformas.
O projeto social alternativo deveria reverter a direção da atual ordem social (desordem social) produzido pelas estratégias dos monopólios, com o propósito de fornecer emprego pleno e estável, garantindo salários decentes ao mesmo tempo que gera a produtividade do labor social. Este objetivo é simplesmente impossível sem a expropriação do poder dos monopólios.
O "software dos teóricos da economia" deve ser reconstruído (em palavras de François Morin) assim como a absurda e impossível teoria económica de que as "expetativas" promovem a democracia porque permitem um maior controle na tomada de decisões económicas. A audácia neste momento requer de reformas radicais na educação para a formação não só de economistas, mas também daqueles chamados a ocupar cargos de gestão.
Os monopólios são corpos institucionais que devem ser geridos consoante os princípios da democracia, em conflito direto com quem santifica a propriedade privada. Apesar de que o termo "bens", importado da palavra anglossaxónica, é em si mesmo ambíguo porque está desligado do debate sobre o significado dos conflitos sociais (a linguagem anglosaxona ignora deliberadamente a realidade das classes sociais), o termo aqui pode ser utilizado especificamente para denominar os monopólios como parte dos "bens".
A abolição da propriedade privada dos monopólios deve ter lugar através da sua nacionalização. Este primeiro passo legal é inevitável. Mas a audácia implica neste ponto ir mais ali deste passo legal para propor a socialização da gestão dos monopólios nacionalizados e a promoção das lutas sociais democráticas articuladas neste processo.
Darei um exemplo concreto que poderia incluir nestes planos de socialização.
Tanto os proprietários de terra "capitalistas" (aqueles dos países desenvolvidos) como os proprietários "camponeses" (principalmente do Sul) são prisioneiros tanto dos monopólios que fornecem inputs[1] e créditos, como aqueles de que dependem do processo de transporte e comercialização dos seus produtos. Mas nenhum dos dois grupos tem autonomia real na tomada de decisões. A isto soma-se que a produtividade alcançada é apropriada pelos monopólios que reduzem os produtores ao status de "subempreiteiras". Face a isto, qual é a alternativa possível?
Os monopólios deveriam ser substituídos por instituições públicas que trabalhem dentro de um âmbito legal como parte da sua forma de governar. Estas instituições deveriam ser constituídas por representantes de: (i) camponeses (os principais interessados), (ii) unidades ascendentes (manufatura de inputs, bancos) e descendentes (indústria alimentar, correntes comerciais), (iii) consumidores, (iv) autoridades locais comprometidas com o meio ambiente e a sociedade (escolas, hospitais, planeamento urbano, habitação, transporte), (v) o Estado (os cidadãos). Estes representantes deveriam ser selecionados de acordo a procedimentos correspondentes ao seu próprio modo de gestão social, por exemplo unidades de produção de inputs geridas por conselhos de administração conformados por trabalhadores diretamente empregados pelas unidades concernentes assim como pelos que estão empregues por unidades de subcontratação. Estas estruturas deveriam estar desenhadas de tal modo que associem a gestão do pessoal com cada um destes níveis, assim como com centros de investigação que busquem uma investigação independente, e tecnologia apropriada. Poderíamos mesmo conceber uma representação dos fornecedores de capital ("pequenos acionistas") herdados da nacionalização, se o considerarmos útil.
Estamos falando, portanto, de aproximações institucionais que são mais complexas que as reformas de autogestão ou cooperativas conhecidas até o momento. É necessário inventar os caminhos deste processo de tal modo que promovam o exercício de uma democracia verdadeira no manejo da economia, exercício baseado em negociações abertas entre todos as partes interessadas. Requer-se uma formula que vincule sistematicamente a democratização da sociedade com o progresso social, em contraste com a realidade do capitalismo que disocia a democracia, reduzindo à gestão formal da política, com as condições sociais abandonadas ao "comprado" dominado pelo que produz o monopólio do capital. Aí e só aí poderemos falar de uma verdadeira transparência dos mercados, quando estes forem regulados sob formas institucionalizadas de gestão socializada.
O exemplo pode parecer marginal nos países capitalistas desenvolvidos, devido a que os pequenos proprietários de terra e camponeses são só uma pequena proporção dos trabalhadores (3-7%). Porém, este tema é central para o Sul, onde a população rural seguirá sendo significativa por algum tempo. Aqui, o acesso à terra, que deve ser garantido para todos (com a maior equidade possível na sua distribuição) é fundamental para avançar na agricultura camponesa. Esta "agricultura camponesa" não deve ser percebida como sinónimo de agricultura estática" ou "tradicional e folclórica". O progresso necessário da agricultura camponesa implica uma certa "modernização" (apesar de que este termo é pouco apropriado devido a que imediatamente sugere modernização através do capitalismo). Mais inputs efetivos, créditos, e cadeias de produção e distribuição são necessárias para impulsionar a produtividade do trabalho camponês. As fórmulas propostas aqui têm por objectivo avançar na modernização sob formas e orientadas por um espírito "não-capitalista", quer dizer, com um horizonte socialista.
Obviamente, o exemplo específico escolhido aqui neste artigo é um dos que necessita ser institucionalizado. A nacionalização / socialização da gestão dos monopólios nos setores da indústria e o transporte, bancos e outras instituições financeiras, devem ser imaginadas com o mesmo espírito, tomando as especificidades das suas próprias economias e funções sociais na constituição dos seus conselhos de administração. Como já se assinalou, estes conselhos devem incluir os trabalhadores da companhia, assim como os subempreiteiros, representantes das indústrias, bancos, institutos de investigação, consumidores e cidadãos.
A nacionalização/ socialização dos monopólios assinalam-nos uma necessidade fundamental como eixo central do desafio que devem encarar os trabalhadores e povos sob um capitalismo contemporâneo de monopólios generalizados. Este é o único caminho para deter a acumulação por despossessão a que nos está levando o controle da economia por parte dos monopólios.
A acumulação dominada pelos monopólios pode ser de fato reproduzida somente se a área sujeita à "gestão do mercado" está em constante expansão. Isto é possível pela excessiva privatização dos serviços públicos (despossessão dos cidadãos), e o acesso a recursos naturais (despossessão dos povos). A extração dos lucros das unidades económicas "independentes" por parte dos monopólios é também uma despossessão (entre capitalistas!) da oligarquia financeira.
Des-financeirização: um mundo sem Wall Street
A nacionalização / socialização dos monopólios deveria abolir o princípio de valor das acções imposto pela estratégia de acumulação ao serviço da renda monopólica. O objetivo é essencial para qualquer agenda que queira escapar do anquilosamento sob o qual nos tem presos a atual gestão da economia. O desenvolvimento de um processo de nacionalização transtorna a financeirização da gestão da economia. Mas estaríamos regressando à famosa "eutanásia da renda" carimbada por Keynes na sua época. Não necessariamente, e com certeza não completamente. Pode fomentar-se a poupança, mas com a condição de que a sua origem (poupanças dos trabalhadores, negócios, comunidades) e as condições dos lucros sejam bem definidas. O discurso da poupança macroeconómica na teoria económica convencional oculta a pretensão do acesso exclusivo ao comprado de capital por parte dos monopólios. O tão telefonema "lucro gerado pelo mercado" não é outra coisa que o meio para garantir o crescimento da renda monopólica.
É claro que a nacionalização / socialização dos monopólios também se pode utilizar para os bancos, no mínimo para os maiores. Mas a socialização da sua intervenção ("políticas de crédito") tem características específicas que requerem de mais precisão na constituição dos seus conselhos de administração. A nacionalização no sentido mais clássico refere-se unicamente à substituição de conselhos de administração conformados por accionistas privados por outros definidos pelo Estado. Isto permitiria, em princípio, a implementação de políticas de crédito formuladas a partir do Estado, o qual não é pouco. Mas não é suficiente se consideramos que a socialização requer da participação de acionistas sociais relevantes na gestão do banco. Aqui a gestão dos bancos pelos seus próprios trabalhadores não seria o mais apropriado. O pessoal atingido deve ser incorporado nas decisões sobre as suas próprias condições laborais, mas pouco mais, devido a que não lhe corresponde determinar as políticas de crédito que devem ser desenvolvidas.
Se os conselhos de administração devem lidar com o conflito de interesses entre os que prove empréstitos (os bancos) e aqueles que os recebem (as "empresas"), a fórmula para a composição dos conselhos de administração deve ser desenhada tomando em conta quais são estas empresas e que é o que necessitam. Necessitamos uma restruturação do sistema bancário, sistema que se converteu em algo excessivamente centralizado desde que os quadros regulatorios dos últimos dois séculos foram abandonados nas últimas quatro décadas. Este é um argumento forte que justifica a reconstrução da especialização bancária em função dos requirimentos dos beneficiários dos créditos, assim como da sua própria função económica (provisão de liquidez no curto prazo, contribuir para o financiamento de investimentos no meio e longo prazo). Deveríamos então, por exemplo, criar um "banco agrícola" (ou um conjunto coordenado de bancos agrícolas) que incluiria entre os seus clientes não só pequenos proprietários de terra e camponeses, mas também todos os envolvidos nas diferentes entidades da agricultura descritas acima. O conselho de administração do banco poderia incorporar por uma parte os "bancários" (pessoal do banco, os que foram recrutados pelo conselho de administração) e outros clientes (pequenos proprietários de terra ou camponeses, e outras entidades).
Podemos imaginar também outros tipos de sistemas articulados de bancos, adequados para diferentes sectores industriais, onde os conselhos de administração poderiam incluir clientes industriais, assim como centros de investigação, tecnologia e serviços, para assegurar o controlo do impacto ecológico da indústria, e deste modo garantir o mínimo risco (reconhecendo está claro que nenhuma acção humana está completamente livre de riscos), e vinculá-lo a um debate transparente e democrático.
A des-financeirização da gestão económica requer assim mesmo de dois tipos de legislação. A primeira referente à autoridade de um Estado soberano para proibir que fundos especulativos (fundos de cobertura) operem no seu próprio território. A segunda é a referida aos fundos de pensões, os quais se converteram atualmente nos maiores operadores na financeirização do sistema económico. Estes fundos foram designados, nos Estados Unidos em primeiro lugar, com certeza, para transferir aos trabalhadores os riscos normalmente assumidos pelo capital, e que constituem as razões às quais se costuma apelar para justificar a remuneração do capital. Isto constitui uma vigarice escandalosa, em clara contradição mesmo com a defesa ideológica do capitalismo! Mas esta "invenção" é um instrumento ideal para as estratégias de acumulação dominadas pelos monopólios.
A abolição dos fundos de pensões é necessária para beneficio de sistemas redistributivos de pensões, os quais, pela sua própria natureza, requerem de um debate democrático para determinar as quantidades e períodos de contributo assim como a relação entre as quantidades das pensões e os pagamentos. Numa democracia que respeita direitos sociais, os sistemas de pensões são universalmente acessíveis para todos os trabalhadores.
Todas as medidas de des-financeirização sugeridas aqui levam-nos a uma conclusão óbvia: Um mundo sem Wall Street, pegando o título de um livro de François Morin, é possível e desejável.
Em um mundo sem Wall Street, a economia está ainda controlada pelo mercado. Mas, pela primeira vez, estes mercados são verdadeiramente transparentes, regulados por uma negociação democrática entre atores sociais genuínos (atores que pela primeira vez já não são adversários, como ocorre sob o capitalismo). É o "mercado" financeiro, opacado pela natureza e o caráter dos requirimentos da gestão para os lucros dos monopólios, que desaparece. Poderíamos mesmo explorar se é útil ou não terminar com o intercâmbio de ações, uma vez que o direito à propriedade (tanto na sua forma privada como social) seria gerido doutro modo. O simbolismo em qualquer caso -um mundo sem Wall Street- conserva todo o seu poder.
Des-financeirização não significa em qualquer caso a abolição da política macroeconómica e em particular a gestão macro do crédito. Ao invés, restaura a sua eficiência ao libertando-a da subjugação a estratégias que buscam a maximização das rendas dos monopólios. A restauração dos poderes dos bancos centrais nacionais, já não mais "independentes", mas dependentes tanto do Estado como dos mercados e regulados pela negociação democrática entre os acionistas sociais, atribuem-nos a formulação de uma política macro de crédito capaz de permitir uma gestão social da economia.
No nível internacional: desconexão
Neste ponto vou utilizar o termo "desconexão" que propus faz meio século, um conceito que o discurso contemporâneo aparentemente substituiu pelo sinónimo "des-globalização". Nunca conceitualizei desconexão como uma forma autárquica de refúgio, mas como uma mudança estratégica relativmente tanto às forças internas como externas em resposta aos requirimentos inevitáveis do desenvolvimento autodeterminado. A desconexão promove a reconstrução de uma globalização baseada na negociação, no quanto de uma subordinação aos interesses exclusivos dos monopólios imperialistas. A desconexão faz também possível a redução das desigualdades internacionais.
A desconexão é necessária porque, sem esta, as medidas definidas nas duas seções prévias deste artigo não poderão ser nunca implementadas em escala global, nem sequer no nível regional (por exemplo, na Europa). Estas medidas unicamente poderão começar a se realizar no contexto dos estados / nações a partir de lutas sociais e políticas, comprometidas com um processo de socialização da gestão da sua economia.
O imperialismo, sob a forma que adotou até justo depois da Segunda Guerra Mundial, gerou um forte contraste entre centros imperialistas industrializados e periferias dominadas, onde a indústria foi proibida. As vitórias dos movimentos de libertação nacional iniciaram o processo de industrialização das periferias, mediante o desenvolvimento de políticas de desconexão necessárias para alcançar o desenvolvimento endógeno. Associadas com reformas sociais, que para aqueles tempos eram reformas radicais, estas desconexões criaram as condições para um eventual "surgimento" dos países que mais longe chegaram nessa direcção, obviamente com China à frente deste bloco de países.
Mas o imperialismo do actual momento histórico, o imperialismo da Tríade, está forçado a renegociar e "ajustar-se" às condições deste novo momento, e portanto a reconstruir-se sobre novas bases, baseadas em vantagens" mediante as quais busca se manter o privilégio da exclusividade que classifiquei em cinco categorias. Estas referem ao controle de:
· tecnologia
· acesso a recursos naturais do planeta
· integração global dos sistemas monetários e financeiros
· sistemas de comunicação e informação
· armas de destruição maciça.
Atualmente, a principal forma de desconexão é aquela definida precisamente por estes cinco privilégios do imperialismo contemporâneo. Os países emergentes estão destinados à desconexão destes cinco privilégios, com diferentes graus de controle e autodeterminação. Enquanto o sucesso rápido nas passadas duas décadas de desconexão permitiu a aceleração do seu desenvolvimento, em particular através do desenvolvimento industrial dentro do sistema "liberal" globalizado, quer dizer, "capitalista", este sucesso alimentou a desilusão sobre a possibilidade de continuar por este caminho, quer dizer, emergindo como os novos "sócios capitalistas de igual nível". O intuito de "cooptar" os mais prestigiosos destes países mediante a criação do G20 fomentou estas ilusões.
Mas com a atual implosão do sistema imperialista (chamado globalização"), estas ilusões devem esvair-se. O conflito entre os poderes imperialistas da Tríade e os países emergentes já é visível, e espera-se que piore. Se quiserem avançar, as sociedades dos países emergentes ver-se-ão forçadas a avançar para modelos de desenvolvimento autossuficientes, mediante planos nacionais e através do fortalecemento da cooperação Sul-Sul.
A audácia, nestas circunstâncias, inclui um compromisso fundo e coerente até o fim, que vincule as medidas requeridas de desconexão com os avanços desejados no progresso social.
O objetivo desta radicalização implica: a democratização da sociedade; o consequente progresso social associado; e a tomada de posições anti-imperialistas. Um compromisso nesta direção é possível, não só para as sociedades dos países emergentes, como também para os "abandonados" ou os "invisibilizados" do Sul global. Estes países foram recolonizados através dos programas de ajuste estrutural dos anos 80. Os seus povos estão actualmente mobilizados, e ou bem alcançaram algumas vitórias (em América do Sul) ou não o alcançaram ainda (no mundo árabe).
Audácia significa que a esquerda radical destas sociedades deve ter a coragem necessária para medir os desafios que enfrenta e apoiar a seguir e radicalização das necessárias lutas atualmente em marcha.
A desconexão do Sul prepara o caminho para a deconstrução do próprio sistema imperialista. Isto é especificamente óbvio claro em áreas afetadas pela gestão do sistema monetário e financeiro global, resultado da hegemonia do dólar.
Mas atenção: é uma ilusão esperar que a este sistema o substitua "um outro mundo monetário e um outro sistema financeiro", que seja mais equilibrado e favorável para o desenvolvimento das periferias. Como costuma acontecer, a procura de um "consenso" baseado na reconstrução internacional e produzido a partir de cima, é um simples desejo à espera de que ocorra um milagre. O que está na agenda agora é a deconstrução do sistema existente -a sua própria implosão- e a reconstrução de sistemas nacionais alternativos (para países, continentes ou regiões), algo que já começou a suceder na América do Sul. Audácia é ter a coragem de avançar com a maior determinação possível, sem se preocupar demasiado com como vá reagir o imperialismo.
A mesma questão da desconexão é igualmente importante para a Europa, que é uma espécie de subescenario de globalização dominado por monopólios. O projecto europeu foi desenhado desde fora e construído sistematicamente para despojar a gente da sua capacidade para exercer o seu poder democrático. A União Européia foi estabelecida como um protectorado dos monopólios. Com a implosión da zona euro, a subordinação ao ganho dos monopólios significou a abolição da democracia, que foi reduzida ao status de farsa e que adopta formas extremas, concentrando-se só na pergunta: como o "mercado" (ou seja os monopólios) e as "agências de qualificação de riscos" (quer dizer, de novo os monopólios) reagem. Actualmente esse é o único assunto formulado. Já não é um tema a ser considerado o como a gente reage.
Está claro que nem aqui nem ali existe uma alternativa à audácia: é necessário "desobedecer" as regras impostas pela "Constituição Européia" e o ficticio Banco Central Europeu. Por outras palavras, não existe outra alternativa que deconstruír as instituições europeias e a zona euro. Este é a pré-condição indeclinável para a eventual reconstrução de "uma outra Europa" de povos e nações.
Em conclusão: Audácia, mais audácia, sempre audácia.
Em definitivo isto é o que quero dizer com audácia:
(i) Para a esquerda radical das sociedades da Tríade imperialista, a necessidade de um compromisso para construir um bloco social anti monopólico.
(ii) Para a esquerda radical das sociedades da periferia, o compromisso de construir um bloco social alternativo anti-comprador.
Vai levar tempo avançar na construção destes blocos, mas poder-se-ia dar uma aceleração se a esquerda radical se mover com determinação e se comprometer em avançar pelo longo caminho para o socialismo. É contudo necessário propor estratégias não para "sair da crise do capitalismo" mas para "sair do capitalismo em crise", como diz o título de um dos meus recentes trabalhos.
Estamos num período crucial da história. A única legitimidade do capitalismo é criar as condições para transitar para o socialismo, o qual deve ser entendido como uma fase mais avançada da civilização. O capitalismo é já um sistema obsoleto, a sua continuidade só pode levar-nos à barbarie. Não é possível outro capitalismo. A possibilidade de um choque de civilizações é, como sempre, incerto. Ou a esquerda radical triunfa mediante a audacia das suas próprias iniciativas para elaborar avanços revolucionários, ou a contrarrevolução ganhará.
Todas as estratégias da esquerda não radical não são de fato estratégias, mas tão só ajustes conjunturais aos altos e baixos de um sistema que está implodindo. E se o poder que se quer, como Il Gatopardo, é o de "mudar todo para que nada mude", e se os candidatos da esquerda acham que é possível "mudar a vida sem tocar o poder dos monopólios", a esquerda não radical não deterá a vitória da barbárie do capitalismo. Já perderam a batalha por não querer enfrentá-lo.
Audácia é o que faz falta para provocar o Outono do capitalismo, Outono que será anunciado pela implosão do próprio sistema e pelo nascimento de uma autêntica Primavera dos povos, uma Primavera possível.
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[1] Sobre os inputs: "Começa-se considerando, por razões de simplificação, que se produz um só bem (ou serviço) por uma empresa e que para produzi-lo é necessário uma série de elementos denominados fatores de produção (também podem ser denominados insumos ou inputs). O bem ou serviço produzido recebe o nome de output. A função que relacionaria as quantidades da quantidade de fatores produtivos utilizados com o output obtido recebe o nome de função de produção. Os inputs utilizados seriam as matérias primas, produtos intermédios (comprados a outra empresa ou obtidos noutro processo de produção da mesma empresa), o trabalho humano usado, os fornecimentos de energia, água e similares, o custo de repor o capital utilizado, maquinaria, ferramentas), já que sofre desgaste pelo uso no processo de fabrico. Uma simplificação frequente é reduzir a dois os factores: capital e trabalho. Trabalho representaria o trabalho humano, capital o resto". in http://és.wikipedia.org/wiki/Microeconom%C3%ADa
Referências:
Samir Amin, Sortir de la crise du capitalisme ou sortir du capitalisme en crise ; Le temps des cerises, 2009.
Samir Amin, Ending the crisis of capitalism or ending capitalism. Pambazuka Press 2011
Samir Amin, Du capitalisme á la civilisation ; Syllepse, 2008.
Aurélien Bernier, Désobéissons á l'Union Européenne ; Les mille et une nuits, 2011.
Jacques Nikonoff, Sortir de l'euro ; Mes mille et une nuits, 2011.
François Morin, Un monde sans Wall Street ; Le seuil, 2011.
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"Obama eleva as apostas militares: Confrontação nas fronteiras com a China e a Rússia"
por James Petras
Depois de sofrer grandes derrotas militares e políticas em campos de batalha sangrentos no Afeganistão e no Iraque, de fracassar no apoio a antigos clientes no Iémen, Egipto e Tunísia e de testemunhar a desintegração de regimes fantoches na Somália e no Sudão do Sul, o regime nada aprendeu: Ao invés disso ele voltou-se rumo a maior confrontação militar com potências globais, nomeadamente a Rússia e a China. Obama adoptou uma estratégia provocativa de ofensiva militar junto às fronteiras tanto da China como da Rússia.
Depois de andar de derrota em derrota na periferia do poder mundial e não satisfeito em incorrer em défices que arruínam o tesouro na ânsia de construir um império contra países economicamente fracos, Obama abraçou uma política de cerco e provocação contra a China, a segunda maior economia do mundo e o mais importante credor dos EUA, e a Rússia, o principal fornecedor de petróleo e gás da União Europeia e a segunda mais poderosa potência do mundo em armamento nuclear.
Este documento trata da escalada altamente irracional e ameaçadora de militarismo imperial do regime Obama. Examinamos o contexto militar global, económico e político interno que motivam estas políticas. Examinamos então os múltiplos pontos de conflito e intervenção nos quais Washington está empenhada, desde o Paquistão, Irão, Líbia, Venezuela, Cuba e para além disso. Analisaremos a seguir a lógica para a escalada militar contra a Rússia e a China como parte de uma nova ofensiva que vai além do mundo árabe (Síria, Líbia) e frente à posição económica declinante da UE e dos EUA na economia global. Depois disso esboçaremos as estratégias de um império declinante, criado em guerras perpétuas, confrontando declínio económico global, descrédito interno e uma população trabalhadora a cambalear desde o desmantelamento em grande escala dos seus programas sociais básicos.
A viragem do militarismo: Da periferia para a confrontação militar global
Novembro de 2011 é um momento de grande importância histórica: Obama declarou duas importantes posições políticas, tendo ambas tremendas consequências estratégicas que afectam potências mundiais competidoras.
Obama decidiu uma política de cerco militar da China com base no estacionamento de uma armada marítima e aérea frente à costa chinesa – uma política destinada abertamente a enfraquecer e perturbar o acesso da China a matérias-primas e ligações comerciais e financeiras na Ásia. A declaração de Obama de que a Ásia é a região prioritária para a expansão militar dos EUA, a construção de bases e alianças económicas foi dirigida contra a China, desafiando Pequim nas suas próprias traseiras. O punho de ferro da declaração política de Obama, pronunciada perante o Parlamento australiano, foi clara como cristal na definição dos objectivos imperiais estado-unidenses.
"Nossos interesses duradouros na região [Ásia Pacífico] exigem nossa presença duradoura nesta região... Os Estados Unidos são uma potência do Pacífico e estamos aqui para permanecer ... Quando finalizamos as guerras de hoje [i.é, as derrotas e retiradas do Iraque e do Afeganistão]... dirigi minha equipe de segurança nacional para que assegure uma prioridade principal à nossa presença e missões na Ásia Pacífico ... Em consequência, a redução nos gastos de defesa dos EUA não será ... às expensas da Ásia Pacífico". (CNN.com, 16/Nov/2011).
A natureza precisa do que Obama chamou de "a nossa presença e missão" foi sublinhada pelo novo acordo militar com a Austrália para despachar navios e aviões de guerra e 2500 fuzileiros navais para a cidade mais a Norte da Austrália (Darwin) destinados à China. A secretária de Estado Clinton passou a maior parte de 2011 a fazer sondagens altamente provocatórias junto a países asiáticos que têm conflitos de fronteira marítima com a China. Clinton introduziu vigorosamente os EU nestas disputas, encorajando e exacerbando as exigências do Vietname, Filipinas e Brunei no Mar do Sul da China. Ainda mais gravemente, Washington está a promover seus laços militares e de vendas com o Japão, Formosa, Singapura e Coreia do Sul, bem como a aumentar a presença de navios de guerra, submarinos nucleares e sobrevoos de aviões de guerra ao longo das águas costeiras da China. Na linha da política de cerco militar e provocação, o regime Obama-Clinton está a promover acordos comerciais multilaterais que excluem a China e privilegiam corporações multinacionais dos EUA, bem como seus banqueiros e exportadores, baptizado como "Partenariado Transpacífico" ("Trans-Pacific Partnership"). Este inclui principalmente países mais pequenos, mas Obama tem a esperança de convencer o Japão e o Canadá a aderirem ...
A presença de Obama na reunião da APEC de líderes asiáticos e sua visita à Indonésia em Novembro de 2011 envolvem esforços para assegurar hegemonia estado-unidense. Obama-Clinton esperam contrariar o declínio relativo das ligações económicas estado-unidenses face ao crescimento geométrico dos laços de comércio e investimento entre a Ásia Oriental e a China.
Um exemplo recente dos esforços ilusórios, mas destrutivos, de Obama-Clinton para deliberadamente perturbar os laços económicos da China na Ásia está a ter lugar em Myanmar (Birmânia). A visita de Clinton em Dezembro de 2011 a Myanmar foi antecedida por uma decisão do regime Thein Sein de suspender um projecto de barragem no Norte do país financiado pela China Power Investment. Segundo documentos oficiais confidenciais divulgados pela WikiLeaks as "ONGs birmanesas que organizaram e conduziram a campanha contra a barragem foram fortemente financiadas pelo governo dos EUA" ( Financial Times, 02/Dez/2011, p. 2). Isto e outras actividades provocatórias e discursos de Clinton condenando "ajuda ligada" chinesa desvanecem-se em comparação aos interesses em grande escala que ligam Myanmar à China. A China é o maior parceiro comercial e investidor de Myanmar, incluindo seis outros projectos de barragens. Companhias chinesas estão a construir novas auto-estradas e linhas ferroviárias através do país, abrindo o Sudoeste da China a produtos birmaneses e a China está a construir oleodutos e portos. Há uma poderosa dinâmica de interesses económicos mútuos que não será perturbada por uma disputa ( FT, 02/Dez/2011, p.2). A crítica de Clinton dos investimentos da China, de milhares de milhões de dólares, na infraestrutura de Myanmar é um dos mais bizarros da história mundial, vindo na sequência dos oito anos de presença militar brutal de Washington no Iraque a qual destruiu US$500 mil milhões de infraestrutura iraquiana, segundo estimativas oficiais de Bagdad. Só uma administração iludida poderia imaginar que umas flores de retórica, uma visita de três dias e o financiamento de uma ONG são um contra-peso adequado aos profundos laços económicos que ligam Myanmar à China. O mesmo posicionamento ilusório acompanha todo o repertório de políticas que informam os esforços do regime Obama para deslocar o papel predominante da China na Ásia.
Se bem que a política adoptada pelo regime Obama não apresente, em si mesma, uma ameaça imediata à paz, o impacto acumulado de todos estes pronunciamentos políticos e projecções de poder militar desenvolvem-se como um esforço abrangente total para isolar, intimida e degradar a ascensão da China como uma potência regional e global. O cerco militar e as alianças, a exclusão da China nas associações económicas regionais propostas, a intervenção com tomada de partido em disputas marítimas regionais e o posicionamento de aviões de guerra tecnologicamente avançados, estão destinados a minar a competitividade da China e a compensar a inferioridade económica dos EUA através de redes políticas e económicas fechadas.
Os movimentos militares e económicos da Casa Branca e a demagogia anti-chinesa no Congresso dos EUA são claramente destinados a enfraquecer a posição comercial da China e a obrigar seus líderes voltados para os negócios a privilegiarem interesses da banca e dos negócios dos EUA além das suas próprias empresas. Levada aos seus limites, a prioridade de Obama à grande pressão militar poderia levar a uma ruptura catastrófica nas relações económicas EUA-China. Isto resultaria em consequências calamitosas, especialmente mas não exclusivamente, na economia dos EUA e particularmente no seu sistema financeiro. A China possui mais de US$1,5 milhão de milhões de dólares em dívida americana, principalmente Títulos do Tesouro, e compra a cada ano de US$200 a US$300 mil milhões de novas emissões, uma fonte vital no financiamento do défice dos EUA. Se Obama provocar uma ameaça grave aos interesses da segurança China e Pequim for forçada a responder, a retaliação não será militar mas sim económica: a liquidação de umas poucas centenas de milhares de milhões de títulos do tesouro e a redução de novas compras de dívida estado-unidense. O défice dos EUA disparará, suas classificações de crédito descerão para a categoria "lixo" e o sistema financeiro tremerá à beira do colapso. As taxas de juro para atrair novos compradores de dívida dos EUA aproximar-se-ão dos dois dígitos. As exportações chinesas para os EUA sofrerão e verificar-se-ão perdas devido à desvalorização dos Títulos do Tesouro em mãos chinesas. A China diversificou seus mercados por todo o mundo e o seu enorme mercado provavelmente poderia absorver a maior parte do que a China perdesse no exterior no caso de um recuo do mercado estado-unidense.
Enquanto Obama vaga pelo Pacífico a anunciar suas ameaças militares à China e se esforça para isolar economicamente a China do resto da Ásia, a presença económica dos EUA está a desvanecer-se rapidamente do que costumava ser o seu "quintal". Citando um jornalista do Financial Times: "A China é o único espectáculo para a América Latina" ( Financial Times, 23/Nov/2011, p.6). A China deslocou os EUA e a UE com principal parceiro comercial da América Latina; Pequim despejou milhares de milhões em novos investimentos e proporciona empréstimos com juros baixos.
O comércio da China com a Índia, Indonésia, Japão, Paquistão e Vietname está a aumentar a uma taxa muito mais rápida do que a dos EUA. O esforço estado-unidense para construir uma aliança de segurança na Ásia centrada no império baseia-se em fundamentos económicos frágeis. Mesmo a Austrália, a âncora e fulcro do ímpeto militar dos EUA na Ásia, está pesadamente dependente de exportações minerais para a China. Qualquer interrupção militar remeteria a economia australiana para um mergulho.
A economia dos EUA não está em condições de substituir a China como mercado para exportações de mercadorias asiáticas ou da Austrália. Os países asiáticos devem estar agudamente conscientes de que não há vantagem futura em ligarem-se a um império, altamente militarizado, em declínio. Obama e Clinton enganam-se a si próprios se pensam que podem atrair a Ásia para uma aliança a longo prazo. Os asiáticos estão simplesmente a utilizar as aberturas amistosas do regime Obama como um "dispositivo táctico", um truque negocial, para conseguirem melhores termos para assegurar fronteiras marítimas e territoriais com a China.
Washington está iludida se acredita que pode convencer a Ásia a romper laços económicos lucrativos a longo prazo e de grande escala com a China a fim de aderir a uma associação económica exclusiva com tão dúbias perspectivas. Qualquer "reorientação" da Ásia, desde a China até os EUA, exigiria mais do que a presença de força naval e aerotransportada apontada para a China. Exigiria a reestruturação tal das economias dos países asiáticos, da estrutura de classe e da elite militar. Os mais poderosos grupos empresariais da Ásia têm profundas e crescentes ligações com a China/Hong Kong, especialmente entre as dinâmicas elites de negócios transnacionais chinesas na região. Uma viragem em direcção a Washington implica uma contra-revolução maciça, que substitua "compradores" coloniais por empresários estabelecidos. Quando muito alguns oficiais militares asiáticos treinados nos EUA, economistas e antigos financeiros da Wall Street e bilionários podem procurar "equilibrar" uma presença militar estado-unidense com poder económico chinês, mas eles devem perceber que em última análise a vantagem está em desenvolver uma solução asiática.
A era dos "capitalistas compradores" asiáticos, desejosos de liquidar a indústria nacional e a soberania em troca de acesso privilegiado a mercados dos EUA, é história antiga. Qualquer que seja o ilimitado entusiasmo por consumismo de luxo e estilos de vida ocidentais, os quais os novos ricos da Ásia e da China celebram descuidadamente, qualquer que seja a aceitação das desigualdades e da exploração capitalista selvagem do trabalho, há o reconhecimento de que a história passada da dominação estado-unidense e europeia impediu o crescimento e o enriquecimento de uma burguesia e classe média indígenas. Os discursos e pronunciamentos de Obama e Clinton exalam nostalgia por um passado de supervisores neocoloniais e compradores colaboracionistas – uma ilusão tola. Suas tentativas de realismo político assumem uma feição bizarra ao imaginarem que posicionamentos militares e projecções de força armada reduzirão a China a um actor marginal na região.
A escalada da confrontação de Obama em relação à Rússia
O regime Obama lançou uma grande investida militar frontal sobre as fronteiras da Rússia. Os EUA avançaram sítios de mísseis e bases da Força Aérea na Polónia, Roménia, Turquia, Espanha, República Checa e Bulgária: complexos de mísseis anti-aéreos Patriot PAC-3 na Polónia; radar avançado AN/PPY-2 na Turquia e vários mísseis (SM-3 IA) embarcados em navios de guerra na Espanha estão entre as armas mais importantes que cercam a Rússia, a maior apenas a minutos do seu alvo estratégico. Em segundo lugar, o regime Obama fez um enorme esforço para assegurar e expandir bases militares dos EUA na Ásia Central entre antigas repúblicas soviéticas. Em terceiro, Washington, através da NATO, lançou grandes operações económicas e militares contra os principais parceiros comerciais da Rússia na África do Norte e Médio Oriente. A guerra da NATO contra a Líbia, que derrubou o regime Kadafi, paralisou ou anulou investimentos russos de milhares de milhões de dólares em petróleo e gás, vendas de armas e substituiu o antigo regime amigo da Rússia por um fantoche da NATO.
As sanções económicas ONU-NATO e a actividade terrorista clandestina EUA-Israel contra o Irão minaram o lucrativo comércio nuclear da Rússia, de milhares de milhões de dólares, e empreendimentos petrolíferos conjuntos. A NATO, incluindo a Turquia, apoiada pelas ditaduras monárquicas do Golfo, impuseram duras sanções e financiaram assaltos terroristas à Síria, o último aliado remanescente da Rússia na região e onde ela tem a sua única instalação naval (Tartus) no Mar Mediterrâneo. A anterior colaboração da Rússia com a NATO enfraquecendo a sua própria posição económica e de segurança é produto da monumental má interpretação da NATO e especialmente das políticas imperiais de Obama. O presidente russo Medvedev e seu antigo ministro dos Estrangeiros, Sergey Lavrov, assumiram erradamente (tal como Gorbachev e Yeltsin antes deles) que apoiar políticas da NATO contra parceiros comerciais da Rússia resultaria em alguma espécie de "reciprocidade". o desmantelamento americano da sua ofensiva "missile shield" nas suas fronteiras e apoio para a admissão da Rússia na Organização Mundial do Comércio. Medvedev, seguindo suas liberais ilusões pró ocidentais, entrou na linha e apoiou sanções estado-unidenses-israelenses contra o Irão, acreditando nos contos de um "programa de armas nucleares". A seguir Lavrov entrou na linha da NATO de "zonas de interdição de voo para proteger vidas de civis líbios" e votou a favor, só com um "protesto" delicado, demasiado tardio, de que a NATO estava a "exceder o seu mandato" ao bombardear a Líbia, regredi-la à Idade Média e instalar um regime fantoche pró NATO de patifes e fundamentalistas. Finalmente, quando os EUA apontaram um punhal ao coração da Rússia, fazendo um enorme esforço para instalar sítios de lançamento de mísseis a 5 minutos de Moscovo ao mesmo tempo que organizava assaltos armados à Síria, a dupla Medvedev-Lavrov acordou do seu estupor e opôs-se a sanções da ONU. Medvedev ameaçou abandonar o tratado de redução de mísseis nucleares (START) e colocar mísseis de médio alcance a 5 minutos de Berlim, Paris e Londres.
A política de consolidação e cooperação de Medvedev-Lavrov, baseada na retórica de Obama de "redefinição de relações" ("resetting relations") encoraja a agressiva construção do império: Cada capitulação levava a uma nova agressão. Em consequência, a Rússia está cercada por mísseis na sua fronteira ocidental; ela sofreu perdas entre os seus principais parceiros comerciais no Médio Oriente e enfrenta bases dos EUA no Sudoeste e na Ásia Central.
Tardiamente responsáveis russos mexeram-se para substituir o iludido Medvedev pelo realista Putin, como presidente seguinte. Esta mudança para uma política realista previsivelmente provocou uma onda de hostilidade a Putin em todos os media ocidentais. A agressiva política de Obama para isolar a Rússia através da minagem de regimes independentes não afectou, contudo, o status da Rússia como potência com armas nucleares. Ela apenas aumentou tensões na Europa e talvez tenha encerrado qualquer oportunidade futura de redução pacífica de armas nucleares ou esforços para assegurar um consenso no Conselho de Segurança da ONU sobre questões de resolução pacífica de conflitos. Washington, sob Obama-Clinton, transformou a Rússia de um cliente acomodatício num grande adversário.
Putin encara o aprofundamento e expansão de laços com o Leste, nomeadmente a China, face às ameaças do Ocidente. A combinação de tecnologia de armas avançadas e recursos energéticos russos e de dinâmica manufactureira e crescimento industrial chinês são mais do que suficientes para as economias infestadas de crise dos EUA e da UE a chafurdarem na estagnação.
A confrontação militar de Obama contra a Rússia prejudicará muito acesso da mesma a matérias-primas e impedirá definitivamente qualquer acordo estratégico de segurança a longo prazo, o qual seria útil para reduzir o défice e reviver a economia estado-unidense.
Entre realismo e ilusão: O realinhamento estratégico de Obama
O reconhecimento de Obama de que o centro presente e futuro da política e do poder económico está a mover-se inexoravelmente para a Ásia foi um lampejo de realismo político. Depois de durante uma década despejar centenas de milhares de milhões de dólares em aventuras militares nas margens e na periferia da política mundial, Washington finalmente descobriu que não é o lugar onde o destino das nações, especialmente as Grandes Potências, será decidido, excepto num sentido negativo – de sangria recursos sobre causas perdidas. O novo realismo e prioridades de Obama aparentemente estão centrados no Sudeste e Nordeste da Ásia, onde economias dinâmicas florescem, mercados estão em crescimento a uma taxa com dois dígitos, investidores preparam dezenas de milhares de milhões de actividade produtiva e o comércio expande-se três vezes mais do que o dos EUA e da UE.
Mas o "Novo realismo" de Obama é destruído por suposições totalmente ilusórias, as quais minam quaisquer esforços sérios para realinhar a política dos EUA.
Em primeiro lugar, o esforço de Obama para "entrar" na Ásia é através de uma acumulação de meios militares e não através de um aperfeiçoamento e melhoria da competitividade económica estado-unidense. O que é que os EUA produzem para os países asiáticos que promova sua fatia de mercado? Além de armas, aviões e agricultura, os EUA têm poucas indústrias competitivas. Os EUA teriam de reorientar amplamente sua economia, melhorar o trabalho qualificado e transferir milhares de milhões da "segurança" e do militarismo para a aplicação de inovações. Mas Obama trabalha dentro do actual complexo financeiro militarista-sionista. Ele não conhece qualquer outro e é incapaz de romper com ele.
Em segundo lugar, Obama-Clinton operam sob a ilusão de que os EUA podem excluir a China ou minimizar o seu papel na Ásia, uma política que é enfraquecida pelo investimento enorme e crescente, e a presença, de todas as grandes corporações multinacionais dos EUA na China, as quais utilizam-na como uma plataforma de exportação para a Ásia e o resto do mundo.
A acumulação militar dos EUA e a sua política de intimidação forçarão a China a reduzir o seu papel como credor que financia a dívida estado-unidense, uma política que a China pode realizar porque o mercado dos EUA, se bem que ainda importante, está em declínio, pois a China expande a sua presença no seu mercado interno e nos da Ásia, América Latina e Europa.
O que antes parecia ser Novo realismo revela-se agora ser a reciclagem de Velhas ilusões. A noção de que os EUA podem voltar a ser a Potência suprema no Pacífico era do pós Segunda Guerra Mundial. As tentativas dos EUA sob Obama-Clinton para retornar à dominação do Pacífico, com uma economia avariada, com o fardo de uma economia super-militarizada e com grandes desvantagens estratégicas: Ao longo da última década a política externa dos Estados Unidos esteve nas mãos da quinta coluna de Israel (o "lobby" israelense). Toda a classe política estado-unidense é destituída de senso comum, prático e projecto nacional. Eles estão imersos em debates trogloditas sobre "detenções indefinidas" e "expulsões em massa de imigrantes". Pior: estão todos nas folhas de pagamento de corporações privadas que vendem nos EUA e investem na China.
Por que Obama renunciaria a guerras custosas na periferia não lucrativa e a seguir promoveria a mesma metafísica militar no centro dinâmico do universo económico mundial? Será que Barack Obama e seus conselheiros acreditam que ele é o Segundo Advento do Almirante Perry, cujos navios de guerra no século XIX através de bloqueios obrigaram a Ásia a abrir-se ao comércio ocidental? Acreditará ele que alianças militares serão a primeira etapa para um período subsequente de presença económica privilegiada?
Acreditará Obama que o seu regime pode bloquear a China, tal como Washington fez com o Japão nos dias que precederam a Segunda Guerra Mundial? É demasiado tarde. A China é muito mais central para a economia do mundo, demasiado vital mesmo para o financiamento da dívida dos EUA, demasiado soldada às corporações multinacionais do Forbes 500. Provocar a China, mesmo fantasiar acerca da "exclusão" económica para deitar abaixo a China, é perseguir políticas que abalarão totalmente a economia mundial, em primeiro lugar e acima de tudo a economia dos EUA!
Conclusão
O "realismo de pacotilha" de Obama, sua comutação das guerra no mundo muçulmano para a confrontação militar na Ásia, não tem valor intrínseco e coloca custos extrínsecos extraordinários. Os métodos militares e os objectivos económicos são totalmente incompatíveis e para além da capacidade dos EUA, como estão actualmente constituídos. As políticas de Washington não "enfraquecerão" a Rússia ou a China, muito menos a intimidarão. Ao invés disso, irá encorajar ambos a adoptarem posições mais adversas, tornando menos provável que ajudem as guerras sequenciais de Obama em proveito de Israel. A Rússia já enviou navios de guerra ao seu porto na Síria, recusou-se a apoiar um embargo de armas contra a Síria e o Irão e (em retrospectiva) criticou a guerra da NATO contra a Líbia. A China e a Rússia têm demasiados laços estratégicos com a economia do mundo para sofrerem quaisquer grandes perdas de uma série de postos avançados militares dos EUA e de alianças "exclusivas". A Rússia pode apontar tantos mísseis nucleares para o ocidente quanto os EUA podem montá-los nas suas bases na Europa do Leste.
Por outras palavras, a escalada militar de Obama não mudará o equilíbrio de poder nuclear, mas levará a Rússia e a China para uma relação mais estreita e aliança mais profunda. Ultrapassados estão os dias da estratégia "divida e conquista" de Kissinger-Nixon contrapondo acordos comerciais EUA-China contra armas russas. Washington exagerou totalmente a significância das actuais querelas marítimas entre a China e seus vizinhos. O que os une em termos económicos é muito mais importante no médio e longo prazo. As ligações económicas asiáticas da China desgastarão quaisquer ténues ligações militares aos EUA.
O "realismo de pacotilha" de Obama vê o mercado mundial através de lentes militares. A arrogância militar em relação à Ásia levou à ruptura com o Paquistão, seu regime cliente mais dócil na Ásia. A NATO deliberadamente chacinou 24 soldados paquistaneses e esfregou-os no nariz dos generais paquistaneses, ao passo que a China e a Rússia condenaram o ataque e ganharam influência.
No final das contas, o posicionamento militar e excludente da China fracassará. Washington exagerou a sua mão e afugentou da sua anterior orientação para os negócios os parceiros asiáticos, os quais só querem utilizar a presença militar dos EUA para ganharem vantagem económica táctica. Eles certamente não querem uma nova "Guerra fria" instigada pelos EUA que divida e enfraqueça o dinâmico comércio e investimento intra-asiático. Obama e os seus apaniguados aprenderão rapidamente que os actuais líderes da Ásia não têm aliados permanentes – apenas interesses permanentes. Na análise final, a China apresenta-se de forma destacada na configuração de uma nova economia mundial centro-asiáticas. Washington pode afirmar ter uma "presença permanente no Pacífico" mas até que demonstre que pode cuidar do seu "negócio básico em casa", como reparar as suas próprias finanças e equilibrar seus défices de transacções correntes, o comando naval dos EUA pode acabar por arrendar suas instalações marítimas a exportadores transportadores asiáticos, que transportam bens para eles, e protegendo-os perseguindo piratas, contrabandistas e narco-traficantes.
Se chegar a pensar acerca disto, Obama pode reduzir o défice comercial dos EUA com a Ásia pelo arrendamento da Sétima Frota a fim de patrulhar estreitos, ao invés de desperdiçar o dinheiro do contribuinte estado-unidense a intimidar potências económicas asiáticas.
[Artigo tirado do sitio web português ‘Resistir.info’, do 19 de dezembro de 2011]
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“O galego está a morrer; se nom se abrir à naçom irmá, que pode sustentá-lo, nom vai ficar em nada”
Entrevista completa ao galeguista Isaac Dias Pardo publicada polo Novas da Galiza em 2008, e posteriormente publicada na íntegra no PGL.
Meses depois da publicaçom de Tentando Construir uma Esfinge de Pedra, reproduzimos a entrevista completa realizada ao autor polo jornal reintegracionista no número de Fevereiro, umha vez que nesta publicaçom foi avançada umha versom resumida da mesma. Sempre interessantes, as declaraçons do polígrafo galego voltam a surpreender pola sua dimensom e sinceridade, reflexo de umha personalidade insubornável.
Sole Rei - Após toda umha vida de trabalho em prol da cultura da Galiza, nos últimos meses Isaac Díaz Pardo tem saltado às páginas de todos os jornais devido ao conflito desatado no seio da empresa que ele próprio fundou e que agora lhe vira as costas: Sargadelos.
Os apoios e os reconhecimentos polo caminho andado nom tardaram a chegar-lhe de todos os cantos da Galiza, por meio de artigos, abaixo-assinados, concentraçons e mesmo fóruns de informaçom e debate.
Na mesma tarde em que devia ir recolher a Medalha de Ouro da cidade de Compostela, como reconhecimento ao trabalho do Museu do Povo Galego, que também preside, e na semana em que colectivos de ideologia espanholista começaram mobilizaçons polos direitos dos castelhano-falantes e contra iniciativas como a implantaçom nas escolas de 50% de cadeiras em galego, o Novas da Galiza foi conversar com este homem, que já tratou figuras como Castelao, Seoane ou Branco Amor, sobre o futuro idiomático do País.
Em Setembro Edicións do Castro publicou Tentando construir uma esfinge de pedra e, para além de outras consideraçons chama a atençom a normativa escolhida para a escrita do livro. Quais som os motivos para essa aposta no reintegracionismo lingüístico?
Eu vou para os 88 anos, e sempre fum um pouco reintegracionista. E bom, estas cousas, afinal… pois és reintegracionista. Creio que é o meu dever moral fazê-lo assim. Acho que para a Galiza, Portugal ficou com a nossa língua, e devíamos, cria-o também Castelao, voltar outra vez a nos integrarmos.
Nom a isso que se di lusista, a falar em português… nom. Porque os portugueses também teriam que reintegrar muito, teriam que reintegrar muito porque tenhem muita influência do castelhano, do francês, de muitas cousas. Mas nós, sobretodo, temos que familiarizar-nos com o Norte de Portugal. E isso é mais importante do ponto de vista económico que já do da lingüística.
Mas ademais, se o galego está a morrer, se nom se abre à naçom irmá que pode sustentá-lo, que pode continuar, pois nom vai ficar em nada. Ficará como umha língua clássica, como o latim, que se estudará nas universidades, umha língua litúrgica, e mais nada. Nós estamos a ver que a gente cada vez fala menos galego. E as empresas geralmente nom som galegas, entom a gente procura um trabalho numha empresa e, se falarem castelhano, fala castelhano.
Esta é a cousa. Entom eu cuido que haveria que fechar a porta a Castela; refiro-me às instituiçons da língua como a Academia Galega… Eu levo-me mui bem com os da Academia Galega, porque umha cousa nom tem a ver com a outra: umha cousa é o que pense eu como ideal e outra cousa é o que me vejo obrigado a fazer para conviver. E creio que a Academia Galega fai moi bem em todas as cousas, menos na da língua galega.
Pois pouco mérito lhe concedemos entom…
(risos) Porque, claro, abre as portas de Castela, tem abertas as portas de Castela e tem fechadas as do reintegracionismo. E claro, todos os demais que tenhem interesses por ali, pois vam por onde lhes convém, compreende? As instituçons autonómicas fam o mesmo. O Instituto da Língua, também o mesmo. Como se costuma dizer: ‘Onde vás Vicente? Onde vai a gente.’
O facto de publicar em reintegrado é ir um pouco contra a Academia, contra as instituçons e contra o Instituto da Língua…
Polo menos é deixar umha nota aí. Claro que os da Academia me porám verde, e os outros também… Mas, total, dentro de pouco, eu muitos mais anos nom vou viver. Entom, aí fica isso. Este desgraçado deixou-nos isto! Bom, que se lhe vai fazer!
Historicamente as elites culturais ligadas ao galeguismo tenhem estado mais conscientes da importáncia do reintegracionismo; falava há um momento de Castelao, e como ele outros muitos…
Mas Castelao foi esquecido. Fam-lhe umhas estatuas, fam-lhe algumhas cousas… mas o que realmente queria fazer Castelao, isso nom o fam.
E se antigamente existia essa consciência da existência de um tronco comum do galego e do português, em Castelao e noutra gente do seu tempo, qual crê que tenhem sido as mudanças que levárom as elites culturais actuais a defenderem este afastamento?
Em todo se vê que há umha acomodaçom às cousas. Por exemplo, o facto de chamar ao Governo galego ‘Junta’ é um erro. Aos reaccionários interessava chamar-lhe Junta por seguir umha tradiçom que havia.
As Juntas eram os inimigos da Galiza, porque as Juntas nom eram mais do que a representaçom das sete cidades que havia, com dous procuradores por cada cidade: a única funçom que cumpriam era a de arrecadar dinheiro e levas de homens para as guerras. Esta era a funçom que cumpriam as Juntas, e isso era negativo para a Galiza.
Mas claro, aos espanholistas, aos espanholeiros, interessava-lhes continuar com isso. E claro, os políticos, os galeguistas de agora, e os nom galeguistas, fôrom acomodando-se. Assim é.
Falta-nos valor?
E que lhe havemos de fazer? As cousas som assim, e claro, umha pessoa tampouco pode fazer umha revoluçom…
Mas pensa entom que talvez falte um pouco de espírito crítico entre a intelectualidade, o professorado…
Sim, claro. Mas aconteceram muitas cousas. Há que dar-se conta de que o franquismo durou quarenta anos. E umha pessoa passa quarenta anos em Inglaterra e vem falando inglês, ainda que nom queira. E se tem filhos também falam inglês, claro.
Depois está a transiçom que houvo em Espanha. Na Europa varreram o fascismo nazi por todos os lados, e em Portugal a revoluçom dos Cravos varreu também com o salazarismo, mas aqui houvo que transigir. Aqui nom se passou nada. Todos ficaram no seu sítio. Os franquistas ficaram e ficam ainda. Compreende?
E nom digamos na justiça; aí nom se moveu nem um pelo. Os juízes que estivérom a nos perseguir a todos, continuárom a perseguir depois. Isto é assim. E que se lhe vai fazer? Quanto ao idioma, eu digo à Marisol, que me levo mui bem com ela: ‘esta é umha grande mulher que está a fazer todo o possível para o galego morrer, para que fique bem enterrado.’ Ela ri.
Sabia que Marisol López recusou ao Novas da Galiza, enquanto publicaçom em galego, a possibilidade de receber subsídios pola normativa empregada?
Ai é? Ah, claro! Já se sabe, claro. Concedem cousas só a quem convém. Mas som-che assim as cousas, eu nom tenho nada que fazer-lhe. Eu só digo o que há.
Cada ano que passa a Galiza perde maior número de galego-falantes, e nos últimos tempos, estamos mesmo a assistir a umha radicalizaçom das posturas por parte dos espanhol-falantes, que dim sentirem-se agredidos pola língua galega. Pensa que umha aposta no reintegracionismo poderia ajudar a incrementar outra vez o número de galego-falantes?
Bastaria simplesmente com que fechassem a porta do castelhano e abrissem a porta do português. E que deixassem avançar as cousas. Ademais, a Galiza e o norte de Portugal formam umha regiom económica que tinha que ter mais comunicaçom nesse terreno.
Algo se irá fazendo, eu creio que algo se irá fazendo, porque parece ser que há bastante gente da Galiza que vai trabalhar a Portugal, e gente de Portugal que vem trabalhar à Galiza. Se nalgumha circunstáncia determinada isso melhorar, pode haver algumha reacçom.
Entom, talvez fosse precisa umha mudança na orientaçom da política económica, tentar rentabilizar mais a relaçom com Portugal, segundo isso que me di…
Claro. É que, ademais, do ponto de vista económico, por exemplo nas editoriais, teria sido umha grande cousa que se pudessem publicar livros reintegrados, chegando-nos a Portugal, porque abriríamos o mercado.
O mercado da Galiza é um mercado mui pequeno, e as pessoas nom lem. A gente nom lê porque nom está ainda preparada. É um mercado mui pequeno o do livro galego. Entom, o que estamos a fazer é amorear livros nos stocks.
Se nom chegamos a três milhons de pessoas, e ademais esses dous milhons e meio nom lem… somos moi poucos. Eu nom digo que nom haja alguém que leia, mas som mui poucos. No entanto, se nos abríssemos a Portugal haveria 200 milhons de pessoas, e outros possíveis sectores.
Na justificaçom de Tentando Construir uma Esfinge de Pedra di que “os tempos têm mudado no vestuário das cousas, mas os problemas dos homes seguem a ser os mesmos”. Quais esses problemas?
Aqui referia-me aos problemas vitais do homem, a problemas como procurar umha saída à existência, que nom tem saída. As gentes andam à procura de Deus e nom o encontram nengures, porque nom há deus que o encontre, claro.
Para além disso, o drama é que nom temos capacidade para entendermos as cousas; e ponho o exemplo de como nom podemos compreender o infinito. Ninguém pode compreender o infinito. Porque o finito é o que finaliza aqui, porque o infinito é o que nom termina em nengumha parte.
Entom, está visto que se o homem e a mulher dam com que o seu conhecimento nom lhe serve para entender sequer essas cousas, quer dizer que nom entendemos nada, que estamos a sonhar, verdadeiramente.
O livrinho todo é umha metáfora. Porque afinal a esfinge quarteia toda (ri). De nada serve que um esteja a trabalhar, que esteja a dar-lhe voltas, que afinal quarteia toda.
Ao longo da sua vida presenciou momentos mui diversos, e alguns mui duros…
Essa é umha história enorme. Somos mui poucos os que ficamos. Somos Paco del Riego, Avelino Pousa Antelo e eu. Quando morrermos os três que estivemos a luitar pola autonomia da Galiza no ano 1936, nom ficará ninguém dessa geraçom. Acabou o testemunho daquela época.
Tivo um papel activo naqueles anos, que valor lhe concede à recuperaçom da memória histórica, e que opiniom lhe merece a maneira em que está a ser encarada na actualidade?
Bom, nós nom figemos mais do que recuperar memória histórica. O que figemos na América, com essa gente que estava ali, essa dúzia de intelectuais, Luís Seoane, Lourenço Varela, Rafael Dieste, Branco Amor, Lois Tobio... enfim, toda esta gente importante, e verdadeiramente todos perguntavam: se algum dia podemos voltar à Galiza, que convém fazer? O que convém fazer é recuperar a memória, porque nos desbarataram muitas cousas: o Seminário de Estudos Galegos, o Movimento renovador da arte galega...
Enfim, destruíram-nos todo, a desfeita do ano 36 foi tremenda e havia que recuperar; e recuperar para que a gente soubesse que foi o que aqui aconteceu. Claro, a memória estivo proibida durante 40 anos. Ninguém podia recuperá-la, ninguém podia dizer: vamos investigar a quem matárom. Nom havia forma.
E nom se trata de recuperá-la de forma revanchista, de querer vingar-se; nom, nada disso. Simplesmente é que a memória há que recuperá-la; senom, vivemos na ignoráncia, se construímos um castelo sem tê-lo apoiado, sem raízes, esse castelo vem abaixo.
Eu e Luís Seoane figemos umha instituiçom que era o Laboratório de Formas, para recuperar memória histórica ao voltarmos aqui. Tratava-se de fazer instituiçons que recuperassem essa memória. Claro, temos muitos inimigos por isso (ri). Porque há muitos que continuam sem querer que se recupere a memória.
Em Edicións do Castro temos umha série que se chama Documentos que está integramente destinada a recuperar a memória, e passa já das 200 publicaçons. E claro, muitos nom gostam de que se recuperem os tempos aqueles. Nom só os que viveram aquela época, tampouco os filhos. E nom há, nom está feito com nengumha intençom de revanchismo, de nengumha maneira.
Pensa que se sentem acusados por este tipo de iniciativas?
Sim. Eu defendim Dionísio Pereira na imprensa quando o levaram perante os tribunais. Em todas as famílias houvo de todo, de um lado e do outro, porque estava mui dividido o País.
É um erro querer recuperar agora a dignidade do meu bisavô se nom se portou bem. Homem, pois que lhe vamos fazer... Mas nom querem falar disso, começando por esse senhor do PP, o Rajoy. A memória histórica para ele é má, já se sabe!
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O galego e o português
Por Isaac Díaz Pardo (*)
Camilo Nogueira, que sabe da história da Galiza como o que mais sabe, falou no Parlamento Europeu em português, e a alguém nom lhe pareceu bem. Se tivesse falado em francês ou em inglês, se calhar, esse alguém nom se zangaria.
Camilo tem a opçom de utilizar algum dos idiomas dos estados da Uniom Europeia, entre os quais se encontram o castelhano e o português, e escolhe, por afinidade lógica, o português, que é filho do galego, enquanto que o castelhano é um irmão da nossa fala de nom confiar e que tem agentes inconscientes metidos nela.
O português é um idioma espanhol. Camões sentia-se orgulhoso de ser espanhol. Francisco Grandão pede a João IV que recuse a Filipe IV o título de Rei de Espanha porque já se desuniu Portugal, que é parte principal de Espanha. E Almeida Garret dirá: “Espanhois somos e de espanhois devemos prezarmo-nos, mas de castelhanos não”. E Castelão acrescentava: “Os galegos anelamos viver com Castela dentro dum mesmo Estado, mas, isso sim, reclamamos .../... uma máxima soberania”.
Esse receio que há entre galego e castelhano dasapareceria no momento em que o nacionalismo mesetário, que resultou ser o mais intransigente, reconhecesse que a Espanha é um Estado plurinacional.
É certo que o galego leva nove séculos (926 anos) sem amparo legal, perdido com o último rei que teve a Galiza, tempo em que o castelhano malhou todo o que pôde, face ao catalám, que perdeu o amparo legal há 285 anos, o que permitiu aos catalães uma restauraçom mais rápida e melhor.
Desde finais do século XIV o galego conhece-se como língua poética, mas no século XIII, ao mesmo tempo que o castelhano, passou a empregar-se como língua jurídica. A independência política da Galiza bracarense, por motivos familiares e certos privilégios e preeminências lidados nos campos de batalha, nom rompeu a unidade linguístico-cultural das duas Galizas, que perdurou inalterável até o século XVI, em que Portugal se consolidava como Estado na aventura transatlântica do seu império.
Se nom nos aproximarmos a Portugal em todos os campos da comunicaçom, da indústria e do comércio, no século XXI, no qual entraremos o 1 de Janeiro do ano 2001 (e nom, como se está a programar, para o 1 de Janeiro do ano 2000), no século XXI, digo, o galego ficará como uma língua litúrgica, que só se falará nos laboratórios de filologia universitária.
Há poucos dias dizia a uns cultos professores de Caldas da Rainha que tinham que aceitar que o português é galego, mas o galego nom é português, o que aceitarom como pessoas inteligentes e informadas, razom esta pola qual o Camilo Nogueira fala no Parlamento Europeu numa língua mais vinculada a nós que o castelhano.
A quem vive do erário público estas cousas nom o preocupam, e no melhor dos casos podem suspeitar que com a sua transigência nom estám a fazer bem, mas a correcçom deixam-na para manhã. Ainda há que estudar muita história.
Falava há poucos dias o empresário e economista Enrique Sáez que a grande obra da Galiza era o ser mãe dum idioma que hoje falam 200 milhões de almas, campo a que teremos que nos achegarmos para nom desaparecer como galegos. Os que produzem livros sabem que aqui somos poucos e quase nom lemos. E assim nom vamos a nenhures. Isto recorda-me a Valentim Paz Andrade, que vivia também a intempérie da protecçom pública, quem pensava e trabalhava dum jeito parecido.
(*) [Capítulo 8 do livro organizado por Isaac Alonso Estraviz (Coord.), Isaac Díaz Pardo e a língua: Homenagem da AGAL, Associaçom Galega da Língua (AGAL), Ourense 2008. Publicado antes em La Voz de Galicia de 3 de outubro de 1999 (com o título «Inconformismo no fim de século»)].
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2011: crise capitalista e novo cenário no Oriente Médio
por Emir Sader
O cenário geral que englobou a todo o ano de 2011 foi o novo ciclo da crise geral do capitalismo, iniciado em 2008. Pelo tipo de medidas tomadas naquele momento, era de se esperar que houvesse um novo brote da crise, mesmo se não se pudesse imaginar uma intensidade tão forte como aquela que afeta especialmente a economia europeia.
Ao ter salvado os bancos, detonante e epicentro da crise, os governos acreditavam que salvariam as economias e os países. Os bancos se salvaram e deixaram as economias e os países abandonados. Até porque os bancos tem a seu favor os organismos financeiros internacionais e as agências de risco, que agem de forma coerente e coordenada.
Por isso a crise voltou como bumerangue, tendo agora diretamente os governos como epicentros, pressionados pelo sistema bancário e pelos organismos que expressam seus interesses – FMI, Banco Central Europeu. Depois de bancos e outras instituições financeiras, em 2008, agora países passaram a falir, tendo a Grécia como caso paradigmático, que estende sua sombra sobre quase todos os países da zona do euro.
A unificação monetária – que foi a essência da unificação europeia, a ponto que os referendos perguntavam diretamente se queriam a moeda única e não a Europa unificada – se revelou uma armadilha, tanto para os países mais fragilizados, que na ausência de políticas monetárias nacionais, não tiveram formas de se defender minimamente da crise, como os países em melhores condições, que tiveram que acudir a eles, sob o risco de desabamento de toda a arquitetura do euro, levando-os também de roldão.
As respostas se deram no marco das políticas neoliberais dominantes, combatendo centralmente os déficits públicos e não os efeitos econômicos e sociais dessas políticas: a recessão e o desemprego. Como é típico do neoliberalismo, a centralidade está na estabilidade monetária e não no desenvolvimento econômico e na geração de empregos.
Como resultado, a maior novidade do 2011 é que a Europa ingressou de cheio numa fase recessiva, que deve demorar pelo menos uma década e que, dramaticamente, termina com seu Estado de bem-estar social, característico de suas sociedades no segundo pós-guerra. Os outros países do centro do capitalismo – EUA, Inglaterra, Japão – se defendem minimamente, por ter politicas monetárias nacionais, mas estão envolvidos na mesma tendência, que abrange a totalidade dos países centrais do capitalismo.
Essa a consequência mais importante do que ocorreu em 2011: projeção de recessão prolongada no centro do capitalismo, que será o cenário econômico internacional. Não significa que não haja oscilações, mas sempre entre recessão, estagnação e crescimento baixo, com os problemas sociais correspondentes e a instabilidade política de governos de turno que pagarão sempre o preço das politicas recessivas.
No outro plano estrutural – o da hegemonia imperial no mundo – o ano trouxe a novidade da guerra da Líbia, como nova modalidade de intervenção imperial. Tomada de surpresa pelas rebeliões populares na Tunisia e no Egito, que derrubaram alguns de seus aliados fundamentais na região, a reação das potencias ocidentais foi buscar revidar com o apoio maciço, especialmente militar, à oposição na Líbia, que contou com o beneplácito da ONU – com sua cínica decisão de “proteção da populações civis”- e a intervenção militar pesada da Otan, que bombardeou o pais durante mais de 6 meses, contando com o protagonismo da Inglaterra, da França e da Italia e o apoio logístico dos EUA, até obter o que buscava: a queda do regime de Kadafi e sua morte. Foi uma nova modalidade de intervenção, numa região que passa a ter instabilidades politicas prolongadas.
Renovou-se assim o arsenal de formas de intervenção das potências imperialistas, que se voltam agora para a Síria e o Irã, enquanto a saída das tropas dos EUA do Iraque não prenunciam o fim dos conflitos, transferindo-os agora para a disputa de hegemonia entre as facções internas. A violência só aumentou, o que passa também no Afeganistão, o que faz com que, depois do sucesso da derrubada dos regimes desses dois países, a uma vitória militar os EUA nao tenham conseguido impor uma vitória politica.
A chamada “primavera árabe” trouxe um elemento novo na região, que estava congelada de participação popular e, de repente, viu multidões ocuparem praças para derrubar ditaduras. O movimento, que começou neste ano, ainda deve ter longos desdobramentos, porque as ditaduras bloquearam o surgimento de forças alternativas durante décadas e nas eleições tendem a triunfar aquelas que tinham espaço, mesmo se restringido, nos velhos regimes: partidos e movimentos islâmicos. Mas os processos em países como a Tunísia e o Egito estão longe de terminar, como demonstra o novo ímpeto das mobilizações no Egito, agora diretamente contra o papel que os militares tentam manter na transição politica.
O ano de 2011 acentuou a natureza prolongada e profunda da atual crise capitalista, porém os modelos alternativos ao neoliberalismo ainda tem existências regionais – como o caso da América Latina e, de forma distinta, a China. Da mesma forma, as debilidades da hegemonia imperial norteamericana – não consegue manter e ganhar duas guerras ao mesmo tempo, por exemplo – não encontra ainda formas multipolares com capacidade suficiente para superar o mundo unipolar existente. Assim, se prolongará o período de instabilidades e turbulências que a crise do neoliberalismo e do imperialismo introduziram, até que forças com capacidade de superação possas se afirmar. Passos têm sido dados e a própria capacidade de resistência do Sul do mundo – em especial da América Latina e da China – à recessão no centro do capitalismo demonstram isso. Mas a disputa hegemônica ainda tende a prolongar por um tempo longo.
O certo é que o mundo sairá distinto desta segunda década do século XXI – melhor ou pior -, mas distinto, porque os sintomas de esgotamento dos seus esquemas econômicos e políticos dominantes são evidentes.
[Artigo tirado do sitio web brasileiro ‘Agência Carta Maior’, do 26 de decembro de 2011]
Eric Hobsbawn: "Fez-me lembrar 1848..."
[Entrevista a Andrew Whitehead, BBC World Service News]
Londres, 23 de dezembro de 2011.
Eric Hobsbawm assistiu às revoltas de 2011 com entusiasmo – e diz que, hoje, quem move as ondas populares é a classe média, não os trabalhadores. “Foi imensa alegria ver, mais uma vez, que o povo pode ir às ruas, manifestar-se e derrubar governos” – diz EJ Hobsbawm, no apagar das luzes de um ano de levantes populares no mundo árabe.
Hobsbawm viveu toda sua longa vida à sombra – ou à luz – de revoluções. Nascido alguns meses antes da Revolução Russa de 1917, foi comunista durante praticamente toda sua vida adulta – além de pensador e escritor inovador e influente. Foi historiador de revoluções e várias vezes militou a favor de mudanças revolucionárias.
Já chegado aos 95 anos, a paixão política sempre viva reflete-se no título de seu livro mais recente Como mudar o mundo[1][São Paulo: Companhia das Letras, 2011] – e no ativo interesse pelos levantes populares no mundo árabe.
“Não há dúvidas de que me sinto entusiasmado e aliviado” – diz ele, em conversa em sua casa no norte de Londres, bem próxima de Hampstead Heath, casa de paredes cheias de livros de História em várias línguas, e sobre jazz.
“Se alguma revolução ainda é possível, terá de ser mais ou menos como o que estamos vendo. Pelo menos nos primeiros tempos. Gente saindo às ruas para manifestar-se a favor das coisas certas.” Mas logo acrescenta: “Sabemos que não vai durar.”
O historiador que há nele logo vê um paralelo entre a ‘Primavera Árabe’ de 2011 e o “ano das revoluções” na Europa há quase dois séculos, quando um levante na França foi logo seguido por outros nos estados italianos e germânicos, no Império dos Habsburgos e em outros pontos.
Democracias árabes?
“Fez-me lembrar 1848” – diz ele –, “outra revolução surgida num país que depois, em pouco tempo, se espalhou por todo o continente.”
Para os que encheram a Praça Tahrir e hoje se preocupam com o futuro de sua revolução, Hobsbawm tem uma palavra de conforto.
“Dois anos depois de 1848, tudo parecia mostrar que a revolução fracassara. No longo prazo, viu-se que não fracassou. Houve muitos avanços progressistas. Aquela revolução fracassou, se analisada no calor da hora; mas, foi vitoriosa, pelo menos parcialmente, vista de mais longe. Embora, depois, já não sob forma de revolução.”
Seja como for, exceto talvez no caso da Tunísia, Hobsbawm vê pouca probabilidade de haver democracias liberais representativas, de estilo europeu, no mundo árabe. Tem-se dado pouca atenção, diz ele, às diferenças entre os países árabes nos quais tem havido manifestações de massa: “Estamos no meio de uma revolução – mas não é a mesma revoluções em todos os lugares”.
“Todas são parecidas, porque há em todas um mesmo descontentamento, e as forças mobilizáveis são semelhantes – uma classe média em modernização, sobretudo os estudantes jovens dessa classe média e, evidentemente, a tecnologia que torna hoje muito mais fácil mobilizar os que se queiram manifestar.”
Para Hobsbawm, as mídias sociais começaram a ter alguma significação para os movimentos globais, na campanha de eleição do presidente Obama nos EUA, que conseguiu mobilizar amplas fatias da população, até então politicamente inativas, através da Internet.
Para ele, “as atuais ocupações, na maioria dos casos, não são protestos de massa, os 99% não estão nas ruas, mas lá está o sempre mobilizável famoso “exército de palco”[2] de estudantes e militantes da contracultura. Algumas vezes, encontram eco na opinião pública, como se vê claramente nas ocupações anti-Wall Street e anticapitalistas.”
Mas, em todo o mundo, a esquerda da qual Hobsbawm fez parte – como militante, cronista e, pelo menos como intenção, modernizador – está hoje à margem dos protestos de massa e das ocupações.
“A esquerda tradicional foi gerada num tipo de sociedade que já não existe, ou está saindo de cena. Aquela esquerda acreditava no movimento trabalhista de massa como agente que criaria o futuro. Hoje, o trabalho mudou – e fomos desindustrializados – e aquele projeto daquela esquerda deixou de ser viável.”
“Hoje, as mobilizações de massa mais efetivas brotam sobretudo de uma classe média modernizada de um corpo de estudantes imensamente inchado. São mais efetivas nos países nos quais, demograficamente, a população jovem, homens e mulheres, são fatia maior da população, do que o que se vê na Europa.”
Eric Hobsbawm não espera que as revoluções árabes tenham alcance maior no resto do mundo, não, pelo menos, como semente de revolução mais ampla. O mais provável, diz ele, é que os reformadores árabes sejam postos de lado por grupos islamistas, como já aconteceu no Irã.
Segundo ele, deve-se esperar, isso sim, um movimento gradual de reformas, como já se viu nos anos 1980s, quando, por exemplo, na Coreia do Sul, os movimentos jovens e de classe média, obtiveram algumas conquistas contra o poder dos militares [mas, no resto do mundo, a única reforma que se viu foram os muitos movimentos jovens e de classe média, serem cooptados pelo neoliberalismo mais selvagem, como se viu na Argentina e no Brasil, por exemplo (NTs)].
Uma revolução em idioma político do Islã: o Irã, 1979
Quanto aos dramas políticos que ainda se desenrolam nos países de língua árabe, Hobsbawm chama a atenção para o caso do Irã, em 1979, onde, embora se fale língua persa, aconteceu a primeira revolução concebida no idioma político do Islã. Para ele, um aspecto daquela revolução, pelo menos, encontrou eco nas revoluções do mundo muçulmano nos últimos meses:
“As pessoas que fizeram concessões ao Islã, mas não eram, elas próprias religiosas islâmicas, foram marginalizadas – por exemplo, os reformistas liberais e os reformistas comunistas. O que está emergindo como ideologia das massas árabes, não é a ideologia dos que iniciaram as manifestações.”
Embora os levantes árabes o tenham enchido de alegria (até de “alívio”), Hobsbawm vê esse aspecto como “desenvolvimento não previsto e não necessariamente bem-vindo”.
(A entrevista está no ar, em inglês, em http://www.bbc.co.uk/programmes/p002vsn9/episodes/player)
[1] O livro foi resenhado por Terry Eagleton na London Review of Books (23/2/2011, “Indomáveis”, Terry Eagleton, London Review of Books, http://redecastorphoto.blogspot.com/2011/02/indomaveis.html) [NTs].
[2] Orig. stage army. A expressão aparece na didascália da peças de Shakespeare, para designar grupos de coadjuvantes que cruzam o palco, desaparecem nas coxias e adiante, reaparecem, como a narrativa exija, e tornam a desaparecer nas coxias [Nts].
Tradução do coletivo Vila Vudu
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Estados Unidos contra o mundo
por Immanuel Wallerstein
Houbo un tempo en que Estados Unidos tiña moitos amigos, ou polo menos seguidores relativamente obedientes. Nos días que corren, parece que non ten senón adversarios, de todas as cores políticas. É máis, non parece estarlle indo moi ben nos encontros cos seus adversarios.
Fixémonos no que estivo ocorrendo en novembro e a primeira metade de decembro de 2011. Tivo confrontacións con China, Paquistán, Arabia Saudita, Israel, Irán, Alemaña e América Latina. Non pode un dicir que leve a mellor parte nestas disputas.
O mundo interpretou a presenza e os anuncios do presidente Barack Obama en Australia como un aberto desafío a China, pois díxolle ao Parlamento australiano que Estados Unidos estaba decidido a "destinar os recursos necesarios para manter a nosa forte presenza militar nesta rexión". Para este fin, Estados Unidos está enviando a 250 marines a unha base aérea australiana en Darwin (e posibelmente aumente este número no futuro a 2.500 elementos).
Esta é só unha de tantas xogadas de despregamento militar semellante na rexión. Así, ao tempo que Estados Unidos se retira (ou se ve forzado a retirarse) de Medio Oriente -por razóns políticas e financeiras- mostra os seus músculos na rexión Asia-Pacífico. É isto realmente críbel, nun momento en que hai unha renuencia crecente da sociedade estadounidense de se involucrar no exterior e hai esixencias urxentes de que reduza os seus gastos, incluídos os gastos militares? Até o de agora, a "resposta" de China foi, virtualmente, non responder, como dicindo que o tempo está ao lado de China, aínda en canto ás súas relacións con Estados Unidos, ou talvez, especialmente para as súas relacións con Estados Unidos.
Despois está Paquistán. Estados Unidos tirou a luva. Paquistán debe deixar de protexer os seus movementos islamitas. Debe deixar de socavar o goberno de Karzai en Afganistán. Debe deixar de ameazar a India con accións militares en Caxemira. Ou que? Ese é o problema. Aparentemente, segundo documentos filtrados, Estados Unidos pensaba que o último amigo que lle quedaba en Paquistán, o actual presidente Asif Alí Zardari, podía recorrer ao líder do exército, o xeneral Ashfaq Parvez Kayani. En resposta, o xeneral Kayani fixo amaños para que o presidente Zardari fóra a Dubai a un tratamento médico. O golpe potencial, con respaldo de Estados Unidos, fallou. E se Estados Unidos intentase tomar represalias cortando a asistencia financeira, sempre está China para ocupar o seu lugar.
No medio Oriente, o que prefire o presidente Obama é que nada grave ocorra entre Israel e os palestinos, polo menos até ser reelixido. Isto non satisfai as necesidades de Arabia Saudita ou do primeiro ministro Netanyahu de Israel. Así que ambos continúan remexendo no caldeiro, desde o punto de vista estadounidense. E Estados Unidos quedou na posición de pedirlles, non de esixirlles ou controlalos.
Despois está Irán, supostamente a principal preocupación inmediata de Estados Unidos (como o é para Arabia Saudita e Israel). Así que Estados Unidos estivo utilizando os seus máis supersecretos avións non tripulados (os drones) para espiar a Irán. Non hai nada sorprendente nisto, agás que parece que dalgún xeito un destes drones aterrou en Irán. Digo "aterrou" porque o punto chave é por que e como foi que o fixo. A CIA, da cal é este drone, intentou, dun xeito pouco convincente, suxerir que houbo algunha falla mecánica que explica a cuestión. Os iranianos suxeriron que o baixaron mediante unha ciberacción. Estados Unidos di "imposíbel", mais pero Debka, a voz por Internet dos falcóns israelís, din que é certo. Eu nisto penso que é probábel. Ademais, agora que os iranianos teñen o drone, traballan en descifrar todos os seus segredos técnicos. Quen sabe? Poden publicar os segredos para que todo o mundo os coñeza. E logo, que tan supersecretos serán os drones?
Ah, si, Alemaña. Como todo mundo sabe, hai unha "crise" na zona do euro. E a chanceler Merkel estivo traballando moito para facer que os países da zona do euro acepten unha "solución" que lle funcionará a ela, tanto no político, no interior de Alemaña, como no económico no interior de Europa. Ela estivo presionando en favor dun novo tratado europeo que imporía sancións automáticas aos países da zona do euro que violen as condicións deste tratado. Estados Unidos considerou que este era o enfoque erróneo. A posición estadounidense foi que esta era unha acción a medio prazo que non resolvía a situación no curto prazo. Obama enviou o seu secretario do Tesouro, Timothy Geithner, a Europa para insistir nas súas suxestións alternativas. Non importan os detalles, nin quen é máis sabio. O importante é sinalar que Geithner foi ignorado por completo e que os alemáns seguen na súa.
Finalmente, os países latinoamericanos e do Caribe reuníronse en Venezuela para fundar unha nova organización, a Comunidade de Estados Latinoamericanos e Caribeños (Celac). Todos os países do continente asinaron, excepto os dous que non foron invitados (Estados Unidos e Canadá). A Celac está deseñada para remprazar a Organización de Estados Americanos (a OEA), que incluía a Estados Unidos e Canadá, e que suspendeu a Cuba. Levará un tempo que a OEA desapareza e que só a Celac se manteña. No entanto, isto non o están exactamente a celebrar en Washington.
[Artigo tirado do xornal mexicano ‘La Jornada’, do 18 de decembro de 2011]
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América Latina 2011
por Emir Sader
O ano foi de confirmação das tendências da década anterior, mesmo no marco do aguçamento da crise econômica internacional, cujos efeitos voltaram a sentir-se de maneira direta na economia dos países do continente.
Neste segundo ciclo da prolongada crise econômica internacional, os países que privilegiam a integração regional, da mesma forma que em 2011, conseguiram resistir e não entrar em recessão, apesar de que tiveram que diminuir seus ritmos de crescimento, pela diminuição da demanda dos mercados do centro do capitalismo e pela diminuição dos créditos.
A novidade foi que, se em 2008, surpreendidos pela crise, os países trataram de defender-se dos seus efeitos em nível nacional, desta vez se avançou na coordenação das políticas regionais, especialmente através da Unasul, para coordenar o uso das suas divisas, avançar na desdolarização do comércio regional e intensificar seus centros de financiamento regional, como o Banco do Sul e a Coordenação Andina de Fomento.
Do ponta de vista político geral, a eleição de Ollanta Humala como presidente do Peru foi o acontecimento politico novo, confirmando as tendências gerais na região. A reeleição de Cristina Kirchner consolida os governos progressistas na Argentina. No primeiro caso, um país que tinha assinado um Tratado de Livre Comércio com os EUA, se desloca da esfera de influência prioritária de Washington, para aproximar-se dos processos de integração regional. No segundo, a confirmação das tendências gerais na região de que, governos progressistas, que centram sua política no desenvolvimento econômico e social, com eixo em políticas sociais redistributivas, conseguem amplo apoio popular e tem sido reeleitos ou tem eleito seus sucessores.
Se estende assim a gama de governos progressistas, incorporando agora o Peru e desarticulando a tentativa norteamericana de construir um eixo do Pacifico – com Peru, Chile, Colombia a que se uniria o México – como contraponto ao Mercosul e à Unasul.
Unasul teve avanços importantes, sob direção colombiana, demonstrando como a Colombia estendeu um dos seus bracos para os processos de integração regional, enquanto continua seus tramites para assinar um TLC com os EUA.
Este fenômeno, junto ao movimento novo do Peru e às manifestações no Chile contra Pinera, diminuíram ainda mais a influência dos EUA na região, ainda mais que o desgaste do governo do México e o clima pre-eleitoral que passa a se instalar nesse país, com certas possibilidades de vitória do candidato de esquerda – Lopez Obrador – nas eleições de julho do próximo ano 2012.
Os governos progressistas tiveram que enfrentar conflitos internos, menos com a direita – em geral derrotada, embora seu segmento midiático continue forte – e mais com contradições dentro do campo popular. O caso boliviano foi o mais agudo, embora, o tema esteja presente em outros países, como o Equador, a Argentina, o Brasil.
Esses novos conflitos, dentro do campo popular, se dão em torno do problema não resolvido entre desenvolvimento econômico e equilíbrio ecológico, que afeta a construção de estradas, de represas, de usinas de energia, entre outros. Quando se estremam as posições, resta um desenvolvimentismo tecnocrático por um lado, um preservacionismo conservador por outro, tornando antagônicas contradições que o campo popular não tem conseguido resolver através do diálogo.
No caso da Bolivia, somando-se ao fracassado “gasolinazo” de dezembro de 2010 e outros conflitos setoriais, representou reveses para o governo Evo, que trata agora de recuperar sua liderança, um dos baluartes do fundamental processo de transformações boliviano. Nos outros países permanecem tensões, que as vezes se expressam em conflitos políticos, as vezes não, mas que permanecem sem solução ou com soluções pelas vias de fato – ou obras que terminam avançando ou outras, inviabilizadas, sem discussão e acordo politico, sobre um tema que so’ tende a se agudizar.
A perspectiva para 2012 é a de projeção do marco econômico atual, com diminuição do ritmo de crescimento das economias, mas sem cair na recessão. Do ponto de vista político, as eleições no México e na Venezuela são os dois acontecimentos de maior projeção. Na Venezuela, Hugo Chavez é o favorito para mais um mandato, com a recuperação da economia, novos programas sociais, enquanto a oposição, apesar da promessa de unificação, continua sem uma liderança com hegemonia e apoio popular. Dez pré-candidatos se apresentam, facilitando provavelmente a vitória de Hugo Chavez.
No México, o fracasso do governo Calderon marca o fim dos dois mandatos do PAN e uma disputa entre o velho PRI e o PRD. Pena Nieto, pelo PRI e Lopez Obradoz, pelo PRD, polarizam a disputa, com favoritismo, por enquanto do PRI, pela força da estrutura nacional recomposta do partido, pelos governos estaduais que detem e pelo monopólio da mídia. Lopez Obrador conta com um trabalho de base desenvolvido ao longo de cinco anos e com a imagem de democratização e luta contra a corrupção, podendo surpreender, o que fará com que as atenções dos EUA estejam voltadas no próximo ano centralmente nas eleições mexicanas.
[Artigo tirado do sitio web brasileiro ‘Agência Carta Maior’, do 20 de decembro de 2011]
Tradução: Daniela Frabasile
– Numa entrevista recente, o senhor disse que, diferentemente da resistência na América do Sul durante o final do século 20 e começo do 21, os países da chamada "Primavera Árabe" não produziram organizações políticas. Então, quais são as forças políticas que devem emergir nesses países com a queda dos governos? Há semelhanças entre elas?
Aqui na América do Sul tivemos movimentos sociais conectando-se, criando novos movimentos políticos, organizações políticas, disputando eleições e chegando ao poder – isso é o importante e completamente novo: tomar o poder a partir do sistema democrático eleitoral. No mundo árabe tivemos grandes levantamentos, mas não produziram uma nova formação política. Na Tunísia e no Egito ocorreu que as organizações políticas que haviam sido reprimidas voltaram a aparecer, principalmente, as islamistas. Então, os novos personagens, os jovens que criaram os movimentos agora, ficaram sem voz política. A escala dos movimentos foi imensa, mas não produziram nada e, por isso, o exército no Egito pode tomar o poder novamente.
Na Tunísia os islamistas ganharam as eleições. Agora, existe um grande equívoco sobre esses partidos. As pessoas automaticamente pensam em terroristas, extremistas, fundamentalistas, mas esses partidos islamistas são religiosos, socialmente conservadores, como os democratas cristãos da Europa e os partidos dominados pela Igreja Católica em outros lugares do mundo. É muito importante pôr isso em perspectiva. Os partidos apoiados por luteranos e católicos existem em diferentes lugares do mundo ocidental e são aceites, mas quando os islamistas são eleitos, todo o mundo fica nervoso. Eu não concordo com esses partidos, mas há que se aceitar seu direito a ganhar eleições e que as pessoas aprendam através de suas próprias experiências.
No Egito, se são feitas eleições livres, é provável que a Irmandade [Muçulmana] ganhe. Calculo que tenham aproximadamente 40% do eleitorado, ou seja, podem formar um governo se o exército e os EUA permitirem. Se houver mudanças na Síria, algo similar acontecerá.
É importante entender a razão disso. De 1976 a 1989/90, a esquerda e os nacionalistas foram erradicados do mundo árabe pelos estadunidenses, em aliança com os islamistas – estes sim, islamistas duros. Então, existe um vazio e novos tipos de grupos islamistas estão surgindo. No Egito e na Tunísia, a esquerda está tentando organizar novos movimentos, partidos e esperemos que tenham êxito, mas até agora não tem forças, são pequenos, assim como em todo o mundo árabe.
– O que há de comum entre esses levantamentos e as mobilizações recentes da Europa e EUA, além de serem contemporâneos?
Há dois movimentos diferentes. Um são os movimentos nos EUA e Reino Unido, que são essencialmente movimentos de protesto simbólico, ocupando espaços públicos e se mantêm só nisso. Mas são muito importantes porque, ao menos, algo está acontecendo, são movimentos em uma etapa muito embrionária, pequenos, principalmente de jovens, às vezes alguns sindicalistas, e esse é seu alcance, simbólico. Não sabemos o que acontecerá com eles. Os EUA são imensos como o Brasil, não é tão fácil organizar- se, e, na minha opinião – e isso eu disse à ocupação em Oakland –, é extremadamente importante convocar uma assembleia popular de todos os movimentos para discutir como avançar. Do contrário, se diluirão, esse é meu temor.
Outro tipo de movimento está na Espanha e Grécia, que foram movimentos imensos, não somente protestos simbólicos. Na Espanha houve imensas ocupações em Madri, Barcelona e outras cidades, mas que não formularam uma carta ou programa ainda que de limitadas exigências. É evidente que o pensam, mas não o codificaram, não o puseram num plano que pudesse unir as pessoas por um longo tempo. Por isso, apesar dos imensos movimentos, tivemos na Espanha a vitória da direita nas eleições, os movimentos não participaram da política porque dizem que "a política é suja, asquerosa, manchada". Isso é um problema porque ou se faz uma revolução – que não é possível neste momento – ou se intervém no sistema político, tal como está, como na América do Sul, e tenta-se mudá-lo com novas constituições ou seja lá o que for. Não fizeram, e a Espanha é um grande fracasso.
Na Grécia houve seis greves gerais, movimentos massivos, mas nada de resultados, e o país está entregue aos banqueiros, literalmente. Um banqueiro foi nomeado para dirigir o país, de Papandreou a Papademos. Esse é um acontecimento interessante na Europa: os partidos políticos tradicionais já não podem dirigir o sistema. Então, agora são uma colónia da União Europeia e os alemães e estadunidenses são quem decide: "Tudo bem, tomem o governo porque não confiamos neles". Isso é o que chamo de ditadura do capital que, de distintas formas, é o "extremo centro", composto pela centro-esquerda e centro-direita, onde não importa quem está no poder, fazem exatamente as mesmas coisas. Contra eles é preciso uma resposta política, caso contrário, os movimentos poderão ser esmagados. Na minha opinião, era possível que os movimentos na Grécia tomassem uma cidade. Eu disse a eles: "Tomem Tessalónica! Simplesmente tomem! Capturem! Se a presença das massas é imensa, os militares não vão intervir. Convoquem uma assembleia popular, tenham delegados de todas as áreas e elaborem um programa para toda a Grécia e isso inspirará o mundo".
– Mas eles têm suficiente organização para isso?
Esse é o problema, poderiam ter feito. Creio que se houvesse 500 ou 600 pessoas pensando com clareza... Na Grécia há a combinação de mobilizações massivas e grupos escleróticos, atrofiados na esquerda. O Partido Comunista do Exterior, o Partido Comunista do Interior, cinco dezenas de grupos trotskistas que sequer podem se unir entre si, muito menos oferecer liderança às massas.
– E o que há de comum entre os movimentos dos EUA e da Europa e os da Primavera Árabe?
A crise de 2008, do sistema Wall Street, ou seja, do neoliberalismo, contra o qual os políticos não são capazes de lidar por causa do "extremo centro". Temos uma crise imensa e eles não fazem nada para desafiar a vigência do neoliberalismo e capitalismo; seguem implementando as mesmas políticas. Até economistas burgueses tradicionais os advertem que assim não se resolverão os problemas, mas eles temem fazer mudanças e abrir espaço para mais disputas.
– Mas não é essa nossa esperança?
Sim, e sou otimista. Agora temos que dizer: só protestar simbolicamente não é suficiente. Eles [neoliberais] estão plenamente confiantes de que não existe uma alternativa a eles. Não importam os movimentos de massas. Virão e passarão e, caso se tornem muito perigosos, podem ser esmagados. A menos que haja uma crise terminal do capitalismo, os neoliberais sempre se recuperarão. Por isso que muita gente no mundo tem esperanças verdadeiras de que algo diferente possa sair da América do Sul.
– O rompimento com o capitalismo não se dá porque não há vontade popular ou porque não temos uma alternativa?
Acho que temos uma alternativa, mas as pessoas ainda continuam um pouco traumatizadas pela queda da União Soviética e pela vitória do capitalismo na China. Isso fez com que muita, muita gente, tenha medo de propor alternativas. Acho que isso acabará, mas necessitamos um ou dois grandes êxitos em algum lugar para mostrar que é possível construir um mundo e uma economia que se desfaça completamente do capitalismo. Isso não aconteceu ainda. Independentemente da solidariedade com os processos da Bolívia, Venezuela e Equador, o capital permanece. E esse é o perigo para esses processos. A situação na América do Sul é de transição, podendo ir além, num bom caminho, ou retroceder, temos que estar conscientes disso.
Se olhamos objetivamente, o mundo está pedindo a gritos um sistema diferente. Essa é a imensa tragédia e a contradição em todos os níveis: na economia, nas condições de vida durante os últimos 20 anos, o tamanho da classe trabalhadora mundial, que dizem que desapareceu, na verdade passou de 1,6 bilhão nos anos de 1980 para mais de 3 bilhões agora, com a entrada do capitalismo na China, na Rússia, a expansão na Índia e até no Brasil. A classe trabalhadora mundial é imensa, mas está muito reprimida na China, na Rússia, mas está aí.
Em segundo lugar, agora está claro que a maneira como funciona o capitalismo degrada a ecologia do mundo e o clima. Qual é a solução? A economia planejada, global ou regional, onde exista grande colaboração e planejamento para salvar o planeta da devastação do capitalismo: temos que fazer isso, isso e isso. Não produziremos mais automóveis, tentaremos tirá-los de uso – não completamente: deixaremos que sejam usados para longas viagens, não dentro das cidades (nelas, teremos um sistema de transporte público). Mas os políticos não estão pensando assim, não podem nem começar a fazê-lo. Então, a necessidade objetiva do socialismo é muito forte, mas não acontece. Esses políticos e a elite capitalista que se une contra a classe trabalhadora global e os movimentos sociais não são capazes de salvar o planeta porque necessitam maximizar os vultuosos lucros, usar o dinheiro para fazer mais dinheiro. Isso é o que os determina e o que os explodirá em algum momento.
– Após mais de uma década das mudanças na América Latina, quais são os resultados?
Varia de país a país, mas há um padrão que provavelmente é o mesmo. Foi extremamente importante esses movimentos tomarem o poder em eleições democráticas, derrubando um dos pilares do Ocidente, que dizia que todos esses grupos que querem mudanças são antidemocráticos. Isso foi um impacto tremendo que não se deve subestimar. As vitórias eleitorais sucessivas de Chávez na Venezuela são extremamente importantes. Primeiro, é um líder muito valente, sem medo de dizer o que pensa diante dos EUA, o que é raro. Segundo, o fato de o maior produtor de petróleo da América se mover à esquerda é um grande atraso para os EUA e é um erro pensar que eles se renderam. Andaram e ainda estão ocupados com o Oriente Médio, mas começaram a atuar novamente aqui. Em Honduras, o Esquadrão da Morte voltou ao poder; usaram colombianos com regularidade para desestabilizar a Venezuela, puseram cada vez mais pressão sobre o Brasil para que intervenha a favor de seus interesses no continente.
– Hoje, pela primeira vez na história da América, não há embaixadores dos EUA na Venezuela, Bolívia e Equador. Isso reflete algo.
O PT chegou ao poder depois de uma decisão muito consciente – não foi por acidente – de não desafiar o sistema neoliberal. Não o fizeram e é por isso que por muitos anos a imprensa financeira, como o Financial Times, The Economist, dizia que existia na América do Sul o modelo bom, o Brasil, e o mau, os bolivarianos. O Brasil é o ornitorrinco descrito por Francisco de Oliveira: manteve, em nível económico, o modelo neoliberal – Palocci era um grande –, mas em assuntos externos mudou. Disseram aos EUA: "já não faremos o que querem", e as tentativas muito fortes de dividir Lula e Chávez foram neutralizadas. Talvez seja somente simbólico, mas foi muito importante.
– Então, qual é o balanço?
É misto. Isso é um problema, mas é o mundo em que vivemos. Vemos reformas sociais, tentativas de mobilizar desde baixo, envolver esses setores, fazê- los participar no funcionamento do sistema e isso é muito positivo. Vimos imensas quantidades de dinheiro postas a disposição. Mas o fato de que o capitalismo exista com todas suas contradições também significa que não se pode lidar com o país como um todo. Qual é a causa do nível de insegurança na Venezuela? Se houve uma verdadeira melhora das condições de vida dos pobres, por que ela acontece? É puramente interno ou parte é promovida pela intervenção colombiana para criar instabilidade? Provavelmente um pouco dos dois. Na Bolívia também houve avanços e problemas, que recentemente explodiram num confronto entre o povo e o governo, resultado da intervenção económica de uma empresa brasileira. Portanto, são problemas que permanecem conosco e acho que a única solução em médio prazo é os governos fortalecerem e institucionalizarem estruturas desde baixo. Assim, ainda que derrotados, a estrutura se mantém alternativa ao parlamento existente e o progresso conquistado não poderá ser totalmente revertido, porque, se tentar reverter as reformas, a direita sofrerá um tremendo levante.
Então, penso que é uma situação mista. Para o resto do mundo, o que aconteceu na América do Sul é o experimento mais radical até agora – dentro do capitalismo, de acordo –, mas muito radical, porque o mundo nos disse que o Estado não deve fazer nada, o que é muito irónico agora, quando há uma tremenda crise e é preciso recorrer ao Estado.
– O senhor acredita que o Brasil está promovendo um novo tipo de imperialismo?
Nos anos de 1970, tivemos este grande debate sobre se os poderes regionais poderiam chegar a ser subimpérios. Ironicamente, Cardoso [FHC] escreveu sobre isso, quando era de esquerda, na nossa revista New Left Review. Eu acho um problema, essas são as contradições do Brasil. Se fosse um governo de direita, não haveria contradições. O governo do PT permitiu que a indústria privada se metesse em sua indústria petroleira, fomentou investimentos de corporações ocidentais no Brasil e, logo, essa é sua própria lógica para operar em outros países do continente, sem ver que esses investimentos são vistos pelas pessoas desses outros países como um tipo de exploração.
É muito comparável com a Índia em partes da Ásia. Essa é a maneira como funciona o capitalismo, a menos que tenha um Estado que o controle. Todos esses projetos deveriam ser um corpo comum das repúblicas sul-americanas. O governo brasileiro provavelmente dirá: "Não depende de nós, é o capital". Mas depende deles, sim. Eles podem controlar o capital se quiserem.
– O senhor acha importante e possível um diálogo entre os processos sul-americanos e árabes?
É muito importante que ocorra. Mas os levantamentos árabes ainda não estabeleceram vínculos entre eles mesmos. Os Estados estão colaborando entre si, os movimentos estabelecem vínculos apenas episódicos, com alguns indivíduos. É extremamente importante mostrar alo que se fez na América do Sul. Quando estamos aqui, pensamos que não é suficiente, mas comparado ao que aconteceu no mundo árabe, é enorme. Quando Chávez visitou o mundo árabe há uns cinco ou seis anos e a Al-Jazeera o entrevistou por uma hora, foi a entrevista mais popular que haviam feito até então. Porque ele falou sobre o programa social da Venezuela, como estavam utilizando os recursos do petróleo e os árabes escutando- o se diziam: "Meu Deus, por que não aqui?". O diretor da Al-Jazeera me disse que receberam mais e-mails sobre essa entrevista do que sobre qualquer outra coisa que já transmitiram. Dezenas de milhares de e-mails que perguntavam, de diferentes maneiras: "quando o mundo árabe vai produzir um Chávez?".
– E qual é a imagem do Brasil no Oriente Médio?
Não creio que o Brasil tenha uma imagem. As pessoas pensam, desafortunadamente, em outros continentes neste momento. A Venezuela é uma exceção. Chávez, basicamente, pôs a Venezuela no cenário mundial. É o único país sulamericano que de verdade é bem conhecido, pelo programa bolivariano. Não creio que o Brasil tenha uma imagem, boa ou má.
– O Fórum Social Mundial (FSM) estabeleceu um diálogo entre organizações políticas de todo o mundo e o senhor participou bastante disso. O FSM poderia ser um espaço de encontro desses levantamentos hoje?
Não estou tão convencido disso porque, quando o FSM começou, era extremamente importante, era a primeira vez, desde o grande triunfo do capitalismo, que as pessoas de todo mundo que pensavam que era preciso outra coisa começaram a se encontrar para dizer uns aos outros: "Oi! Você ainda está aqui! Que bom!". Nesses anos existiam movimentos sociais grandíssimos, que podiam ser reconhecidos, que tinham representantes identificáveis. Tínhamos movimentos e ONGs, com contradições entre eles em alguns casos. As ONGs, por sua natureza, são obrigadas por seus patrocinadores a não serem políticas e se concentrarem em um tema, como una fábrica em particular em um país em particular. Como resposta aos problemas do mundo isso não é sufi ciente. Muitas ONGs na Ásia e no mundo árabe foram advertidas por seus patrocinadores para não se oporem à guerra no Iraque. Então, agora, com os movimentos sociais debilitados e com as ONGs dominado totalmente o FSM, acho que ele não é tão relevante. Deixei de ir aos FSMs nos últimos anos. Os de Porto Alegre foram muito importantes, mas os que se levaram a cabo agora... converteram- se em uma espécie de simbolismo. Nada é feito. Só te faz sentir bem por dois ou três dias. E agora tampouco te faz se sentir tão bem. Muita gente pobre não pôde chegar aos fóruns organizados na África porque eram muito caros. Seus organizadores têm que se perguntar: "Para que estamos organizando isso? Qual é o objetivo do FSM?" Porque o mundo mudou desde os primeiros fóruns, para melhor em alguns casos, e creio que o mais importante agora é o fortalecimento regional, unir as forças progressistas na América do Sul, unir as forças progressistas no mundo árabe, unir as forças progressistas na Europa contra os banqueiros e a burocracia que não foi eleita. Nisso que acho que devemos nos concentrar. E com as novas iniciativas estadunidenses, é muito importante criar um movimento de oposição na região do Pacífico.
[Entrevista tirada do sitio web portugués ‘Esquerda’, do 14 de xaneiro de 2012]
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Que conseguiram os zapatistas?
por Immanuel Wallerstein
Immanuel Wallerstein e o Subcomandante Marcos Não há dúvida de que a insurreição zapatista de 1994 se tornou uma importante inspiração para os movimentos anti-sistema em todo o mundo. É inquestionavelmente um momento-chave no processo que levou às manifestações de 1999 em Seattle que causaram o fracasso da reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), um fracasso do qual a OMC nunca se recuperou.
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| O subcomandante Marcos com o autor do artigo |
Em 1 de Janeiro de 1994, o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) dirigiu uma insurreição em San Cristóbal de las Casas, no estado de Chiapas no México. Catorze anos depois, o EZLN realizou um colóquio internacional entre 13 e 17 de Dezembro de 2007 na mesma cidade sobre o tema "Planeta Terra: Movimentos Anti-sistémicos" - uma espécie de levantamento, tanto global quanto local, dos seus objectivos. Participei neste colóquio, como o fizeram muitos outros activistas e intelectuais. No decurso dele, o subcomandante Marcos deu uma série de seis palestras, que estão disponíveis na Internet.
Num certo sentido, o que todos perguntavam, incluindo Marcos, é o que conseguiram os zapatistas e quais são as perspectivas futuras dos movimentos anti-sistémicos - em Chiapas e no mundo? A resposta a esta questão não é simples.
Vamos começar a história em 1 de Janeiro de 1994. O dia foi escolhido para o início da insurreição porque era o dia em que entrava em vigor o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA). A palavra de ordem nesse dia era: Já Chega! Os zapatistas estavam a dizer desde o início que o seu protesto de cinco séculos contra a injustiça e a humilhação, e a exigência de autonomia, estavam ligadas, hoje organicamente, à luta mundial contra o neoliberalismo e o imperialismo, do qual o NAFTA era ao mesmo tempo uma parte e um símbolo.
Recordemos que Chiapas é talvez a mais pobre região do México e a sua população compõe-se esmagadoramente dos chamados povos indígenas. O primeiro bispo católico de Chiapas foi Bartolomé de Las Casas, um padre dominicano do século XVI que dedicou a sua vida à defesa vigorosa (diante da Igreja e da monarquia espanhola) do direito dos indígenas a terem um tratamento igual. Dos dias de Las Casas até 1994, os indígenas nunca viram esse direito reconhecido. O EZLN decidiu tentar métodos diferentes. Obtiveram sucesso? Devíamos olhar para o impacto do movimento em três arenas: no México como arena política; no sistema-mundo como um todo; na esfera da teorização sobre os movimentos anti-sistémicos.
Primeiro o México: a insurreição armada, como táctica, foi suspensa ao fim de cerca de três meses. Nunca foi retomada. E é claro que não será a menos que o Exército mexicano ou os paramilitares de direita ataquem maciçamente as comunidades autónomas zapatistas. Por outro lado, o acordo de trégua firmado com o governo mexicano - os chamados Acordos de San Andrés que reconheceram a autonomia das comunidades indígenas - nunca foram implementados pelo governo.
Em 2001, os zapatistas lideraram uma marcha pacífica pelo México até à capital, esperando com isso forçar o Congresso mexicano a legislar o essencial dos acordos. A marcha foi espectacular, mas o Congresso mexicano não agiu. Em 2005, os zapatistas lançaram "a outra campanha", um esforço para mobilizar uma aliança dos zapatistas com grupos de outras províncias, com objectivos mais ou menos semelhantes - de novo espectacular mas que não mudou as políticas do governo mexicano.
Em 2006, os zapatistas rejeitaram frontalmente apoiar o candidato de centro-esquerda à presidência Andrés Manuel López Obrador, que disputou uma eleição apertada contra o proclamado vencedor, o muito conservador Felipe Calderón. Foi esta acção que causou mais controvérsia entre os simpatizantes zapatistas no México e no mundo, muitos dos quais sentiram que essa decisão custou a eleição a López Obrador. A posição zapatista derivou do seu profundo sentimento de que política eleitoral não compensa. Os zapatistas têm sido críticos de todos os presidentes de centro-esquerda na América Latina, de Lula no Brasil a Chávez na Venezuela, apontando que todos são movimentos de cima para baixo, que nada de fundamental mudaram na base da maioria oprimida. O único governo latino-americano de que os zapatistas falam bem é o de Cuba, porque é o único que eles consideram verdadeiramente anticapitalista.
Por outro lado, no México, os zapatistas conseguiram estabelecer uma autonomia de facto das comunidades indígenas que funciona bem, apesar das perseguições e ameaças constantes do Exército mexicano. A sofisticação política e determinação destas comunidades é impressionante. Será que isto vai durar na ausência de mudanças políticas sérias no México, especialmente à luz das pressões crescentes sobre os direitos dos índios a controlarem as suas próprias terras? Este é um assunto ainda por resolver.
A imagem no cenário mundial é de certa forma diferente. Não há dúvida de que a insurreição zapatista de 1994 se tornou uma importante inspiração para os movimentos anti-sistema em todo o mundo. É inquestionavelmente um momento-chave no processo que levou às manifestações de 1999 em Seattle que causaram o fracasso da reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), um fracasso do qual a OMC nunca se recuperou. Os zapatistas podem reclamar algum crédito pelo facto de hoje a OMC se encontrar semimoribunda, como resultado de um impasse Norte-Sul.
Seattle, por seu lado, levou à criação em 2001 do Fórum Social Mundial (FSM), que se tornou o principal ponto de encontro dos movimentos anti-sistémicos do mundo. E se os próprios zapatistas nunca foram a qualquer reunião do FSM porque tecnicamente são uma força armada, permaneceram um movimento ícone dentro do FSM, uma espécie de força inspiradora.
Desde o início, os zapatistas disseram que o seu objectivo e preocupações eram de âmbito mundial - intergaláctico, no seu jargão - e ofereceram apoio e pediram activamente apoio a movimentos em todo o lado. Tiveram muito sucesso. E se algum apoio mundial começou a sofrer de fadiga, o colóquio de Dezembro de 2007 foi claramente uma tentativa de ressuscitar estas alianças.
De muitas formas, contudo, a contribuição mais importante dos zapatistas - e a mais contestada - foi no âmbito teórico. Foi esclarecedor que Marcos dedicasse a primeira das seis palestras dadas em Dezembro à importância de teorizar nas ciências sociais. Que dizem os zapatistas sobre a forma como analisam o mundo?
Em primeiro lugar, eles enfatizam que a primeira coisa que está errada no mundo de hoje é que se trata de um mundo capitalista, e que a primeira coisa a mudar é isso, algo que eles insistem que vai exigir uma luta a sério. Ora os zapatistas não são certamente os primeiros a defender isto. Que dizem a mais? Eles são parte de uma visão pós-1968 de que as análises tradicionais da Velha Esquerda eram demasiado estreitas, por parecerem enfatizar apenas os problemas e as lutas do proletariado industrial urbano. Marcos dedicou toda uma palestra às lutas das mulheres pelos seus direitos. Dedicou outra à importância crucial do controlo da terra pelos trabalhadores rurais do mundo.
E, de forma bastante surpreendente, fez várias palestras sob a rubrica "nem centro nem periferia" - rejeitando a ideia da prioridade para um ou para outro, tanto em termos de poder quanto em termos de análise intelectual. Os zapatistas proclamam que a luta pelos direitos de cada grupo oprimido é igualmente importante, e é preciso travar a luta em todas as frentes ao mesmo tempo.
Eles também dizem que os próprios movimentos precisam ser internamente democráticos. O lema é "mandar obedecendo", que poderia ser explicado por "dirigir obedecendo às vozes e desejos dos liderados". Isto é fácil de dizer e difícil de fazer, mas é um grito contra o verticalismo histórico dos movimentos de esquerda. Isto leva-os a um "horizontalismo" nas relações entre os diferentes movimentos. Alguns dos seus seguidores dizem que se opõem a jamais tomar o poder de Estado. Apesar de serem profundamente cépticos em relação a tomar o poder de estado via o "mal menor", admitem fazer excepções, como no caso de Cuba.
A insurreição zapatista foi um sucesso? A única resposta está na história apócrifa sobre a resposta que Zhou En-lai supostamente deu à pergunta: "O que acha da Revolução Francesa?" Resposta: "É muito cedo para dizer".
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Os senhores do planeta
Menos de um por cento das multinacionais controla cerca de 40 por cento da riqueza mundial, segundo revela um recente estudo de investigadores suíços que analisaram as ligações de 43 060 corporações transnacionais.
O estudo, datado de 28 de Julho (disponível em: http://arxiv.org/abs/1107.5728v2), chegou na semana passada à imprensa, através da revista britânica NewScientist. As suas conclusões confirmam a ideia generalizada de que um pequeno grupo de corporações, maioritariamente bancos, controla a vida económica (e, por via desta, política) do planeta. Porém, nunca antes se tinha chegado a apurar o número preciso deste restrito círculo, nem a real dimensão do seu poder.
Três investigadores do Instituto Federal Suíço de Tecnologia de Zurique (Eidgenössische Technische Hochschule) seleccionaram 43 060 transnacionais, de acordo com a definição da OCDE, utilizando o banco de dados Orbis 2007, onde estão registados cerca de 37 milhões de empresas e investidores.
Dentro daquele grupo identificaram uma complexa rede de participações directas e indirectas. Por exemplo, se a empresa A controla a empresa B e se esta detém participações na empresa C, então a empresa A é igualmente detentora de uma parte da empresa C.
Ao todo, os investigadores, Stefania Vitali, James B. Glattfelder e Stefano Battiston, contabilizaram mais de 600 mil participações directas e mais de um milhão de participações indirectas. De seguida descobriram a existência de um núcleo de 1318 poderosas multinacionais que representam directamente 20 por cento dos rendimentos globais.
Todavia, uma análise mais atenta mostrou que cada uma delas tem em média 20 participações em grandes empresas, responsáveis por mais de 60 por cento da riqueza total do planeta. Por outras palavras, o núcleo de 1318 empresas detém colectivamente 60 por cento da economia real mundial.
O clube dos ricos
Por sua vez, dentro deste núcleo, foi identificado um círculo ainda mais restrito de apenas 147 entidades (bancos, seguradoras, fundos de investimento, fundos de pensões, etc.) que domina grande parte das restantes. «Com efeito, menos de um por cento das corporações consegue controlar 40 por cento de toda a rede», declarou Glattfelder à NewScientist.
Além disso, como o estudo revela, estas 147 sociedades transnacionais formam na realidade uma super-entidade económica mundial, já que estão ligadas entre si por uma densa teia de participações mútuas. É verdadeiramente o cúmulo da concentração da riqueza nas mãos de meia dúzia de super magnatas da finança: três quartos do núcleo das 147 são instituições financeiras.
Embora a equipa de investigadores não se tenha debruçado sobre as implicações de tamanha concentração do poder económico, Glattfelder salienta que a tempestade financeira de 2008 mostra como esta rede pode ser instável e perigosa para a humanidade: «Se uma [corporação] sofre dificuldades, isso propaga-se». Certamente que muitas outras questões se colocam no plano político, económico e social, mas uma coisa é certa, falar em concorrência não falseada dentro desta teia oligárquica é no mínimo risível.
A lista das 50
1. Barclays plc
2. Capital Group Companies Inc
3. FMR Corporation
4. AXA
5. State Street Corporation
6. JP Morgan Chase & Co
7. Legal & General Group plc
8. Vanguard Group Inc
9. UBS AG
10. Merrill Lynch & Co Inc
11. Wellington Management Co LLP
12. Deutsche Bank AG
13. Franklin Resources Inc
14. Credit Suisse Group
15. Walton Enterprises LLC
16. Bank of New York Mellon Corp
17. Natixis
18. Goldman Sachs Group Inc
19. T Rowe Price Group Inc
20. Legg Mason Inc
21. Morgan Stanley
22. Mitsubishi UFJ Financial Group Inc
23. Northern Trust Corporation
24. Société Générale
25. Bank of America Corporation
26. Lloyds TSB Group plc
27. Invesco plc
28. Allianz SE 29. TIAA
30. Old Mutual Public Limited Company
31. Aviva plc
32. Schroders plc
33. Dodge & Cox
34. Lehman Brothers Holdings Inc*
35. Sun Life Financial Inc
36. Standard Life plc
37. CNCE
38. Nomura Holdings Inc
39. The Depository Trust Company
40. Massachusetts Mutual Life Insurance
41. ING Groep NV
42. Brandes Investment Partners LP
43. Unicredito Italiano SPA
44. Deposit Insurance Corporation of Japan
45. Vereniging Aegon
46. BNP Paribas
47. Affiliated Managers Group Inc
48. Resona Holdings Inc
49. Capital Group International Inc
50. China Petrochemical Group Company
* Os dados são de 2007, incluindo por isso a Lehman, que entretanto faliu.
[Artigo tirado do sitio web portugués ‘Avante’, núm. 1.979, do 3 de novembro de 2011]
Imperialismo e democracia: Casa Branca ou Liberty Square?
por James Petras
A relação entre imperialismo e democracia tem sido debatida e discutida há mais de 2500 anos, desde a Atenas do século V ao Liberty Park em Manhattan. Críticos contemporâneos do imperialismo (e do capitalismo) afirmam encontrar uma incompatibilidade fundamental, mencionando as crescentes medidas de estado policial que acompanham guerras coloniais, desde as leis anti-terroristas de Clinton e o "Patriot Act" de Bush até as ordens de assassinato judicial de cidadãos estado-unidenses de Obama.
No passado, contudo, muitos teóricos do imperialismo de variadas convicções políticas, que vão de Max Weber a Vladimir Lenine, argumentaram que o imperialismo unificava o país, reduzia a polarização interna de classe e criava trabalhadores privilegiados que apoiavam activamente e votavam por partidos imperiais. Um levantamento histórico comparativo das condições sob as quais imperialismo e instituições democráticas convergem ou divergem pode lançar alguma luz sobre os desafios e opções que confrontam os florescentes movimentos democráticos que irrompem por todo o globo.
O século XIX
Durante o século XIX, a expansão imperial europeia e estado-unidense cobriu o mundo. Em tandem, enraizaram-se instituições democráticas, a cidadania foi estendida à classe trabalhadora, emergiram partidos competitivos, foi aprovada legislação social e a classe trabalhadora aumentou a sua representação nas câmaras legislativas.
Terá sido o crescimento simultâneo da democracia e do imperialismo uma correlação espúria reflectindo forças subjacentes divergentes e conflituantes, uma favorecendo a conquista além-mar e outra promovendo políticas democráticas? De facto, houve uma grande dose de sobreposição entre políticas pró-imperialistas e democráticas e não simplesmente entre as elites.
Ao longo de todo o século XIX e especialmente no século XX, importantes sectores do trabalho, partidos social-democratas e numerosas eminentes personalidades de esquerda e revolucionários socialistas, em um momento ou outro combinaram o apoio a exigências dos trabalhadores e a expansão imperial. Nada menos que Karl Marx, nos seus primeiros escritos jornalísticos no New York Herald Tribune apoiou criticamente a conquista britânica da Índia como sendo uma "força modernizadora" que deitava abaixo barreiras feudais, mesmo quando ele apoiava (com críticas) as revoluções europeias de 1848.
As classes dominantes, a força condutora do imperialismo, estavam divididas. Alguns viam as reformas democráticas, a "cidadania", como um meio de efectuar conscrições em massa para guerras imperiais; outros temiam que reformas democráticas promovessem exigências sociais que solapassem a acumulação de capital e a dominação pela elite. Ambos estavam certos: Juntamente com maior participação popular veio o virulento nacionalismo moderno, o qual alimentou a construção do império. Ao mesmo tempo, o acesso em massa a direitos democráticos levou a organizações de classe elevadas, as quais ameaçavam ou desafiavam a classe dominante. Dentro das classes dominantes, as instituições democráticas eram encaradas como uma arena para a resolução pacífica de conflitos entre elites sectoriais competidoras. Mas uma vez que tomassem um carácter de massa passavam a ser percebidas como ameaças políticas.
Partidos imperiais e partidos com base de classe competiam por eleitores entre os recém emancipados trabalhadores urbanos e rurais pobres. Em muitos casos, a lealdade imperial e de classe "co-existia" dentro dos mesmos indivíduos. A questão de qual das duas, a imperialista ou consciência de classe, se tornaria "operacional" ou "destacada" estava em parte dependente dos êxitos ou fracasso de projectos políticos competidores mais vastos.
Por outras palavras, quando a expansão imperial tinha êxito com conquistas fáceis que resultavam em colónias lucrativas (especialmente colónias de povoamento) trabalhadores democráticos abraçavam o império. Isto era assim porque o império promovia comércio, nomeadamente exportações lucrativas e importações baratas, ao mesmo tempo que protegia mercados e manufacturas locais. Isto por sua vez expandia emprego e salários para sectores substanciais da classe trabalhadora. Em consequência, o trabalho e partidos social-democratas e sindicatos não se opunham ao imperialismo, na verdade muitos apoiavam-no.
Em contraste, quando guerras imperialistas levavam a prolongados conflitos sangrentos e custosos, a classe trabalhadora comutava do entusiasmo chauvinista inicial para o desencanto e a oposição. Exigências democráticas de "fim à guerra" levavam a greves que contestavam o sacrifício desigual. Sentimentos democráticos e anti-imperialistas tendiam a fundir-se.
O conflito entre democracia e imperialismo tornava-se ainda mais aparente no caso de uma derrota imperial e de ocupação militar. Tanto a derrota da França na guerra franco-germânica de 1870-71 como a derrota alemã na Primeira Guerra Mundial levou a maciços levantamentos democráticos socialistas (a Comuna de Paris de 1871 e a revolução alemã de 1918) atacando o militarismo, a dominação de classe da elite e toda a estrutura institucional imperial capitalista.
O debate imperialismo e democracia e "história a partir de baixo"
Historiadores, especialmente os praticantes da moderna "história a partir de baixo", exageram os valores democráticos e as lutas da classe trabalhadora e minimizam o prolongado e profundamente fraco apoio entre importantes sectores para o êxito da expansão imperial e da conquista. A noção de solidariedade de classe "inerente" ou "instintiva" é desmentida pelo papel activo de trabalhadores como soldados na conquista imperial, pelos povoadores além-mar, pelos marinheiros mercantes e supervisores. Colaboradores imperiais e leais ao império foram numerosos entre trabalhadores ingleses e franceses e, especialmente mais tarde, dentro do movimento trabalhista dos EUA.
O ponto teórico é que a proeminência da consciência e acção democrática sobre a imperial, entre trabalhadores, está dependente dos resultados práticos materiais de políticas imperiais e lutas democráticas.
Trabalhadores e imperialismo
A construção do império exige dos trabalhadores que produzam mais por menos a fim de exportar e investir lucrativamente em regiões colonizadas. Isto leva ao conflito capital-trabalho, especialmente na fase inicial da expansão imperial. Quando dominadores imperiais consolidam seu controle sobre países colonizados eles intensificam a exploração de mercados, trabalho e recursos. As exportações imperiais destruíram competidores locais. Os lucros ascendem, salários aumentam e trabalhadores mudam da oposição inicial em relação ao imperialismo à exigência de uma fatia do rendimento crescente dos industriais orientados para a exportação. Líderes trabalhistas e sindicais aprovaram políticas de "preferência imperial", as quais protegiam indústrias locais da competição e do controle monopolista privilegiado de mercados coloniais. Eles assim fizeram porque políticas imperiais protegiam empregos e elevavam padrões de vida.
Trabalhadores que eram activos em lutas sociais, estavan em listas negras ou presos, mudavam-se voluntariamente ou eram exilados para países colonizados. Uma vez assentes além-mar, era-lhes dado acesso privilegiado a empregos mais bem pagos como supervisores, empregados qualificados ou eram promovidos a posições de administração. Trabalhadores militantes no centro do império, quando chegavam além-mar tornavam-se colaboradores coloniais. Muitos encorajavam antigos colegas, parentes e amigos a juntarem-se a eles como colonos bem sucedidos ou trabalhadores contratados. A "domesticação" de trabalhadores e a reconciliação de sentimentos democráticos e imperialistas era uma causa e uma consequência do imperialismo com êxito.
Lealdade ao império: Não só pelo pão
Se bem que o aumento de benefícios materiais para trabalhadores do "imperialismo com êxito" sejam um factor que potencia a consciência imperial de trabalhadores, esta era reforçada pela gratificação simbólica. A sensação de ser membro do "país líder no mundo" e de que "o sol nunca se põe no império" era igualmente importante. É raro encontrar um país onde a maioria dos trabalhadores exprima "solidariedade" com os mineiros explorados, trabalhadores de plantação, camponeses deslocados e pequenos proprietários indígenas na "colónias". Quanto mais forte a influência do poder colonial, maiores as "oportunidades coloniais", mais amplos os laços coloniais, mais profunda a penetração económica e mais forte a sensação de superioridade imperial entre os trabalhadores dos estados imperiais. Não é de surpreender que os trabalhadores britânicos, os sindicatos e o Partido Trabalhista fizessem poucas objecções à selvajaria das guerras do ópio imperiais contra a China, as fomes imperiais induzidas na Irlanda no século XIX e na Índia no século XX. Da mesma forma, os partidos de trabalhadores franceses – especialmente os socialistas – estavam na vanguarda das guerras coloniais pós II Guerra Mundial contra a Indochina e a Argélia só se voltando contra elas face à derrota iminente e a desintegração interna. Também as guerras coloniais dos EUA contra Cuba e as Filipinas, suas invasões de países do Caribe e da América Central foram apoiadas pela American Federation of Labor e muitos "trabalhadores comuns", mesmo quando uma minoria de trabalhadores radicalizados se opunha a estas guerras. A "viragem parcial" do trabalho contra guerras coloniais dos EUA ocorrida durante as da Coreia, Vietname e Afeganistão resultou das perdas prolongadas e dos altos custos económicos sem vitória à vista. Deveria ser acrescentado que os trabalhadores estado-unidenses, em oposição a guerras imperiais, não exprimiram solidariedade com os movimentos de libertação nacional e os movimentos de trabalhadores dos países colonizados.
O imperialismo e os "verdadeiros democratas"
Argumentar, tal como o fazem alguns na esquerda, que imperialismo não coexiste com "verdadeira" democracia é argumentar que os últimos 150 foram destituídos de eleições livres, competição de partidos e direitos dos cidadãos, ainda que reduzidos, especialmente ao longo da última década. A realidade é que a intervenção imperial e a expansão tem sido feita precisamente à custa do sentido de "obrigação" dos cidadãos de preservar as instituições democráticas, as quais permitiram a líderes imperiais obter legitimidade e apoio activo ou aquiescência da cidadania para travar guerras coloniais sangrentas e mesmo genocidas.
Se a democracia habitualmente não tem sido um obstáculo para a expansão imperial – na verdade, uma facilitadora sob certas circunstâncias – sob que condições os movimentos de trabalhadores e cidadãos voltaram-se contra guerras imperiais? Qual foi a resposta política da classe dominante quando a maioria do eleitorado virou-se contra guerras imperiais? Por outras palavras: Quando as instituições democráticas deixam de funcionar como veículos para políticas imperiais, o que acontece?
Da democracia imperial ao estado policial imperial
Os últimos dez anos proporcionam importantes lições sobre a relação entre imperialismo e democracia nos Estados Unidos.
A partir das controversas circunstâncias políticas envolvendo terroristas que obtiveram acesso aos EUA e a seguir sequestram os aviões do 11/Setembro/2001, o governo estado-unidense lançou duas grandes guerras coloniais e numerosos evidentes ataques "clandestinos" terrestres e aéreos na Somália, Iémen, Paquistão, Líbia e outros países. A "guerra global ao terror", lançada sob o regime Bush e implementada por responsáveis militaristas-sionistas não eleitos em cooperação com a NATO e Israel foi apoiada pelo Congresso eleito democraticamente. Realmente, a vasta maioria do eleitorado, influenciada por uma imensa campanha de propaganda do medo, pela manipulação dos media e por mentiras endossou as guerras ao terror.
Dado o âmbito sem precedentes e a amplitude das guerras (uma guerra global ao terror), o vasto aumento das despesas militares e os enormes gastos para tudo o que se referia ao aparelho de repressão interna (Homeland Security), foi construído um novo estado policial centrado no executivo o qual substituiu as instituições democráticas existentes e os direitos dos cidadãos.
A trajectória da política imperial passou dos primeiros êxitos militares à problemática ocupação prolongada. Isto levou a um escalar da resistência, ao crescimento das despesas do estado, ao aprofundamento de crises fiscais, decadência social e aumento da oposição política.
Tal como no passado, as guerras imperiais contemporâneas que são prolongadas, custosas e sem vitória decisiva à vista levaram ao desencanto da cidadania, seguido pelo aumento da rejeição aberta. As maiorias assalariadas que votaram por decisores políticos imperiais e apoiaram a sua legislação que a permitia, incluindo leis (Patriot Act) que suspendiam direitos civis e constitucionais básicos, afastaram-se da agenda imperial. Hoje a maioria democrática dá prioridade à sua classe, seus interesses económicos, especialmente face a uma recessão prolongada e desemprego e subemprego próximo dos 20%. A partir de 2008-2011 as guerras infindáveis e as crises prolongadas puseram em movimento um conflito entre democracia e imperialismo.
Por outras palavras, a maioria democrática tornou-se um obstáculo à implementação e prosseguimento de guerras imperiais. A actividade militar imperial no Iraque, Afeganistão, Líbia, etc não levou a vitórias rápidas, a conquista de mercados de exportação lucrativos e tomadas de recursos naturais. Não foram criados empregos e nenhum benefício acrescido para empregados e trabalhadores no país imperial. Despesas elevadas com armas prejudicam investimentos públicos com empregos trabalho intensivo em projectos de infraestrutura criticamente atrasados. O pequeno número de empregos perigosos em países ocupados não era atraente e demasiado arriscado para os desempregados.
Por outras palavras, ao contrário da maior parte das anteriores guerras imperiais-coloniais, nada da riqueza pilhada foi utilizada para assegurar a lealdade dos trabalhadores ao império. O fardo do império progressivamente deteriora os salários e os padrões de vida dos trabalhadores assalariados. Ao longo do tempo, a tributação regressiva erodiu gradualmente qualquer sentido de grandeza chauvinista ou de superioridade. Ao invés disso, cidadãos do império desenvolveram um complexo de inferioridade política. Confrontada com oposição islâmica determinada e a ascensão do poder económico da China, apoderou-se de uma minoria uma belicosidade exagerada e da maioria uma introspecção crítica. A consciência popular de "alguma coisa basicamente errada" em Washington e na Wall Street passou a prevalecer. Os anteriores cantos de guerra e o agitar de bandeiras irreflectido, quando os exércitos do Império marchavam para o Afeganistão e o Iraque, foram substituídos pelo derrotismo furioso contra os que os enganaram. Mais de 80% do público agora articula uma visão negativa do Congresso, rejeitando ambos os partidos da guerra. Visões negativas semelhantes são mantidas em relação à Casa Branca, ao Pentágono e ao Ministério da Segurança Interna (Homeland Security).
Após uma década de guerra e quatro anos de crise económica, irrompem protestos em massa, o movimento Occupy Wall Street coloca novas opções sobre a mesa, deslocando a agenda imperial com uma denúncia poderosa da elite militarista-financeira.
Os governantes do executivo, especialmente os aparelhos judiciais, de inteligência e de polícia, implementam cada vez mais medidas arbitrárias de estado policial. Dezenas de milhões de cidadãos estão sujeitos à vigilância por parte do Ministério da Segurança Interna. O estado policial intercepta milhares de milhões de faxes, emails, sítios web e chamadas telefónicas. A ligação entre imperialismo e democracia rompeu-se ao ponto de o império em declínio já não poder mais assegurar o apoio ou a aquiescência do eleitorado.
Cada vez mais tramas terroristas bizarras são fabricadas pelas agências de inteligência. A trama da bomba iraniana contra o embaixador da Arábia Saudita em Washington foi o esforço mais primitivo e grosseiro para recuperar apoio público ao militarismo imperial na região do Golfo. Aparte a politicamente influente, mas infinitamente pequena, configuração de poder pró Israel-sionista, a opinião pública dos EUA não se desvia da sua agenda interna; da sua busca por empregos internos e da oposição à Wall Street.
Quando o conflito entre imperialismo e democracia se intensifica, o "consenso" anterior fractura-se. A Casa Branca e o Congresso optam pelo imperialismo apoiado num estado policial profundamente anti-democrático. A maioria do eleitorado pressiona por um avanço, utilizando seus direitos democráticos remanescentes, a fim de mudar a agenda política do império rumo a uma república social.
Conclusão
Argumentámos que império e democracia têm sido complementares em tempos de imperialismo ascendente. Mostrámos que quando guerras de conquista têm sido curtas e baratas, e quando os resultados têm sido lucrativos para o capital e criam empregos para o trabalho, as maiorias democráticas unem-se no apoio a elites imperiais. Instituições democráticas floresceram quando impérios além-mar proporcionavam mercados, recursos baratos e elevavam padrões de vida. Trabalhadores votaram por partidos imperiais, mantiveram opiniões positivas de responsáveis executivos e legislativos, e aplaudiam os veteranos das guerras coloniais (nossas tropas). Alguns chegavam mesmo a voluntariar-se aderir aos militares. Com vasto apoio da cidadania ao império, o estado agia mais ou menos de acordo com as garantias constitucionais. Mas o casamento da democracia e do imperialismo não é "estrutural". Ele está dependente de uma série de condições variáveis, as quais podem causar uma ruptura profunda entre os dois, como estamos hoje a testemunhar.
Guerras imperiais prolongadas, ruinosas e custos que desgastam crescentemente padrões de vida por mais de uma geração minaram o consenso entre dominadores imperiais e cidadãos democráticos. Sinais precursores desta divergência potencial foram evidentes durante o último período da Guerra da Coreia, quando a opinião pública voltou-se contra o presidente Truman, arquitecto da Guerra-Fria e da invasão estado-unidense da Coreia. Mais evidência disso emergiu durante a Guerra do Vietname. Confrontados com uma guerra prolongada e perdida, a qual punha em perigo as vidas e oportunidades de dezenas de milhões de americanos em idade de conscrição, milhões na vida civil e militar optaram por acabar com a guerra e questionar intervenções imperiais. O estado repressivo ainda não estava suficientemente organizado para aterrorizar e conter o levantamento democrático da década de 1970. O fim da guerra do Vietname representou o ponto alto na tentativa da América democrática de conter o imperialismo e reconstruir a república.
As subsequentes pequenas, rápidas, de baixo custo e militarmente com êxito intervenções imperiais no Panamá, Granada, Haiti e alhures não provocaram qualquer conflito entre imperialismo e democracia. Nem tão pouco as guerras imperiais clandestinas e por procuração na Nicarágua, El Salvador, Guatemala, Angola, Moçambique, Afeganistão e nos Balcãs provocaram qualquer oposição democrática significativa uma vez que foram de baixo custo (em vidas e financiamento) e não foram acompanhadas por quaisquer cortes drásticos em despesas sociais e rendimentos.
No princípio as actuais guerras ofensivas globais no Afeganistão, Iraque eram encaradas por alguns estrategas imperiais à mesma luz. Vitórias rápidas, de baixo custo e com poucas despesas internos. Um oficial pró Israel altamente colocado no Pentágono argumentou mesmo que a invasão e ocupação do Iraque seria "auto-financiável" através de um apresamento do petróleo.
As guerras do século XXI acabaram por ser de outra forma. Elas seguiram o padrão coreano-vietnamita, não o padrão centro-americano/caribenho. Imensamente custosas, as guerras do século XXI não têm levado a vitórias rápidas e, pior ainda, ocorreram em meio a uma crise económica sem precedentes, sem o boom manufactureiro e de mercado das décadas de 1950/1960, os quais amorteceram a retirada da Coreia e do Vietname.
A divergência entre imperialismo e democracia tornou-se aguda. A dissensão democrática aumentou e o estado policial tornou-se mais proeminente e directo. O imperialismo confia cada vez mais na "fabricação de tramas de terror internas e externas" para aumentar os poderes da maquinaria repressiva e dominar por decreto. As exortações da Casa Branca soam falsas. O público dá cada vez menos crédito às acções dos seus governantes – detenções arbitrários "justificáveis", vigilância maciça e assassinatos extra-judiciais de cidadãos estado-unidenses (e mesmo dos seus filhos).
Nós agora enfrentamos perigos a longo prazo e em grande escala, inerentes a democracias imperiais. Não devido a "contradições internas" mas sim porque mais cedo ou mais tarde potencias imperiais encontram seu adversário na forma de lutas prolongadas de movimentos anti-imperialistas e de libertação nacional. Só quando guerras imperiais cobram a sua portagem à maioria assalariada é que a ruptura entre democracia e imperialismo se verifica. Então e só então são activadas forças democráticas para criar uma república democrática, com justiça social e sem império.
O perigo actual é que estruturas imperiais estão profundamente incorporadas em todas as instituições políticas chave e são apoiadas por um vasto e extenso aparelho de polícia estatal sem precedentes, o Homeland Security. Talvez seja preciso um grande choque político-militar externo para atear a espécie de levantamento democrático em massa necessário para transformar um estado imperial numa república democrática. Um crescente sentimento de isolamento e impotência afecta o regime dominante face a derrotas militares além-mar e ao implacável aprofundamento da crise económica interna. O perigo é que estes temores e frustrações possam induzir a Casa Branca a tentar recuperar apoio popular atacando o Irão sob um pretexto fabricado. Um assalto EUA/Israel ao Irão resultará numa conflagração à escala mundial. O Irão poderia retaliar e retaliaria. Poços de petróleo sauditas e no Golfo ficariam em chamas. Rotas de navegação vitais seriam bloqueadas. Os preços dos combustíveis disparariam enquanto economias asiáticas, da UE e dos EUA entrariam em crash. Tropas iranianas com seus aliados iraquianos bloqueariam guarnições estado-unidenses em Bagdad, o Afeganistão, Paquistão e o resto do mundo muçulmano pegaria em armas. As forças dos EUA teriam de render-se ou retirar-se. A guerra estilhaçaria o Tesouro dos EUA. Os défices disparariam fora de controle. O desemprego duplicaria. Esta sequência provável de acontecimentos dispararia um movimento democrático maciço e uma luta decisiva entre uma república emergente a lutar por nascer e um império decadente a ameaçar arrastar o mundo para o inferno da sua própria morte.
23/Outubro/2011
O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=27238. Tradução de JF.
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Neolíngua
por Luis Britto Garcia [*]
Em nome do imperialismo humanitário, da atrocidade bondosa e do holocausto benfeitor, intensificamos a agressão pacífica, o bombardeio filantrópico, o extermínio vivificante e o genocídio benévolo para assegurar o arrebatamento honrado, o saqueio generoso e a pilhagem altruísta. Multiplicando as guerras preventivas, expandimos o assassinato profiláctico, o extermínio saudável, a hecatombe caritativa e a matança benfeitora para impor a barbárie progressista, a democracia oligárquica, o racismo tolerante, o encarceramento libertador, a tortura compassiva e a opressão redentora. Tão elevados fins justificam os meios da fraude informativa, da notícia inventada e a tergiversação verídica que, apoiadas na ocultação transparente, na ignorância ilustrada e na mentira confiável evidenciam a elevada baixeza do nosso oportunismo ético, etapa superior da prostituição moralista que nos assegura a verdadeira mentira da eternidade efémera da omnipotência impotente.
SHOW BUSINESS
Para impedir que continue uma repressão inventada pelos media, os bombardeiros calcinam o país até conseguir a conquista da sua Praça Central representada por actores extra em maqueta edificada no outro extremo do mundo, para proclamar a vitória da Junta de Sediciosos cujo presidente não aparece porque foi assassinado pelos próprios sediciosos enquanto Judas Iscariote apresenta o genocídio como vitória de um movimento social composto por financeiros que rapinam reservas internacionais, abutres que repartem entre si seus recursos, alianças militares que só atacam países mais débeis e mercenários idealistas que triunfam definitivamente numa guerra que não acabará nunca mais.
COVIL
Todos os caminhos levam a Covil, capital do Império.
Em Covil foram parar as Maravilhas do Mundo, devidamente saqueadas aos povos que as criaram.
Não há uma pedra de calçamento em Covil que não tenha sido arrancada do trabalho escravo, nem um muro que não provenha do preço de aldeias arrasadas.
No engaste de todas as jóias está inscrito o custo em sangue dos mineiros mortos nas galerias.
Os caminhos dos jardins ostentam as ossadas dos imolados nas guerras coloniais.
Covil consome as frutas mais deliciosas e com elas vêm as mãos cortadas dos colectores que não completaram a quota fixada.
Pelo subsolo de Covil correm as cloacas de suor e de sangue da miséria de onde surge sua deslumbrante riqueza.
Covil ilumina o mundo com luminárias acesas na medula dos explorados.
Nos monumentos dos grandes homens de Covil figuram os números exactos das suas hecatombes.
Covil tem academias onde se demonstram as subtilezas alcançáveis com o ócio pago pelos consumidos por esgotamento.
Em todas as suas escolas ensina-se o extermínio e a destruição em todas as suas universidades.
Não é que Covil seja sublime, mas destrói toda obra humana que possa empaná-la.
Sua sabedoria é sinónima de botim e sua filosofia um eufemismo do latrocínio.
Covil é capital da moda e as elegantes disputam entre si os exclusivos modelos de pele humana bronzeada.
Muito filosofa Covil sobre como aperfeiçoar e dissimular os silogismos do saqueio.
Os deliciosos vinhos de Covil têm poços de sangue.
Causam assombro as catedrais de Covil, onde comparecem os fiéis a serem devorados.
Véus subtis tecem os artistas de Covil para atenuar o clamor dos sacrificados.
O mais supremo êxito de Covil é provar que todo humanismo se alimenta devorando humanos.
Após cada assalto de Covil proliferam sicofantas empenhados em demonstrar que o único desejo das vítimas era serem assaltadas.
Tantas mortes quanto provocou Covil financiam o laboratório onde se prepara a Morte Absoluta de tudo.
Covil devora o mundo e seus habitantes devoram-se entre si até que nada reste.
[*] Escritor, venezuelano.
O original encontra-se em http://luisbrittogarcia.blogspot.com
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
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"Capitalismo: o que é isso?"
por Emir Sader
As crises revelam a essência da irracionalidade do capitalismo: porque há excesso de produção ou falta de consumo, se destroem mercadorias e empregos, se fecham empresas, agudizando os problemas. Até que o mercado “se depura”, derrotando os que competiam em piores condições – tanto empresas, como trabalhadores – e se retoma o ciclo expansivo, mesmo se de um patamar mais baixo, até que se reproduzam as contradições e se chegue a uma nova crise...
As duas referências mais importantes para a compreensão do mundo contemporâneo são o capitalismo e o imperialismo.
A natureza das sociedades contemporâneas é capitalista. Estão assentadas na separação entre o capital e a força de trabalho, com aquela explorando a esta, para a acumulação de capital. Isto é, os trabalhadores dispõem apenas de sua capacidade de trabalho, produzir riqueza, sem os meios para poder materializa-la. Tem assim que se submeter a vender sua força de trabalho aos que possuem esses meios – os capitalistas -, que podem viver explorando o trabalho alheio e enriquecendo-se com essa exploração.
Para que fosse possível, o capitalismo precisou que os meios de produção –na sua origem, basicamente a terra – e a força de trabalho, pudessem sem compradas e vendidas. Daí a luta inicial pela transformação da terra em mercadoria, livrando-a do tipo de propriedade feudal. E o fim da escravidão, para que a força de trabalho pudesse ser comprada. Foram essas condições iniciais – junto com a exploração das colônias – que constituíram o chamado processo de acumulação originaria do capitalismo, que gerou as condições que tornaram possível sua existência e sua multiplicação a partir do processo de acumulação de capital.
O capitalismo busca a produção e a comercialização de riquezas orientada pelo lucro e não pela necessidade das pessoas. Isto é, o capitalista dirige seus investimentos não conforme o que as pessoas precisam, o que falta na sociedade, mas pela busca do que dá mais lucro.
O capitalista remunera o trabalhador pelo que ele precisa para sobreviver – o mínimo indispensável à sobrevivência -, mas retira da sua força de trabalho o que ele consegue, isto é, conforme sua produtividade, que não está relacionada com o salário pago, que atende àquele critério da reprodução simples da força de trabalho, para que o trabalhador continue em condições de produzir riqueza para o capitalista. Vai se acumulando assim um montante de riquezas não remuneradas pelo capitalista ao trabalhador – que Marx chama de mais valia ou mais valor – e que vai permitindo ao capitalista acumular riquezas – sob a forma de dinheiro ou de terras ou de fábricas ou sob outra forma que lhe permite acumular cada vez mais capital -, enquanto o trabalhador – que produz todas as riquezas que existem – apenas sobrevive.
O capitalista acumula riqueza pelo que o trabalhador produz e não é remunerado. Ela vem por tanto do gasto no pagamento de salários, que traz embutida a mais valia. Mas o capitalista, para produzir riquezas, tem que investir também em outros itens, como fábricas, máquinas, tecnologia entre outros. Este gasto tende a aumentar cada vez mais proporcionalmente ao que ele gasta em salários, pelo peso que as máquinas e tecnologias vão adquirindo cada vez mais, até para poder produzir em escala cada vez mais ampla e diminuir relativamente o custo de cada produto. Assim, o capitalista ganha na massa de produtos, porque em cada mercadoria produzida há sempre proporcionalmente menos peso da força de trabalho e, por tanto, da mais valia - que é o que lhe permite acumular capital.
Por isso o capitalista está sempre buscando ampliar sua produção, para ganhar na competição, pela escala de produção e porque ganha na massa de mercadorias produzidas. Dai vem o caráter sempre expansivo do capitalismo, seu dinamismo, mobilizado pela busca incessante de lucros.
Mas essa tendência expansiva do capitalismo não é linear, porque o que é produzido precisa ser consumido para que o capitalista receba mais dinheiro e possa reinvestir uma parte, consumir outra, e dar sequencia ao processo de acumulação de capital. Porém, como remunera os trabalhadores pelo mínimo indispensável à sobrevivência, a produção tende a expandir-se mais do que a capacidade de consumo da sociedade – concentrada nas camadas mais ricas, insuficiente para dar conta do ritmo de expansão da produção.
Por isso o capitalismo tem nas crises – de superprodução ou de subconsumo, como se queira chamá-las – um mecanismo essencial. O desequilíbrio entre a oferta e a procura é a expressão, na superfície, das contradições profundas do capitalismo, da sua incapacidade de gerar demanda correspondente à expansão da oferta.
As crises revelam a essência da irracionalidade do capitalismo: porque há excesso de produção ou falta de consumo, se destroem mercadorias e empregos, se fecham empresas, agudizando os problemas. Até que o mercado “se depura”, derrotando os que competiam em piores condições – tanto empresas, como trabalhadores – e se retoma o ciclo expansivo, mesmo se de um patamar mais baixo, até que se reproduzam as contradições e se chegue a uma nova crise.
Esses mecanismos ajudam a entender o outro fenômeno central de referência no mundo contemporâneo – o imperialismo – que abordaremos em um próximo texto.
[Artigo tirado do sitio web ‘Agência Carta Maior’, do 5 de janeiro de 2010]
Emir Sader é Profesor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Río de Janeiro (Uerj), é coordinador do Laboratorio de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de "A vingança da História".
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Uma autêntica revolução contra o poder que conduziu a esta crise. E aí está a razão pela qual nada tem sido noticiado no decurso dos últimos dois anos. O que é que poderia acontecer se os cidadãos europeus lhe viessem a seguir o exemplo?
Sinteticamente, eis a sucessão histórica dos factos:
- 2008: o principal banco do país é nacionalizado. A moeda afunda-se, a Bolsa suspende a actividade. O país está em bancarrota.
- 2009: os protestos populares contra o Parlamento levam à convocação de eleições antecipadas, das quais resulta a demissão do primeiro-ministro e de todo o governo.
A desastrosa situação económica do país mantém-se.
É proposto ao Reino Unido e à Holanda, através de um processo legislativo, o reembolso da dívida por meio do pagamento de 3.500 milhões de euros, montante suportado mensalmente por todas as famílias islandesas durante os próximos 15 anos, a uma taxa de juro de 5%.
- 2010: o povo sai novamente à rua, exigindo que essa lei seja submetida a referendo.
Em Janeiro de 2010, o Presidente recusa ratificar a lei e anuncia uma consulta popular.
O referendo tem lugar em Março. O NÃO ao pagamento da dívida alcança 93% dos votos.
Entretanto, o governo dera início a uma investigação no sentido de enquadrar juridicamente as responsabilidades pela crise.
Tem início a detenção de numerosos banqueiros e quadros superiores.
A Interpol abre uma investigação e todos os banqueiros implicados abandonam o país.
Neste contexto de crise, é eleita uma nova assembleia encarregada de redigir a nova Constituição, que acolha a lições retiradas da crise e que substitua a actual, que é uma cópia da constituição dinamarquesa.
Com esse objectivo, o povo soberano é directamente chamado a pronunciar-se.
São eleitos 25 cidadãos sem filiação política, de entre os 522 que apresentaram candidatura. Para esse processo é necessário ser maior de idade e ser apoiado por 30 pessoas.
- A assembleia constituinte inicia os seus trabalhos em Fevereiro de 2011 a fim de apresentar, a partir das opiniões recolhidas nas assembleias que tiveram lugar em todo o país, um projecto de Magna Carta.
Esse projecto deverá passar pela aprovação do parlamento actual bem como do que vier a ser constituído após as próximas eleições legislativas.
Eis, portanto, em resumo a história da revolução islandesa:
- Demissão em bloco de um governo inteiro;
-Nacionalização da banca;
- Referendo, de modo a que o povo se pronuncie sobre as decisões económicas fundamentais;
- Prisão dos responsáveis pela crise e
- reescrita da Constituição pelos cidadãos:
Ouvimos falar disto nos grandes media europeus?
Ouvimos falar disto nos debates políticos radiofónicos?
Vimos alguma imagem destes factos na televisão?
Evidentemente que não!
Ouvimos falar disto nos debates políticos radiofónicos?
Vimos alguma imagem destes factos na televisão?
Evidentemente que não!
O povo islandês deu uma lição à Europa inteira, enfrentando o sistema e dando um exemplo de democracia a todo o mundo.
Theo Buss
Theo Buss






